
A representação da Última Ceia, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, que incluiu drag queens. Imagem captada da transmissão televisiva.
Uma alegada representação da Última Ceia, incluindo drag queens, deixou os bispos franceses furiosos com a cerimónia da abertura dos Jogos Olímpicos Paris 2024. No início de um dos segmentos da cerimónia, intitulado “Festividade”, várias pessoas juntam-se numa mesa, numa clara alusão à ceia de Jesus e os seus apóstolos.
“A cerimónia de abertura proposta pela COJOP [comité organizador dos Jogos Olímpicos de Paris]”, na sexta-feira à noite, “ofereceu ao mundo inteiro momentos maravilhosos de beleza, alegria, ricos em emoções e universalmente elogiados. Esta cerimónia incluiu, infelizmente, cenas de escárnio e de zombaria do Cristianismo, que deploramos profundamente”, escrevem os representantes da Conferência dos Bispos e da organização Holy Games, que promove um programa da Igreja Católica para conciliar o desporto e a fé, durante estes Jogos.
No comunicado de imprensa, divulgado no sábado, e amplificado pelos média franceses, como o Libération, os autores do texto evitam exemplificar as referidas “cenas de escárnio e zombaria”, mas todos que assistiram à cerimónia associaram a crítica à representação da Última Ceia, uma cena que contou com a presença da DJ e produtora Barbara Butch — um ícone da comunidade LGBTQ+ — ladeada por artistas drag e dançarinos.
“Pensamos em todos os cristãos de todos os continentes que foram feridos pelo excesso e pela provocação de certas cenas. Esperamos que compreendam que a celebração olímpica vai muito para além dos preconceitos ideológicos de alguns artistas”, acrescentam a Conferência dos Bispos e os organizadores dos Holy Games. Que acrescentam um agradecimento “aos membros de outras confissões religiosas que manifestaram a sua solidariedade connosco”.
“O desporto é uma maravilhosa atividade humana que alegra profundamente os corações dos atletas e dos espectadores. O Olimpismo é um movimento que serve esta realidade de unidade e fraternidade humana. Abram caminho para o campo da competição, que traga verdade, consolo e alegria a todos”, aponta o comunicado, no final.
Uma festa pagã, defende-se a organização
Este domingo, o diretor artístico da cerimónia olímpica, Thomas Jolly, recusou que o quadro fosse uma sátira à representação bíblica, segundo notícia da agência Lusa, divulgada pelo Público.
A organização negou qualquer intenção de ofender grupos religiosos na sequência das críticas e Thomas Jolly negou que A Última Ceia tenha servido de inspiração para o número. “A ideia era fazer uma grande festa pagã relacionada com os deuses do Olimpo”, disse Jolly ao canal BFMTV.
De resto, sublinha a notícia, a presença de um ator mascarado de Dionísio assinala que não se tratava da representação da ceia de Jesus Cristo com os apóstolos, antes da traição e prisão.
O jornal Libération associa este protesto ao de vozes da extrema-direita (em particular), que se levantaram contra uma cerimónia que celebrou a liberdade, a diversidade, a igualdade e a fraternidade, com várias cenas que fogem ao estereótipo redutor de uma suposta “família tradicional” em que a direita e certos setores da Igreja procuram arrumar as famílias.
Para dirigentes da direita, a cerimónia foi “wokista”, termo usado para caracterizar o movimento que se mostra conscientes da gravidade das injustiças sociais existentes (nomeadamente, em questões de discriminação e racismo), ou de forma depreciativa (como no caso das críticas ouvidas) quando se referem a ações que alegadamente fomentam o “politicamente correto” e uma “cultura de cancelamento”.
A eurodeputada Marion Maréchal, neta de Jean-Marie Le Pen, fundador da extremista Frente Nacional, atacou nas redes sociais uma visão que “procura ridicularizar os cristãos”. “A todos os cristãos de todo o mundo que estão a assistir à cerimónia de abertura e se sentiram insultados por esta paródia drag queen da Última Ceia, saibam que não é a França que fala, mas uma minoria de esquerda pronta para qualquer provocação”, escreveu.










