
“Percebi que a Igreja é muito mais do que a Igreja do Brasil, e que muitas vezes o que nós queremos de avanço, para outros é retrocesso”, partilhou Sônia Gomes de Oliveira. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
É presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), assistente social de profissão e integrou o grupo de dez “não-bispos” escolhidos para representar a América Latina na XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Em entrevista ao 7MARGENS, horas antes de deixar o Vaticano e regressar à sua terra natal – Montes Claros, no norte de Minas Gerais – Sônia Gomes de Oliveira, 55 anos, diz ter-se sentido numa espécie de “laboratório”, no qual fez reverberar as vozes dos mais pobres e de onde saiu com ainda mais esperança do que entrou. Isto porque o Documento Final, apesar de não refletir tudo aquilo que emergiu do processo sinodal, deixa muitas “brechas” abertas para as mudanças que julga necessárias na Igreja. E porque percebeu que o “seu” Brasil está no caminho certo para contribuir para essas mudanças.
7MARGENS – Olhando para os três anos de processo que ficaram para trás, o que é que, na sua opinião, este sínodo teve de melhor?
SÔNIA GOMES DE OLIVEIRA – Penso que o melhor de tudo foi a metodologia de escuta, que começou a ser implementada mesmo antes de virmos para o Vaticano. No meu caso particular, essa metodologia levou-me até aos mais pobres, com quem já trabalhava no meu dia a dia, e a perguntar-lhes sobre o que sentiam em relação à Igreja, o que esperavam dela… E aí comecei a dar conta de como a Igreja estava afastada justamente dessas pessoas mais pobres, de como a consideravam burocrática e fechada em si mesma… Depois, quando participei na primeira sessão da assembleia sinodal, no ano passado, foi muito importante perceber que outros haviam escutado o mesmo, e que isso tinha chegado até ali. E foi muito importante eu própria ter a oportunidade de partilhar o que havia escutado, de dar o meu testemunho e trazer à assembleia as falas de mulheres vítimas de violência, de reclusos, de pessoas em situação de sem-abrigo… Consegui trazer essas vozes que estavam no meu coração e fazê-las reverberar. Isso para mim foi o mais importante, pelo menos num primeiro momento…
7M – Sentiu que essas vozes foram realmente escutadas? E que isso mudou alguma coisa na Igreja?
Eu sei que quem não participou diretamente nas assembleias tem algumas dúvidas em relação a este sínodo… Será que vai dar certo? Será que vai mudar alguma coisa? O que eu senti foi que isto era uma espécie de “laboratório”. Não sei se a palavra é a melhor, mas o que quero dizer é que aqui tivemos representada a Igreja de todo o mundo. Quando cheguei aqui, percebi que a Igreja era muito mais do que a Igreja do Brasil, e que muitas vezes o que nós queremos de avanço, para outros é retrocesso… e vice-versa. Isso mexeu bastante comigo, porque muitas vezes estamos no Brasil, na nossa vida pastoral, e começamos a questionar um monte de coisas, a achar que há tanto para mudar… e depois chegamos aqui e começamos a ver que, afinal, até estamos a conseguir fazer muito!
7M – Quer dizer que a Igreja do Brasil pode servir de inspiração para mudanças noutras Igrejas?
Exatamente! Quando, no documento final, se fala na realização de assembleias eclesiais, por exemplo, nós já temos essa experiência. Talvez tenhamos que aprimorar um pouquinho os organismos existentes, ampliar para incluir ainda mais pessoas… mas já conseguimos fazer muita coisa em conjunto. E em relação ao papel das mulheres, também já temos igrejas a trabalhar a questão da ministerialidade delas, por isso, nessas áreas, podemos dizer que a Igreja do Brasil está no bom caminho e é um trabalho a continuar…
7M – Mas imagino que a realidade social continue a ser um grande desafio… as coisas melhoraram com a mudança de Governo?
Sim, melhoraram muito… O índice de desemprego já diminuiu, o défice habitacional está a ser colmatado com o regresso do programa “Minha Casa Minha Vida”, que tinha sido suspenso no Governo anterior, e há várias bolsas de apoio, como a Bolsa Família e o CadÚnico, que muitas pessoas tinham perdido e agora puderam voltar a beneficiar delas… Só na minha cidade, Montes Claros, dez mil pessoas tinham perdido o acesso ao CadÚnico, que é um benefício de 600 reais [cerca de 95 euros]. Hoje, chega justamente àqueles que mais precisam. E antes, quando alguém que estava em situação de sem-abrigo morria, era a Igreja que retirava dinheiro das esmolas para poder enterrar dignamente essa pessoa. Agora, já se consegue isso através de programas sociais. Além disso, tem havido um diálogo muito mais aberto da parte do Governo federal com os movimentos sociais, que são aqueles que estão na linha da frente. Diálogo esse que favorece a implementação da justiça. Mas sem dúvida que continua a ser uma realidade social muito complexa e que precisamos de olhar mais para os pobres e para as periferias.

“Foi muito importante eu própria ter a oportunidade de partilhar o que havia escutado e trazer à assembleia as falas de mulheres vítimas de violência, de reclusos, de pessoas em situação de sem-abrigo…”, reconheceu a presidente do CNLB. Foto: Direitos reservados
7M – Outro grande desafio para a Igreja do Brasil é o cuidado da Casa Comum, particularmente da região amazónica. Este Sínodo deu-vos algumas ferramentas para trabalharem nessa área?
O Sínodo acabou por não se debruçar tanto sobre essa área, talvez por já ter havido o Sínodo para a Amazónia, em 2019. Houve algumas intervenções e reflexões sobre a importância da ecologia integral, sim, mas nada muito desenvolvido. No caso do Brasil, prosseguimos o trabalho, com a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e a Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA). No meu caso, que não estou na região da Amazónia, mas sim na região do Cerrado, temos uma luta muito grande na preservação do mesmo, devido ao grande impacto das mineradoras na região. É uma luta grande e desigual, porque o Governo libera muito e as mineradoras têm muitos recursos financeiros. E está a ser difícil manter a esperança para o povo dali: as comunidades quilombolas, os geraizeiros… Mas é uma luta da qual não nos cansamos. Tanto que o tema da Campanha da Fraternidade, no próximo ano no Brasil, será: “Fraternidade e Ecologia Integral”. Talvez o tema devesse ter estado mais presente neste Sínodo, mas no documento final vem referido que os pobres devem ser o centro da nossa ação e isso, a nós no Brasil, já nos dá a certeza de que é ali naquele pedaço de Casa Comum que precisamos de estar, protegendo e defendendo os que ali vivem.
7M – Outro tema que não mereceu muito destaque no Documento Final foi o dos abusos…
É verdade! Para mim, foi uma surpresa grande que o tema dos abusos tivesse ficado reduzido a praticamente apenas uma linha, tendo em conta que foi um tema muito debatido em várias mesas da assembleia, e trazido por muitos países. Penso que não basta afirmar, como está no documento, que é preciso haver uma política de proteção e salvaguarda. Acho que fazia falta concretizar melhor o que fazer e como fazer. E lembrar que não se trata apenas de abusos sexuais de menores, mas também de abusos de consciência, de poder… muitas vezes sobre as pessoas que trabalham nas instituições da Igreja. O documento poderia até referir que é preciso denunciar esses abusos na Justiça civil… porque muitas vezes os grupos de apoio são próximos das conferências episcopais e não inspiram confiança às vítimas.
7M – Houve mais alguma questão que, na sua opinião, não tenha recebido o destaque necessário no Documento Final?
Sim, a questão do papel dos leigos. Se formos analisar o documento, fala-se muito dos bispos, muito dos presbíteros… mas pouco das religiosas, que estão tantas vezes na linha da frente, e muito pouco de nós, leigos. Mas há algumas “brechas” no documento que talvez permitam a abertura necessária para uma maior ação dos leigos. Refiro-me ao facto de o documento trazer um novo olhar sobre a estrutura da Igreja. E todos sabemos que uma das coisas que mais dificultam a sinodalidade é a estrutura que temos atualmente… O facto de o documento falar na renovação da estrutura dá-me algum alento, embora continue a achar que poderia falar mais sobre nós, concretamente, porque somos a maioria na Igreja e somos quem faz grande parte do trabalho pesado.
7M – A verdade é que pela primeira vez os leigos, e particularmente as mulheres, foram membros da assembleia sinodal… Acha que vai continuar a ser assim, e que esses membros deveriam ser em ainda maior número?
Sim, acredito que vai continuar. É preciso dar muito mais voz aos leigos, e em particular às mulheres. E no próximo sínodo, tem de haver mais mulheres! Durante esta assembleia, muitas vezes, nas mesas, quando chegava a vez de uma mulher falar, ainda havia quem revirasse os olhos… E se formos ver o ponto 60 do Documento Final, que diz que as mulheres devem assumir mais papeis de liderança na Igreja e que a questão do acesso das mulheres ao ministério diaconal permanece em aberto, foi aquele em que a margem de aprovação foi menor… com 97 votos negativos! Isso significa que a nossa Igreja ainda é muito masculinizada, é muito machista… mas quem faz a maior parte do serviço somos nós, por isso precisamos de ser reconhecidas e escutadas.

“É preciso dar muito mais voz aos leigos, e em particular às mulheres”, defendeu Sônia Gomes de Oliveira, antes de se despedir do Vaticano. Foto: Direitos reservados
7M – Muitos pensaram até que o papel das mulheres acabaria por nem surgir neste Documento Final…
Sim, eu própria cheguei a temer que não fosse feita qualquer referência, ou que, caso fosse, o diaconado das mulheres não ficasse em aberto. Mas aqui acho que, claramente, o Espírito Santo agiu para deixar também essa “brecha”…
7M – Acha que as mulheres deveriam poder ser ordenadas diáconos?
Eu digo que talvez ainda não estejamos preparados para um diaconato feminino. E também não quero que deem o diaconato às mulheres só para lhes calar a boca…Penso que o que precisamos de fazer é pegar nas mulheres que estão à frente das comunidades, que estão lá na Amazónia, que fazem um ministério bonito, que muitas vezes ficam três, quatro meses sem um padre lá ir, mas mantêm a Igreja viva, celebram batismos, levam a eucaristia aos doentes, fazem as celebrações da Palavra… pegar nessas mulheres e valorizá-las. Penso que, se nós começarmos a valorizar um ministério para essas mulheres, e conseguirmos o entendimento e a conversão dos homens que não acreditam na presença delas, então chegaremos a ter esse diaconato com firmeza.
7M – E acha que, de certo modo, essa valorização e conversão já começaram?
Sim, acho que existem mudanças… são passos lentos que vamos dando. Quem imaginava que mulheres como eu estariam aqui hoje? Após a missa de encerramento do Sínodo, conversava sobre isso com outras mulheres que também participaram e dizia: ‘Vamos ficar para a História não como as submissas, mas como aquelas que conseguiram dialogar e abrir as portas para outras que se seguiram. E talvez no futuro algumas mulheres possam dizer que nós não fizemos quase nada, mas não sabem elas o quão importantes foram estes primeiros passos… Nós fizemos aquilo que foi possível!”. E este caminho não vai voltar para trás, porque quando os homens conseguirem perceber que a mulher está na Igreja, não para concorrer, não para tomar os cargos deles, mas para expandir a evangelização e garantir que a presença ou o nome de Jesus chegue a outros lugares ou a pessoas que ainda não o conhecem, tudo será diferente.
7M – E o que é que falta para os homens perceberem isso?
Entre outras coisas, falta mudar a formação nas faculdades de Teologia e nos seminários… Ter mais leigos, e sobretudo mulheres, em cargos de responsabilidade nessa formação. O que também é referido no Documento Final… por isso, saio deste Sínodo com esperança. Ou não viesse eu de uma região de muita pobreza, mas com um povo que carrega uma esperança imensa…









