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Luís Moita

Pré-publicação

O desejo de comunicação significa uma vontade de “ligar importância” aos outros

| 06/11/2024

O Sentido Moral da Comunhão Humana é o título da tese de doutoramento que Luís Moita [1939-2023] defendeu na Pontifícia Universidade Lateranense de Roma e que o OBSERVARE – Observatório de Relações Exteriores da Universidade Autónoma de Lisboa vai lançar na próxima sexta-feira, 8 de novembro, com prefácios de José Manuel Pereira de Almeida, José Manuel Pureza, Mariano Aguirre, José Augusto Pereira Neto e Brígida de Brito.

A tese foi defendida em 1967, mas a sua leitura parece hoje mais significativa e necessária do que naquele ano anterior ao ‘Maio de 68’. No prefácio da 1ª edição, publicada em 1988, o autor escrevia: “O problema moral é, em última análise o problema da seriedade da relação, e o sujeito moral é aquele que se interroga sobre as condições duma autêntica convivência”.

Luís Moita frequentou a Escola Primária de Alcanena e o Liceu Camões (Lisboa), de onde foi para o Seminário de Almada e Seminário Maior dos Olivais. Ordenado padre, fez a licenciatura em Teologia na Universidade Gregoriana, e o doutoramento em Ética, na Universidade Lateranense com a classificação summa cum laude. Ainda padre do Patriarcado esteve na organização da vigília na Igreja de São Domingos (1968), em Lisboa, contra a guerra colonial [ver 7MARGENS].

Em 1972, já depois de abandonar o ministério (no ano anterior), foi um dos organizadores da vigília na Capela do Rato (Lisboa) em oposição à guerra colonial. Preso meses depois por causa das suas atividades contra a Guerra Colonial e o regime ditatorial, foi libertado na noite de 26 de Abril de 1974.

O Professor Luís Moita foi vice-reitor da UAL (1992-2019), fundador e diretor da unidade de investigação OBSERVARE e impulsionador do anuário Janus de relações internacionais, que vem sendo publicado desde 1996. [ver 7MARGENS]

A apresentação pública do livro será feita às 16h30 do dia 8 de novembro, no Auditório 1 da UAL (R. Santa Marta, 56; metro: Marquês de Pombal),  pelo professor Fernando Martins e pelos prefaciadores. Pode também ser seguida à distância, sendo obrigatória a inscrição em eventos@grupoautonoma.pt

O 7MARGENS publica de seguida um excerto do III Capítulo que tem como título A Vida em Comunhão.

 

O Sentido Moral da Comunhão Humana

 

O desejo de comunhão significa uma vontade de “ligar importância” aos outros.

Luís Moita

Luís Moita na sua “Última Lição”, na Universidade Autónoma de Lisboa (julho de 2019), sobre “o conceito de relação”: um tema que o acompanhou desde muito cedo. Foto © Departamento de Comunicação da UAL

 

A comunhão não é uma relação qualquer, mas uma relação caracterizada. E no entanto, por este termo não entendemos uma forma particular de comportamento mas antes uma característica comum e imanente a formas diversas de comportamento. Assim, por exemplo, o amor conjugal, a intimidade de dois amigos, ou o encontro breve mas profundo entre duas pessoas, são modos especificamente diferentes de relação e não obstante existe entre eles uma analogia que permite determinar uma sua característica comum.

Para explicar o sentido dessa característica comum servimo-nos duma expressão portuguesa, dificilmente traduzível, muito usada na linguagem corrente: “ligar importância a…”.

Quantas vezes uma pessoa termina um encontro ou uma reunião e fica com esta sensação decepcionante: “ninguém me ligou importância”! Ao contrário aquela que foi centro de atenções dirá que os outros lhe ligaram muita importância. Quando quero insinuar a alguém que passe indiferente por um terceiro, recomendo-lhe que não “lhe ligue…”. E uma namorada censurará ao futuro marido as suas ausências prolongadas dizendo-lhe: “tu não me ligas”. Será bom aquele professor que liga importância aos seus alunos ou aquele rapaz que liga importância a um velho parente. Portanto, trata-se duma expressão usada tanto na linguagem do amor, como na convivência quotidiana, para exprimir uma qualidade própria da relação interpessoal.

Ora esta expressão tem implícita uma riqueza de conteúdo que podemos agora explicitar. Antes de mais trata-se dum “ligar”, quer dizer, pela relação cria-se um vínculo entre as pessoas que se encontram, as quais passam a sentir-se unidas a qualquer título que seja: quer porque eu presto atenção às palavras que o outro me diz, quer porque não fico indiferente à sua passagem, quer porque não renuncio ao amor que nos prende. Em segundo lugar, está em jogo uma “importância”, ou seja, “ligando” ao outro eu reconheço que ele é importante, importante em si e importante para mim ao ponto de merecer plenamente que eu lhe consagre a minha atenção.

Simone Weil

Simone Weil: “o amor é uma orientação e não um estado de alma. Foto: Imagem de arte de rua da filósofa Simone Weil, Berlín Kreuzberg (2019)

 

Vejamos, pois, em pormenor, as implicações deste modo de relação. Poderíamos dizer a respeito do desejo de comunhão o mesmo que SIMONE WEIL diz a respeito do amor: “o amor é uma orientação e não um estado de alma”. Com efeito, nem sempre depende de mim a possibilidade de estabelecer uma relação autêntica de amor com aquele que encontro, e a maior parte dos nossos contactos desenrola-se num ambiente que nem sempre permite o surgir duma amizade forte ou o desabrochar duma intimidade. E apesar disso deve haver no meu coração uma pré-disposição constante para o amor, um desejo permanente de viver em plenitude as minhas relações humanas, embora eu saiba que essa plenitude tem qualquer coisa de inacessível. Por isso devo aceitar os limites necessários da nossa convivência mas sem me conformar com essas limitações. Não posso desprezar os contactos quotidianos, a pretexto de só ligar importância aos “momentos grandes” do encontro íntimo, mas preciso de tomar a sério todas as minhas relações, mesmo as aparentemente mais banais. Portanto o desejo de comunhão é um desejo humilde mas insatisfeito: humilde porque não se recusa a ligar importância a qualquer pessoa em qualquer situação, insatisfeito porque lhe é inerente a tendência a uma perfeição cada vez maior. Nesta ordem de ideias a inspiração moral não é uma capacidade de simpatia ou um factor temperamental, não é uma aspiração utópica a viver em intimidade com todos os que me rodeiam, nem tão pouco uma garantia de êxito para os meus contactos.

Aquele que liga importância a outro é como quem deita uma semente à terra: não sabe se a semente germinará e se um dia dará fruto, não sabe se aquela relação iniciada humildemente desabrochará um dia na plenitude do amor. Ora a moral, mais ainda do que colher os frutos, exige-nos que deitemos a semente à terra, mais do que uma atitude psicológica exige-nos uma orientação – a perfeição moral é uma tendência e não um estado, um dado adquirido. Numa palavra, o desejo de comunhão, que significa fundamentalmente “ligar importância a…”, leva-nos a viver todas as nossas relações humanas com seriedade, até que, porventura, possa surgir a intimidade amante.

Mas que significa viver as relações humanas com seriedade?

 

O “reconhecimento” é a primeira coisa exigida pelo desejo de comunhão

Pobreza, sem-abrigo, Lisboa, rua,

Pessoa sem-abrigo em Lisboa: “Antes de mais, o outro é para mim um estranho.” Foto © Miguel Veiga

 

Antes de mais, o outro é para mim um estranho. A sua originalidade pessoal constitui um enigma para quem o aborda e a sua liberdade é um mistério oculto; inclusivamente essa liberdade pode aparecer-me como uma ameaça, visto que a nossa presença um ao outro será muitas vezes sentida, num primeiro momento, como um perigo recíproco – a presença de outrem põe-me sempre em questão, arrancando-me ao pseudo-refúgio do meu isolamento.

E no entanto, esse outro incógnito, talvez ameaçador, é agora aquele que tenho na minha frente. Imediatamente ele adquiriu para mim uma fisionomia, mostrou-me a sua face e por esse simples facto solicitou uma tomada de posição minha a seu respeito. Poderei ignorá-lo e responder-lhe com a indiferença, ou então acolher a sua solicitação. Mas logo descubro que ele é um ser que escapa ao meu controle, que sou incapaz de o reduzir a um objecto: estou perante uma pessoa – é este o primeiro passo do reconhecimento. A pessoa do outro que me surge como tu, é aquela realidade que eu não posso possuir, nem julgar, nem manipular, é aquela realidade cujo absoluto eu pressinto para além do somatório das suas qualidades naturais, é aquela realidade que se me impõe com todo o prestígio da sua importância78. Isto significa que tomo consciência do outro como valor: “quando uma pessoa não só me aparece, mas se põe absolutamente como fim em si mesma limitando as minhas pretensões a objectivá-la teoricamente e a utilizá-la praticamente, é então que ela existe ao mesmo tempo para mim e em si. Numa palavra, a existência de outrem é uma existência-valor”

Desde que eu tomo consciência do tu como valor, não como um valor qualquer mas como um valor pessoal que tem sempre algo de absoluto, então o nosso face a face muda radicalmente de sentido, uma vez que se estabelece um tipo de relação “eu-tu”, especificamente diferente da relação “eu-isto”. Um objecto pode ser por mim dissecado, analisado friamente, considerado parcialmente; ao contrário uma pessoa é sempre indivisível e dela conheço ou tudo ou nada. O conhecimento que eu tenho do outro é mais compassivo do que compreensivo, é um conhecimento por conaturalidade e sintonização, é um acto global do espírito que me faz penetrar por pressentimento na subjectividade alheia.

Luís Moita

Luís Moita na última lição, na Autónoma (julho 2019): “sem atenção nunca pode haver seriedade no encontro”. Foto © Departamento de Comunicação da UAL

 

Esta mudança radical no modo de eu encarar o outro como tu exige igualmente que eu saia da minha visão solipsista e que aceite resolutamente a perspectiva do outro, ou seja, que eu considere o seu ponto de vista interior como digno de ser tido em conta, “porque há uma única maneira de receber uma pessoa, é a de se referir a ela como centro”. Assim, todo o reconhecimento é também um descentramento, é a renúncia a fazer de mim mesmo o ponto de referência essencial do encontro e da relação. Mas ipso factu esse descentramento implica o respeito e a deferência, isto é, o “afastar das mãos”, como diz R. Guardini, esse “gesto que cria o espaço livre no qual se poderá manifestar o carácter de ‘fim em si’ específico da pessoa”, e portanto todo o encontro intersubjectivo subentende paradoxalmente uma distância entre as pessoas, distância que não é afastamento mas respeito profundo pelo mistério inefável do outro.

O reconhecimento de outrem, além de ser deferência e distância, é ainda atenção no sentido mais forte da palavra, a atenção que é a forma mais evidente de “ligar importância” e de aceitar com disponibilidade o absoluto do outro, e que só é possível mediante o recolhimento interior que exorciza a superficialidade da relação – sem atenção nunca pode haver seriedade no encontro.

Em resumo, a característica indispensável e básica da autêntica inspiração moral é o reconhecimento da liberdade de outrem, que constitui assim o primeiro momento da tomada de consciência da responsabilidade ética86. Para além da estranheza e da ameaça, é a disponibilidade ao absoluto pessoal que nos dá a chave para a compreensão das relações.

A palavra “reconhecimento”, porém, evoca ainda um outro sentido que não podemos ignorar e que nos recorda um importante aspecto de que se reveste a presença intersubjectiva. “Reconhecer” não é só um “conhecer-de-novo”o outro pelo aprofundamento da visão que dele tenho, mas também um “ficar reconhecido” ao outro por causa da importância que ele tem em si e para mim. “Estar no mundo é ser um mínimo de bondade oferecida em público”. Perante essa bondade eu não posso deixar de ficar reconhecido: o reconhecimento é também uma acção de graças.

 

 

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