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[Moçambique, margem Sul]

Não deitemos “fogo pelas ventas”: dialoguemos, irmanemo-nos construindo justiça e paz

| 13/11/2024

Casimira Bernardo Macamo a falar com o polícia: o diálogo como a melhor forma de conter o derramamento de sangue. Foto reproduzida da página de Luísa Nhantumbo no Instagram.

Nesta crónica, não costumo falar em política, mas o que tem estado a acontecer em Moçambique deixa-me siderada. Nos últimos dias vivemos sob fogo cruzado em Moçambique. “Pequenos” e “grandes poderes” se digladiaram, mediram forças, dado o questionável resultado das eleições gerais de 2024. Houve flagrantes erros de aritmética e de negligência na manipulação de dados na folha de excel, proclamando-se vencedores suspeitos de o serem. Sim, os nossos dados, antes de passarem para o computador, são contados à mão, escritos a giz ou a carvão num quadro degradado de um espaço que recorda uma escola primária abandonada, na qual ainda se lecciona, em dias que não sejam de eleições. E, sim, no dia de eleições, os meninos dessas escolas não estudam. Não se trabalha, em Moçambique. Tudo pára, em nome da votação.

Face ao resultado que se considera adulterado dessas eleições, houve manifestações nas vias públicas, no país todo. Entre os manifestantes, alguns vandalizaram estabelecimentos comerciais e entre os agentes da polícia posicionada para acompanhar os manifestantes, alguns dispararam gás lacrimogéneo e balas verdadeiras contra pessoas e residências. Pilhou-se, feriu-se e morreu-se.

Ninguém ganhará a contenda, enquanto não baixarmos a cólera, não nos chamarmos à razão: uns e outros. Não dialogarmos e não nos recordarmos do sentido da justiça e da paz. O mandato do “grande poder”, do partido que está na “ordem do dia” no país, já vai adulto em idade, mas em actos continua a injustiçar e a escravizar os mandados, os que têm “menos poder”. Entretanto, a injustiça e a escravatura não têm mais lugar para triunfar. Sempre foram combatidos e continuarão a sê-lo. Sempre houve “pequenos” e “grandes poderes”, mas há que se ponderar o respeito de uns sobre outros, sobretudo dos maiores pelos menores, para dar exemplo.

Não é dado adquirido que os “pequenos poderes” nunca vencem. E digo isso baseada numa estória real da sociedade moçambicana. No âmbito das referidas manifestações, e no decorrer de uma delas, nos arredores da cidade de Maputo, uma mulher, Casimira Bernardo Macamo, liderou pelo exemplo, optou pelo diálogo. Didacticamente, foi procurar saber o que é que estava a acontecer. Falou com o comandante da polícia, perguntou-lhe se queria guerra e se a quisesse iria tê-la. Fê-lo constatar que os manifestantes não estavam a criar distúrbios e que não havia razões para disparos, nem sobre eles, nem sobre as casas. Casimira dirigiu-se, também, aos manifestantes e traçou uma linha imaginária, a partir da qual eles não deveriam avançar em direcção à polícia ou à cidade (havia intenção de lá chegar). Deveriam apenas levantar os seus cartazes.

Quando entrevistada, num outro momento, a mulher referiu que encontrou no diálogo a melhor maneira de conter o derramamento de sangue. Por ter um filho doente, que não tinha mais condição para inalar gás lacrimogéneo e, por, em tempos, ter perdido um filho numa manifestação, está grata ao comandante por ter sabido escutar. Houve contenção e evitou-se o pior. O diálogo foi transparente, franco e sincero.

Ngungunhana: a luta de vovó Mércia contra o grande chefe mostra que o injustiçado e o escravo um dia se libertam. Gravura de Francisco Pastor, 1895) / Wikipedia.

O exemplo acabado de mencionar é revelador de que, quando não se dialoga, dá-se razão à força bruta ou a desastres. Mostra ainda que não se deve subestimar os “pequenos poderes”.

No antanho, época colonial, e em plena disputa entre Ngungunhana e colonialistas portugueses, uma outra mulher-vovó Mércia, nascida em Chidenguele, da cultura chope, no sul de Moçambique, demonstrou o seu “pequeno-grande poder” de força brutal. A vovó Mércia tornou-se rainha, embora o lugar da mulher, na vida pública, em muitos lugares do mundo, ainda fosse e continue negado.

A vovó foi sequestrada por guerreiros de Ngungunhana, para ser escrava no reinado desse “grande chefe”. Chegada ao reinado, um dos homens que a tinha sequestrado deu-lhe permissão para que tirasse água de um poço e que a bebesse. Ela tinha pedido, reclamando ter sede, após uma longa caminhada. Recebida a anuência, informou ao seu carcereiro, que na sua tradição, os homens eram sempre os primeiros a se servirem. Por causa disso, e porque ele também tinha sido sujeito à longa estrada, deveria servir-se. Colocou-se, então, em posição de retirada de água no poço, e a vovó Mércia, por trás, apertou o seu pescoço e empurrou a cabeça e o afogou. Escusado será dizer que o homem morreu! Nesse ínterim, a vovó Mércia e as outras senhoras sequestradas regressaram às suas origens. Lá chegadas, ela foi condecorada rainha, por ter lutado contra a tropa de Ngungunhana.

Vovó Mércia assumiu o cargo imposto e dirigiu homens. Aquando da sua morte, quem a sucedeu foi o seu irmão mais novo, que mais tarde foge de Chidenguele para Lourenço Marques [agora Maputo] e se torna assimilado da cultura portuguesa. Entretanto, aconselhou aos seus familiares e amigos a que nunca se confessassem na igreja, sob pena de o padre depois utilizar a informação politicamente. Esta estória é verídica, contou-ma o príncipe Banze, neto da vovó Mércia.

E as estórias sobre mulheres que comandaram tropas masculinas ou de “mulheres poderosas” não são poucas em Moçambique. Que o digam as escritoras Virgília Ferrão e Bela Ferrão que ficcionalizaram essas mulheres nas suas obras Sina de Aruanda e Kaliza m’mimba, apeadeiros do tempo. Ambas as estórias reais e ficcionais a que me refiro são para afirmar que os “grandes poderes” não detêm força ad eternum, sobretudo se não forem humanos, engenhosos e inclusivos. O injustiçado e o escravo um dia se libertam.

Neste momento que vivemos o “desnorte”, a incerteza, a angústia e a saturação derivada de muitos momentos que fomos tolerando, engolindo, fechando os olhos e aguardando por dias melhores, nada mais nos falta do que apressar um diálogo objectivo, refazer as contas, acertar a aritmética e a folha de excel e dar “a Cesar” o que for “de César”. E esse novo ou antigo César já está avisado que os “pequenos poderes” tardam, mas acordam. Apaguemos o fogo, que o fumo vai alto e muito escuro…

 

Sara Laisse, membro do Graal – Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

 

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