
Padre António Samelo na Praia do Palheirão, 10 de julho de 2005. Foto © Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII.
O Samelo – camelo com ‘s’, como diz sempre ao explicar o seu nome a quem o ouve pela primeira vez – é dono de uma gargalhada única, e talvez essa marca o distinga como padre. Que padre é este? É dono de uma bonomia que não é vazia, que não se arreganha só por artificialismos ou porque sim, antes se faz empatia e afeto, para depois nos soltar palavras complicadas, como eclesiologia, e nos leva pelos caminhos intrincados de ser Igreja em carne e osso, até aos ossos.
O Samelo dá-nos de beber o que sobra do cálice do vinho (e faz sobrar), para nos ter com ele nesse momento da celebração. E pega em cada um de nós para nos levar à descoberta, sem nos dizer o caminho, deixando perguntas, dúvidas, inquietações. É por isso que, numa viagem longa, toma o volante durante a noite (quando mais gosta de conduzir) e serpenteia as estradas iluminando essas inquietações, dúvidas e perguntas.
O Samelo é uma lição, neste seu feitio, nesta sua permanente bonomia, a barba a rir-se, e os olhos a verem-nos atarantados. O Samelo chegou-nos num momento de crise do Movimento Católico de Estudantes e assumiu quilómetros e dores para se fazer presente, para se dizer companheiro. O Samelo é tempo de dedicação, e dedicação com tempo. Um tempo que nas perguntas que lança e nos testemunhos que partilha se torna de qualidade para o amadurecimento daqueles jovens, nós. (Escrevemos no presente, por estar presente, ainda hoje, em cada um de nós, no que somos.)
É esta a lição, se a vida nos desse lições: um padre assim faz-nos próximos uns de outros. Talvez seja este o sentido de ser Igreja.
(este texto escrito no sábado era para ser acolhido numa homenagem escrita em vida; mas a vida prega-nos partidas, e é agora uma homenagem de vida)
Nota biográfica

Padre António Samelo em Arouca, 19 de julho de 2009. Foto © Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII.
O padre António Manuel Neto Samelo morreu ao final da noite de 24 de novembro de 2024, na Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital de Cantanhede, onde estava internado há alguns meses. A data da morte coincidiu com a data litúrgica da celebração católica de Cristo, Rei do Universo.
Nascido a 4 de dezembro de 1954, na freguesia de Covões (Cantanhede), António Samelo foi ordenado presbítero no dia 2 de setembro de 1979 na mesma paróquia pelo então bispo auxiliar de Aveiro, António dos Santos. Desempenhou, entre outros, os cargos de prefeito do Seminário Menor da Imaculada Conceição, membro da equipa formadora do Seminário Maior de Coimbra, membro do Conselho Presbiteral, e colaborador do Serviço de Assistência Religiosa e Espiritual do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, além de ter sido pároco de dezena e meia de paróquias.
Foi também professor do Instituto Superior de Estudos Teológicos, da Escola Diocesana de Leigos e na Escola de Teologia e Ministérios. Nessas qualidades, ajudou a formar muitos dos presbíteros das dioceses de Aveiro, Cabo Verde, Coimbra, Leiria-Fátima e Portalegre-Castelo Branco. Esteve também envolvido ativamente no Congresso dos Leigos da Diocese (1991-1992) e no Sínodo Diocesano de Coimbra (1993-1999).
Foi ainda assistente do Corpo Nacional de Escutas e no Movimento Católico de Estudantes (a nível nacional e diocesano) e da Comunidade de Acolhimento João XXIII.
O funeral realiza-se na próxima quarta-feira, dia 27 de novembro, às 11h30, na igreja paroquial de Covões (Cantanhede), sob a presidência do bispo de Coimbra, Virgílio do Nascimento Antunes. O corpo será cremado pelas 14h no Crematório de Taveiro (Coimbra) e as cinzas serão depositadas no jazigo dos seus pais, no cemitério de Covões, às 11h de quinta-feira.
No guião que o próprio António Samelo preparou para a sua celebração de exéquias, ele começa por escrever: “Fui assistente nacional e diocesano do MCE (Movimento Católico de Estudantes), em Coimbra. A revisão de vida bebi-a com o leite materno, pois a minha mãe era militante da Acção Católica Rural (ACR) assistida pelo padre Saúde e que me dizia ‘filho, vale mais ser um bom cristão do que um mau padre’.”
Miguel Marujo e Pedro Príncipe integraram o Movimento Católico de Estudantes, no qual foram coordenadores nacionais, quando António Samelo foi assistente nacional (1993-1997).










