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Iluminar o mundo

| 26/12/2024

Um dos episódios mais interessantes do tempo litúrgico do Natal é o de Simeão quando encontra o Menino Jesus no Templo de Jerusalém e reconhece nele a resposta de Deus.

Giotto. Apresentação de Jesus no Templo

“O idoso Simeão estava convicto de que o seu Deus cumpriria a palavra e que não o deixaria morrer antes de ver com os seus olhos o cumprimento da profecia de Isaías, isto é, o surgimento do Messias de Israel no palco da história.” Pintura: Apresentação de Jesus no Templo. Fresco de Giotto, Capela Scrovegni, Pádua. Wikimedia Commons.

 

José e Maria levaram a criança ao templo com a oferta de um par de rolas, para entregar ao sacerdote a fim de apresentar em sacrifício de gratidão pelo nascimento da criança, segundo a tradição judaica. Foi então que foram surpreendidos por Simeão e se desenrolou a cena descrita pelo evangelista Lucas (2:25-33):
“Havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem era justo e temente a Deus, esperando a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. E fora-lhe revelado, pelo Espírito Santo, que ele não morreria antes de ter visto o Cristo do Senhor. E pelo Espírito foi ao templo e, quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com ele procederem segundo o uso da lei. Ele, então, o tomou em seus braços, e louvou a Deus, e disse: 29 Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra; 30 Pois já os meus olhos viram a tua salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos os povos; luz para iluminar as nações, e para glória de teu povo Israel. E José, e sua mãe, se maravilharam das coisas que dele se diziam.”

 De facto, Simeão esperava “a consolação de Israel”, isto é, esperava em Deus. Esperar em Deus é um exercício que vale a pena. Não significa esperar por Deus mas com Deus. A expressão não remete para a ideia de que se vai esperar alguém ao aeroporto, por exemplo, mas que se espera algo acontecer na companhia de alguém.

Se acaso confiamos no que Deus diz, nas suas promessas, então podemos esperar de forma descansada embora atenta.

O idoso Simeão estava convicto de que o seu Deus cumpriria a palavra e que não o deixaria morrer antes de ver com os seus olhos o cumprimento da profecia de Isaías, isto é, o surgimento do Messias de Israel no palco da história.

Segundo o testemunho do evangelho Simeão deixou-se conduzir pelo Espírito ao templo, o local certo, o centro de adoração da fé judaica, e foi então que sucedeu o fim do tempo de espera.

Mas creio existirem essencialmente duas razões pelas quais Simeão declarou no momento do encontro que Jesus era “luz para iluminar as nações”. A primeira é por que a luz afasta as trevas do pecado. Há um perigo sério em caminhar no escuro. É possível mas perigoso pois em tal circunstância não se conseguem reconhecer os precipícios da vida, e podemos cair nessas armadilhas.

Para muitos ainda subsiste a ideia de que pecar é apenas fazer coisas más. Não necessariamente. Desde logo por que deixar de praticar o bem quando se pode fazê-lo é pecar, o chamado pecado por omissão, e talvez essa seja mesmo a maior pedra de tropeço de tantos cristãos e indivíduos em geral.

Depois por que pecar é mais do que fazer o mal, é falhar com o que Deus espera de nós. Por isso o termo significa “errar o alvo”, isto é, não cumprir as expectativas de Deus a nosso respeito. Mas muitos preferem reduzir o conceito de pecado a acções como matar, roubar ou mentir, para assim aplacarem a sua consciência dizendo para si mesmos que não fazem tais coisas e por isso são santos.

É a luz de Jesus Cristo que nos faz tomar consciência dos nossos caminhos a fim de caminharmos com segurança.

A segunda razão daquela declaração é por que a luz afasta as trevas da ignorância. Jesus veio para revelar aos homens quem Deus realmente é, e destruir as falsas percepções que eles teceram sobre si. Muitos imaginam um Deus indiferente e insensível, à maneira das divindades pagãs, outros pensam num Deus vingativo e castigador como nalguns círculos religiosos. Só que a luz de Cristo revela-nos um Deus que ama sacrificialmente, como nos ensina o Evangelho.

Mas, afinal, Jesus fez mais. Não apenas é a luz das nações, mas chamou a todo aquele que nele crer para ser luz no mundo, sempre e não apenas no Natal.

 

José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.

 

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