Comecei a ouvir falar das Portas Santas que nos esperam neste ano jubilar, ano de Alegria, mas não tinha ainda pensado muito nisso.
Ontem, para ir visitar um amigo, tive de apanhar vários meios de transporte: metro, comboios da Linha de Cascais e de Sintra, autocarros diferentes. Com as distâncias a percorrer, esperas e mudanças, foi ao todo uma viagem de cinco horas por Lisboa e arredores. Sempre com muitas pessoas. Muito diferentes.
Algumas voltando do trabalho, cansadas, carregadas de sacos, muitas com crianças ao colo ou pela mão.
Havia uma bondade generalizada, não ostensiva, mas ativa. Ofereciam lugar aos mais velhos ou a quem tinha crianças.
Alguns iniciavam conversas com os vizinhos do lado, noutro banco falava-se do que fariam para o jantar e inquietavam-se se a roupa teria secado, outros diziam graças e faziam rir.
Um senhor a quem fiz uma pergunta sobre o cais certo para apanhar o comboio, explicou cuidadosamente e ainda me mostrou uma aplicação onde se podia ver “na hora” onde estavam os transportes, e quando saiu disse que tinha gostado muito de conversar comigo…
Chamou-me a atenção a atitude para com as crianças. Numa carruagem uma menina de dois anos, cheia de energia, interpelou um senhor que lia um livro. Dizia na sua linguagem “livro, livro” e o senhor, em vez de se impacientar por lhe interromperem a leitura, fechou o livro e como não tinha ilustrações, começou a mostrar-lhe a capa onde havia uma lua e a contar uma história com essa lua.
Noutro momento, um rapazinho estava muito interessado no que dois rapazes adolescentes estavam a comer. Eles acharam graça e começaram a fazer brincadeiras para o fazer rir.
Quando à noite cheguei a casa sentia-me bem e pensei “as pessoas (na sua maioria) são mesmo fantásticas”.
Por isso sinto que tive o privilégio de, mesmo sem querer, atravessar uma Porta Santa que me encheu de Esperança.
P.S. – E, em nenhum momento, senti qualquer insegurança.
Imagem de Capa: Detalhe numa das portas de bronze (2016), na entrada principal da Basílica Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, Roma:
tema il mistero dell’Annunciazione dell’Angelo a Maria Vergine, do artista Igor Mitoraj. Fotografia © Joaquim Félix
Lucy Wainewright

![Detalhe numa das portas de bronze (2016), na entrada principal da Basilica Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, Roma: [tema il mistero dell’Annunciazione dell’Angelo a Maria Vergine: un Angelo dall’alto (anta sinistra) e Maria in ascolto (anta destra)], do artista Igor Mitoraj Fotografia © Joaquim Félix Detalhe numa das portas de bronze (2016), na entrada principal da Basilica Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, Roma: [tema il mistero dell’Annunciazione dell’Angelo a Maria Vergine: un Angelo dall’alto (anta sinistra) e Maria in ascolto (anta destra)], do artista Igor Mitoraj Fotografia © Joaquim Félix](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2022/07/4-e1736509224742.jpg)








