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Tetiana Stawnychy, presidente da Cáritas Ucrânia, em entrevista na sede da Cáritas Portuguesa. Foto Agência EcclesiaOC
Tetiana Stawnychy, 57 anos, tem liderado a Cáritas Ucrânia ao longo dos últimos quatro. Foto © Agência Ecclesia/OC

Entrevista ao 7MARGENS e agência Ecclesia

Presidente da Cáritas Ucrânia: “Estamos à espera que o Papa venha a Kyiv”

Foi nomeada presidente da Cáritas Ucrânia em julho de 2021, sete meses antes de o país ser invadido pela Rússia. Tetiana Stawnychy, 57 anos, tem liderado a organização católica naquele que é possivelmente o período da sua História em que a ajuda que presta é mais necessária. Nascida em Maryland, perto de Washington, D.C. (EUA), Stawnychy é filha de refugiados políticos que fugiram da Ucrânia ainda adolescentes, em 1944, para escapar do comunismo soviético durante a Segunda Guerra Mundial. Agora, é ela que está na linha de frente da ajuda a milhares de outras famílias ucranianas que tentam sobreviver à invasão russa. Numa curta passagem por Portugal, Tetiana assegurou nesta entrevista conjunta ao 7MARGENS e à agência Ecclesia que é na Ucrânia que quer permanecer, que a guerra é verdadeiramente terrível mas também revela coisas bonitas, e que a esperança é mesmo a última a morrer.

 

7MARGENS/Ecclesia – Já passaram mais de três anos desde que a guerra em larga escala na Ucrânia começou… Quais são as vossas principais preocupações e necessidades neste momento?

Tetiana Stawnychy – À medida que entramos nesta nova fase prolongada da guerra, a Cáritas está a trabalhar numa resposta em camadas. No leste, temos uma situação em que ainda há necessidades humanitárias extremas, especialmente porque muitas das pessoas que ficaram para trás, em áreas mais próximas da linha da frente, são as pessoas mais vulneráveis: idosos que estavam muito ligados às suas casas e cuja subsistência dependia da pequena agricultura, pessoas com um familiar que não pode ser deslocado, pessoas com necessidades especiais… E neste momento, no leste, estas são as pessoas que estão a ser evacuadas, porque há uma espécie de política de terra queimada a avançar. Eles [as tropas russas] realmente destroem muito à medida que avançam. Por isso, temos pontos de trânsito para onde essas pessoas vulneráveis são levadas por alguns dias. É preciso primeiro estabilizá-las e, em seguida, encontrar um lugar mais seguro onde elas possam estabelecer-se, no centro ou no oeste da Ucrânia.

Depois, há uma outra camada, que é a de ajudar as pessoas deslocadas a integrar-se nas comunidades locais, a encontrar empregos, a recuperar-se. O objetivo da ajuda humanitária é sempre ajudar as pessoas a sair da crise…

E é preciso não esquecer que os ataques aéreos continuam em todo o país. Há um grande número de drones a entrar na Ucrânia quase todas as noites. E às vezes, mesmo durante o dia, há ataques com mísseis, de cruzeiro e balísticos, que podem atingir praticamente qualquer lugar. Então, também temos os desafios adicionais de responder após os ataques.

 

Com quantas pessoas conta atualmente a Cáritas Ucrânia para prestar esta ajuda? E não sentem, vocês próprios, medo? Não pensam também em fugir?

Vou começar por responder à última parte da pergunta… É claro que se sente ansiedade quando algo acontece. Mas não há pensamentos de partir. Não. Temos uma missão a cumprir. Temos pessoas para ajudar.

A Cáritas Ucrânia é uma rede de organizações locais e esta rede, juntamente com o escritório nacional, conta com cerca de 2.500 funcionários. E, a qualquer momento, temos cerca de 2.500 voluntários ativos. Temos também mais pessoas registadas que podem vir prestar ajuda adicional, se necessário. Então, no total, são cerca de 5.000 as pessoas envolvidas na resposta aos desafios impostos pela guerra.

As organizações locais, por sua vez, trabalham com paróquias. Neste ano, até agora, temos cooperado diretamente com cerca de 300 paróquias que também participam nalgum tipo de resposta. E há a possibilidade de ampliar isso para um número maior de paróquias, se necessário.

 

Todos têm perdido algo ou alguém nesta guerra… e as crianças, em particular, têm pago uma fatura pesada. A Cáritas também tem procurado ajudá-las, para que possam prosseguir os estudos e manter alguma normalidade nas suas vidas…

Sim, a guerra afeta cada pessoa na Ucrânia. Na Cáritas perdemos, não sei se se recordam, dois funcionários da Cáritas Mariupol e as suas famílias logo no início da guerra. Eu tenho amigas cujos maridos estiveram na linha da frente, que foram mortos.

Quanto às crianças, cerca de metade está a ter aulas online, e um terço pode estar offline porque tem abrigos antiaéreos nas escolas. Mas nem todas as escolas têm esses abrigos e nem todos são suficientemente grandes para acomodar todas as crianças de uma só vez. Por isso, temos um grande programa que já havíamos começado a desenvolver na fase anterior à guerra, na zona-tampão: chama-se Apoio Psicossocial nas Escolas, e consiste em irmos às escolas e trabalharmos para desenvolver a resiliência, os mecanismos de coping, as competências de diálogo com os jovens, com os pais e com os professores. Consideramos este programa muito bem-sucedido na estabilização de toda a comunidade escolar para ajudar a lidar com a situação. Está a funcionar, mas sem dúvida que um dos desafios que enfrentamos na zona leste do país é que estas crianças estudam online há anos, primeiro por causa da covid-19 e, depois, por causa da guerra. Criámos alguns espaços para as crianças poderem estar e brincar nesta região, e os pais vêm ter connosco para nos dizer o quão gratos estão por aqueles espaços, porque é o único lugar que os seus filhos têm para socializar.

 

Em relação à ajuda no terreno, têm-se sentido apoiados pelos países ocidentais, e em particular por Portugal? E acha que os olhos do mundo continuam voltados para a Ucrânia?

Obviamente, gostaria de começar por expressar o nosso agradecimento por todo o apoio que tem sido prestado tanto pela Cáritas Portugal como, em geral, pelo povo português. Tanto por ajudarem os ucranianos que estão em Portugal como por ajudarem os que estão nos países vizinhos e dentro da Ucrânia. Essa solidariedade é realmente valiosa para nós.

Se vemos mudanças ao longo do tempo? Claro que sim. O financiamento é menor do que tínhamos antes. Já vimos o início de uma diminuição no financiamento no ano passado. Este ano, acho que estamos a ficar com a mesma quantia. Mas, claro, entendemos que esta é uma crise prolongada. Portanto, é preciso começar a procurar soluções inovadoras e duradouras para a crise. Porque, mais uma vez, o objetivo da ajuda humanitária é sempre ajudar as pessoas a sair da crise, não mantê-las nela. Mas, sabem… há cansaço em todo o lado. Também estamos cansados na Ucrânia. Só que a Ucrânia continua a ser atacada, continua a haver necessidades humanitárias, o nível de stress sobre a população é muito alto e há muita necessidade de apoio. E tanto a solidariedade expressa materialmente, como também através do apoio em oração, é extremamente, extremamente apreciada. Acho que é uma das razões pelas quais ainda estamos aqui. Uma das razões pelas quais ainda estamos a funcionar e porque ainda somos capazes de nos sentar juntos e conversar sobre a situação na Ucrânia.

Tetiana Stawnychy, presidente da Cáritas Ucrânia, em entrevista na sede da Cáritas Portuguesa. Foto Agência EcclesiaOC 1

“A solidariedade é uma das razões pelas quais ainda estamos aqui”, diz Tetiana Stawnychy, presidente da Cáritas Ucrânia. Foto © Agência Ecclesia/OC

E quanto ao apoio do Vaticano, tem sido importante? Fez alguma diferença? E há uma esperança renovada agora com o Papa Leão XIV, tendo em conta que é norte-americano e tem insistido muito na importância da paz?

Como comunidade de fé, somos pessoas de esperança. Por isso, temos sempre esperança, mesmo quando a situação parece sombria. Mais uma vez, acho que todos os apelos à solidariedade constante e contínua, e também à oração, são muito importantes. E acho que têm repercussão na situação que estamos a viver. E agora com o Papa Leão, temos uma grande esperança. Ele escolheu um nome inspirado num antigo Papa que se focou no desenvolvimento da doutrina social da Igreja, o que pode ajudar-nos como comunidade mundial a ajustar-nos às mudanças que estão a acontecer globalmente. E acho que isso, por si só, traz consigo uma enorme esperança.

 

Mas dizia há pouco que a situação permanece praticamente a mesma desde 2022. Isto apesar das negociações, dos apelos à paz… Como se consegue manter a esperança numa situação assim?

Acho que da mesma forma que fizemos desde o início: agindo. Quando alguém vê um erro moral, precisa de agir. E ao agir, aumenta a esperança no seu coração. E a outra parte realmente importante é a solidariedade. A solidariedade é outro aspeto que constrói a esperança. E é por isso que, mais uma vez, queria agradecer e pedir solidariedade contínua, especialmente em oração, mas também, na medida do possível, apoio material. Quando compreendemos que fazemos parte de uma comunidade maior, isso é uma grande força. E acho que é uma força não só na Ucrânia, mas também para as pessoas que estão no estrangeiro, que estão a ver o que está a acontecer e que sentem a necessidade de responder.

 

Sabemos que o Vaticano se tem movimentado para promover negociações, especificamente em relação à troca de prisioneiros e também ao regresso das crianças que foram levadas para a Rússia…

Sim, a Cáritas apoiou e trabalhou também na segunda etapa desse processo, ajudando as crianças que foram devolvidas à Ucrânia e as suas famílias. E temos visto, desde que a invasão em grande escala começou, um aumento de vítimas de tráfico humano. Muitas das pessoas que estão a ser devolvidas também foram usadas no tráfico humano. E a Cáritas trabalha também na reintegração destas pessoas.

 

Falamos de civis e não apenas de soldados.

Sim, há muitos civis que também estão detidos na Rússia. Na última troca de mil por mil [prisioneiros de guerra ], havia 120 civis. São 120 pessoas que passaram pelo trauma da detenção.

 

O que é que essas pessoas contaram sobre o período em que estiveram detidas?

Há histórias de tortura… níveis extremos de tortura física e psicológica que aconteceram enquanto estavam detidas.

 

Na sua perspetiva, o que seria preciso para esta guerra terminar?

A guerra poderia terminar se houvesse uma paragem nos ataques. Seria um bom primeiro passo para o cessar-fogo que foi proposto, um cessar-fogo de 30 dias.

 

E seria importante que o próprio Papa fosse a Kyiv?

Sim, estamos à espera dele! Temos ótimas lembranças da visita do Papa João Paulo II à Ucrânia em 2001. E isso teve um impacto bonito, eu acho, dentro do país, pela expressão de um pai, tanto para o seu rebanho, para o seu povo, mas também por essa compreensão mais ampla do abraço da Igreja Católica a todas as pessoas. E acho que estamos todos à espera, e seria um grande sinal, parece-me, de solidariedade, e também de esperança. Seria como quando um pai chega a casa, com a confiança e a alegria que ele traz quando entra pela porta.

Mais uma vez, como pessoas de fé, também somos inerentemente pessoas de esperança, porque carregamos a história da ressurreição, tanto do caminho da cruz, mas também da ressurreição, nos nossos corações. E acho também que, quando pensamos na fé, quando pensamos no que fazemos quando há uma crise como esta, quando há uma guerra como esta, isso também revela a profunda humanidade que todos nós temos. Isso toca algo muito profundo dentro de cada um de nós: essa necessidade de relacionamento, essa necessidade de comunidade, essa necessidade de ser humano. E ao agirmos juntos, ao solidarizarmo-nos, ao trabalharmos para encontrar uma solução para a situação… tudo isso aumenta a nossa humanidade e torna-nos mais plenamente nós mesmos.

 

O apoio prestado pela Caritas Ucrânia e pela Caritas SPES já garantiu ajuda a cerca de 4,8 milhões de pessoas na Ucrânia. Quanto ao apoio da Cáritas Portuguesa, terá contribuído para ajudar mais de 5.400 pessoas no país (em áreas como alimentação, roupa e produtos de higiene, abrigo, saúde e apoio psicológico), e ainda 2.000 deslocados na Polónia, República Checa e Moldávia, informou a instituição em nota enviada ao 7MARGENS.

Já em Portugal, foi disponibilizado um valor de 100.000€ para servir de apoio à população aqui deslocada, valor esse que foi entregue às diferentes Cáritas Diocesanas, conforme necessidade, e aplicado através do Programa “Vamos Inverter a Curva da Pobreza”.

Nos últimos três anos, foram apoiados 416 ucranianos no nosso país. Este apoio é prestado através de respostas a pedidos pontuais, como pagamentos de rendas, contas, medicamentos, entre outros, ou através de vales e cartões de compra.

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