Portugal adora Gil Vicente. Pela sua pena de autor, continua a falar um país que se reconhece em qualquer evento onde haja júbilo e alegria, onde fala o inconsciente coletivo vibrante, e onde o sagrado pagão e o cristianismo se entrelaçam como fios de um mesmo tecido. Talvez por isso os autos populares continuem a ecoar nos currículos escolares, nos grandes e pequenos grupos de teatro, e em tantos projetos culturais que persistem em o trazer à superfície.
De norte a sul, dos Açores ao Brasil, passando por Espanha, Itália e França, os autos fazem brilhar os palcos e, por vezes, as praças públicas. Estuda-se nas escolas, agita-se nos fantoches, investiga-se nas universidades e no modo peculiar como o português vive a sua identidade – entre o sagrado e o profano, entre o ingénuo e o metafísico. Barcelos tem um clube Gil Vicente; a SAD é mais complicado.. mas pronto; não consta que a Inglaterra tenha um clube chamado Shakespeare.
Há em Gil Vicente uma alegria essencial, um júbilo que não é alienação, mas forma de resistência e autoafirmação. O povo que ele representa não está alheado da miséria nem do pecado – muito pelo contrário – ri-se desses males. E esse riso de Carnaval, tem função catártica e libertadora. Como escreveu Mikhail Bakhtin, o riso “liberta o homem do medo, da reverência e do ritual – e transporta-o para uma região onde tudo pode ser dito”, inclusive a quantidade de palavrões que emanam das partes baixas do corpo, a mesma região de onde a mulher dá à luz.
Gil Vicente escreveu numa época em que não ocorria a ninguém separar radicalmente o sagrado e o profano. E atualmente em que vivemos a erosão de símbolos, e a obliteração da diferença entre o sagrado e o profano, e a crise na narrativa”, nada melhor do que alguém que nos diz que pouca coisa separa a algazarra carnavalesca do inferno do céu como instância de justiça; separa-os o tribunal das almas, mas também um espelho cómico do mundo.
Contra a piedade edulcorada e a demagogia clerical, Gil Vicente descobriu que os diabos não são partidários do Mal nem os anjos representantes do Bem. As coisas são mais complicadas e mais interessantes. Ele é contra os dualismos e os maniqueísmos. Os anjos são partidários da criação divina. Os diabos recusam que o mundo tenha sentido. Digamos que os diabos são filósofos pós modernos relativistas enquanto os anjos percebem o desconstrucionismo mas não se deixam enredar nele.
A verdade em Gil Vicente explode em gargalhadas, como os grandes humoristas da literatura do seu tempo, como Erasmo, Rabelais, Cervantes, que também encontraram no riso uma forma de dizer o indizível. Como sugere Milan Kundera, o riso dos anjos é o da sabedoria – é um riso jubilante, pois revela o ridículo da presunção humana. Vicente criou personagens-tipo que se aprendem na escola: o fidalgo presunçoso, o clérigo corrupto, a mulher de língua afiada, o diabo bufão, e o anjo que observa com compaixão e ironia. E sobretudo criou uma intimidade com as figuras das Escrituras, que leva a que a sua desconstrução não termine em niilismo mas sim em júbilo.
A tragédia grega esmagava o ser humano com um destino cego e incompreensível, com um fado; mas o nosso Gil Vicente antecipa um drama de outra ordem: a humanidade nasceu para ser salva e por isso ele gosta tanto do Natal, presente em todos os autos. A crítica social é dura, mas há sempre uma abertura ao arrependimento. A sentença pode ser dura, mas nunca é arbitrária. Segundo o grande Robert Spitzer, o drama cristão é, por definição, inclusivo e otimista – mostra a providência em ação, redimindo mesmo os que se perderam.
Portugal adora Gil Vicente. Desde a direita mais tronchuda, dos há muito falecidos Afonso Lopes Vieira e Couto Viana, até à esquerda mais sibilina de Luís Miguel Cintra e Maria do Céu Guerra, para só falar de grandes nomes do teatro, todos o louvam e representam. Desde os republicanos laicos, empedernidos e sabedores como Teófilo Braga e uma grande récua de lentes de Coimbra, até aos crentes José Augusto Mourão e Marcel Bataillon, todos rejubilam com a alegria profunda, coletiva, carnal e espiritual.

Auto das Fadas, 2004, Sala-Estúdio do Teatro da Rainha, Caldas da Rainha. Foto © Isabel Lopes
O Brasil adora Gil Vicente. É estudado em universidades, é representado em teatros profissionais, escolares, e amadores, é enaltecido nos e-sítios. A sua obra faz parte do currículo oficial de literatura portuguesa no ensino secundário e superior. Em França, Itália e Alemanha está incluído em cursos de literatura comparada, programas de teatro e filosofia, em estudos de teatro europeu junto com Molière e Rabelais e é encenado em festivais em versões traduzidas.
O teatro vicentino é uma celebração: desfilam personagens, tocam-se canções, rogam-se pragas, recebem-se bênçãos, toca-se o divino. Tal como nos autos medievais e nos mistérios religiosos, o povo participa. E esse envolvimento coletivo é fonte de júbilo. A vida torna-se romaria, procissão, celebração. A vaia num jogo de futebol, o improviso nas festas populares, o sarcasmo no discurso político – tudo isso tem ecos vicentinos.
Gil Vicente deu voz a um Portugal profundo da alegria que continua a existir. Mesmo os autos mais severos, com a sua extraordinária sincopada, às vezes sem enredo nenhum senão o de dar voz à gente, terminam sempre com uma lição de júbilo. Em vez de fim trágico, um convite à alegria e ao júbilo de quem se julga abandonado mas ainda assim é amado.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.










