Na próxima quinta-feira, dia 3, o Parlamento debate a petição dinamizada por organizações de apoio a reclusos, que propõe uma amnistia, a propósito dos 50 anos do 25 de Abril de 1974 e do Jubileu católico, que se assinala durante este ano. [ver 7MARGENS]
A propósito, publicamos a seguir uma carta da mulher de um recluso, mãe dos seus filhos, recebida pelo 7MARGENS, mas cuja autora prefere não ser identificada.
Durante quatro anos e dois meses, a nossa casa aprendeu a viver com a ausência – e com uma forma muito particular de silêncio: aquele que se instala quando quem amamos está fisicamente preso, mas continua emocionalmente presente.
O pai dos meus filhos cometeu um erro. A Justiça respondeu. Mas a pena que lhe foi aplicada teve proporções que ultrapassaram a dimensão do seu ato. Mais do que condenar um homem, o sistema suspendeu uma família – afetivamente, economicamente, psicologicamente.
Neste tempo, lutei por vias formais e informais. Escrevi cartas. Expus factos. Amei com força e argumentei com serenidade. Enviei apelos ao Santo Padre, ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro – pedindo apenas o que a justiça verdadeira sabe reconhecer: a diferença entre castigar e reabilitar, entre punir e escutar.
Só o Papa Francisco respondeu – com gestos, palavras e apelos a um perdão que não é esquecimento, mas reinício. O resto foram portas fechadas, emails sem retorno, esperas cansadas.
E, no entanto, eu não desisti. Porque o amor que me une nunca foi abalado por este tipo de erro. O sistema pode classificá-lo como “recluso”. Mas nós conhecemos a sua verdade. Conhecemos a sua dignidade. E nunca deixámos de ver nele o pai presente, o companheiro afetuoso, o homem que luta diariamente para ser útil, mesmo cercado por muros.
Escrevo estas palavras à beira de mais uma decisão parlamentar. Talvez aprovem o perdão. Talvez não. Mas a minha esperança – ainda que silenciosa – continua acesa. Porque a justiça que não escuta a realidade humana corre o risco de se tornar apenas punição. E as famílias, como a nossa, não vivem de castigos. Vivem de reencontros, de coragem e de fé no recomeço.
Esta memória é minha. Mas não é só minha. É de todas as famílias que aprenderam a sobreviver à ausência sem nunca deixarem de amar. Um dia, talvez, alguém escute.










