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autores - Luís Francisco Marques

O Político segundo a Fratelli Tutti

 

A polarização partidária, um partidarismo com demasiada ausência política, uma enfraquecida legitimidade dos atores partidários, um distanciamento entre representantes e representados… Sem exaustividade, estes aspetos representam um elenco de razões que tornam urgente o repensamento da figura do político concreto. Francisco, bispo de Roma, ofereceu à cidade e ao mundo uma perspetiva que supera a teoria política e institucional, para dar a pensar o político como pessoa concreta, inserido num contexto social e num enquadramento ético. O capítulo quinto do texto destaca valores substantivos para a ação política: serviço ao bem comum, escuta, coerência ética, diálogo e coragem para enfrentar desafios complexos… À luz da encíclica, a reflexão que se apresenta, pretende ser um breve ensaio de sistematização sobre o que significa ser político para este tempo, alicerçada numa visão sustentada pela fraternidade e pela solidariedade.

O político é um servidor do bem comum, colocando a dignidade humana acima de interesses pessoais (FT, 154). A cultura deste tempo que protagonizamos, que nos constrói (porque a respiramos por todos os poros), mesmo quando lhe resistimos, emancipados, em registo contra-hegemónico, carece da operacionalização da ideia de que ‘o todo é superior à parte’ e de um ‘Comum’ humanista e humanizante, que integre saudavelmente o individual, conferindo-lhe cidadania digna. E isto reclama cérebros plásticos e corações porosos, resistentes à tentação de um poder exercido em lógica autorreferencial.

Papa Francisco, Vaticano

O Papa Francisco pede uma política que abra “novos caminhos para que as pessoas se organizem e se expressem”. Foto captada do vídeo do Vatican News /YouTube.

O político é um escutador do povo, especialmente dos pobres e vulneráveis, pois a política nasce do encontro com o outro (FT, 163). Como ‘a realidade é superior à ideia’, a construção da cidade tem como fonte e cume o chão concreto e a carne e o osso de quem o pisa. É isso ou tornar a política partidária refém de uma elite pensante, que não serve o povo, porque julga saber exatamente aquilo de que ele precisa, as respostas às suas inquietações, sem nada lhe perguntar. Esta disjunção tem de ter um lado certo!

O político vive a vocação ética, com coerência entre palavra e ação, mesmo diante de críticas (FT, 158). A rapidez do tempo, a fragilidade anímica, as agendas escondidas, a sujeição ao diálogo como mal necessário, quando o que se advoga no íntimo é algo como pensamento único… Isto reflete-se em taticismos esguios, em legitimação de meios em função de fins, em autorodeamentos de concordantes e mesmidades confortáveis. Se acrescentarmos dinâmicas escrutinadoras que devassam vidas sem pudores e se operacionalizam no (i)mediatismo da praça pública, sem reflexão e com superficialidade, podemos ter os melhores fora. E isso abre espaço para a mediocridade e o oportunismo, mascarados de um messianismo pornográfico e repugnante, que pretende aniquilar adversários, sem os mínimos do diálogo urbano e decente.

O político rejeita a obsessiva polarização e o antagonismo superficial, buscando construir pontes, não muros (FT, 159), assumindo que ‘a unidade é superior ao conflito’. Nesse sentido, o político dialoga com adversários, reconhecendo a legitimidade e riqueza da diversidade (FT, 203). Ou asfixia e empobrece. Ainda assim, não vale tudo o mesmo, nem tudo pode ser legitimado. Precisa, por isso, de ser encontrado um elenco ético mínimo, mas com princípios máximos, com indicadores de dignidade humana inviolável e inegociável. Por muito tentador e confortável que seja, o político não se deixa corromper por ganância, poder ou vaidade, precisando de cultivar a humildade e a simplicidade (FT, 155). As estruturas partidárias precisam de definir e cuidar dos perfis ‘arregimentados’ e todos os cidadãos têm de ser escrutinadores críticos e exigentes da coerência entre o ser, o parecer e o fazer.

“A urgência é de projeto de longo prazo, de capacidade de convocação das melhores sinergias para a sua operacionalização, para lá das querelas bélicas superficiais, alimentadoras de ‘ruídos’ panfletário”. Foto: Alterações climáticas/Países em desenvolvimento, países pobres. Foto © UN/Tim McKulka

O político enfrenta problemas complexos com coragem, promovendo a justiça e a paz, mesmo se essa atitude é impopular e tem custos (FT, 154-155). Nesse sentido, a sociedade contemporânea carece, na dinâmica partidária e governativa, de mulheres e homens capazes de pensar para lá da legislatura e do retorno nas urnas, de estabelecer pactos de regime suprapartidários no essencial.  A urgência é de projeto de longo prazo, de capacidade de convocação das melhores sinergias para a sua operacionalização, para lá das querelas bélicas superficiais, alimentadoras de ‘ruídos’ panfletário. Ao nível dos princípios, o político constrói esperança, promovendo fraternidade social contra o individualismo (FT, 179). O inverso mina a comunidade e contribui para a sua implosão, mesmo quando disso não damos conta. O político vê a política como espaço de encontro humano, onde a solidariedade se traduz em compromisso (FT, 168) preferencial com ao mais pobres e os últimos, dada a escassez de recursos e a necessidade de priorizar os mesmos. Com o recurso a uma linguagem diferente, o político tem espírito profético, imaginando um futuro justo e fraterno e gastando-se pela sua construção (FT, 185).

O tempo é superior ao espaço. Nessa linha, ser político, na perspetiva da Fratelli Tutti, é assumir uma responsabilidade profunda, que ultrapassa a mera gestão de interesses, pessoais ou corporativos, ou a busca pelo poder. Trata-se de um compromisso ético, centrado no cuidado pelo outro concreto. A política, como arte de traduzir o complexo e construir o comum, tem de voltar a ser espaço de encontro, diálogo e esperança. Com saudável confronto entre quem vai a jogo seria e construtivamente. Em tempos de crises múltiplas, resgatar esses valores pode ser a chave para renovar a confiança na política e fortalecer a democracia.

 

Luís Francisco Marques, a reconstruir-se como professor nas áreas da Filosofia, no ensino secundário profissional.

 

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