Vasco Esteves de Cima é uma pequena aldeia encastoada, a oeste, numa das faldas da Serra da Estrela, a uma altitude cerca de setecentos metros, pertence à freguesia de Alvoco da Serra (foral de D. Manuel II, 1514), concelho de Seia, distrito e diocese da Guarda.

Centro da aldeia. Foto © José António Santos

Aldeia à noite. Foto © José António Santos
Outrora, o casario era constituído por blocos de xisto, pedra sobre pedra, sobressaindo, no topo, a cobertura negra de ardósia laminada. No geral, a volumetria da habitação de cada família não excedia dois pisos. O térreo acomodava uma ou duas lojas: numa, a adega; a outra, servia para guardar produtos da horta e arca salgadeira. O piso superior integrava a cozinha, sala e os quartos.
Considere-se, também, o aprisco para o pequeno rebanho de cabras, que quase todas as famílias possuíam, e que tomava o nome de corte, afastada da habitação.
O Censos de 1950 registou 44 fogos, ou seja, casas de família, uma população de 151 habitantes, 71 homens e 80 mulheres.
Da terra arrancavam o sustento, praticando agricultura de subsistência: milho, feijão, batata, couves, pastagens, oliveiras, figueiras e vinhas, em escala reduzida a pequenas courelas, e pastorícia.
Muitos homens em idade ativa migravam para Lisboa, Covilhã e Minas da Panasqueira. Outros, em tempos idos, tentaram a sorte pelo Brasil e Argentina. Já na década de 60 do século passado, boa parte emigrou para França, Suíça e Alemanha.
Os fluxos migratórios deixavam a população reduzida a mulheres e crianças, porquanto só em período tardio, esposas se juntaram a maridos, nos países onde estavam emigrados.
A pequena capela de Nossa Senhora da Conceição data de 1656. Implantada em socalco fundeiro, constitui o epicentro do povoado que dali se foi formando, e alargou em forma de concha, estendendo-se o casario a envolver a morada de Nossa Senhora, como se de um presépio se tratasse.

Banda Filarmónica de Loriga exibe-se junto à Capela de Nossa Senhora do Bom Parto . Foto © José António Santos
Outra capela, que se tornou principal, ergueu-a o povo em 1946, consagrada em honra de Nossa Senhora do Bom Parto, no alto do sítio denominado Cabeço.
Correu o tempo. O povoado conserva a paisagem inicial, aqui e além, apenas desfigurada pelo reboco colorido de casas e substituição da cobertura de ardósia por telha. A presença de painéis solares, assinala preocupações atuais com utilização de energia limpa e preocupação em preservar a casa comum. Hábitos gerados por fluxos de emigração com retorno às raízes que, no entanto, se revelam insuficientes para suster a linha de desertificação, de que algumas casas em escombros, também, disso dão sinal.
O Censos de 2011 encontrou lá 54 habitantes. Passados 14 anos, restarão pouco mais de três dezenas, a viver de reformas e de pensões.
Nesta aldeia, onde meus pais nasceram, passava eu as denominadas férias grandes, com estadas de meados de junho a começos de outubro, entre a segunda metade do século passado e a década de sessenta.
Tempo precioso de que guardo boas recordações.
Muitas dessas memórias se tornaram presentes em mim, neste segundo domingo de julho, por ocasião da festa em honra de Nossa Senhora do Bom Parto que o povo de Vasco Esteves de Cima, ano após ano, continua a promover, sempre, com a presença de centenas de conterrâneos que, por esse motivo, ali afluem.
Três gerações coexistentes assumem a festa que outras antepassadas iniciaram e no tempo souberam prolongar.
Serve a festa, em primeiro lugar, como manifestação de fé e piedade popular de uma pequena comunidade que conserva, afirma e transmite valores ancestrais, tal qual os recebeu de antepassados. A mesma religiosidade popular de que nos fala S. Paulo VI na Exortação Apostólica Evangelho aos Homens de Hoje, número 48.
Os ritos da festa religiosa compreendem procissão de velas, na véspera; procissão e celebração da Eucaristia, no domingo.

Procissão das velas em Vasco Esteves de Cima. Foto © José António Santos
Durante o fervor e silêncio do cortejo de luz, a que a aldeia se entregou, naqueles instantes precisos, afluírem-me à memória momentos inspiradores de férias grandes passadas em Vasco Esteves de Cima.
A fé de minha avó materna, zeladora da capela que, pela tarde, todos os dias, lá ia rezar o terço. Minha mãe que levava uma maceira ao forno vizinho para cozer broas. Os cheiros da cabrada e os chocalhos a tilintar quando o rebanho passava, de manhã, à minha porta, e, ao fim do dia, regressava da floresta onde fora pastar. A magia de as cabras saberem encontrar os redis e para eles se dirigirem, sem que o pastor o destino tivesse de lhes indicar. Os segredos da floresta, fauna e flora, que meu Amigo José Luís (1950-2016) me ensinou, a mim criança e jovem citadino, quando me levava consigo no pastoreio, onde brincávamos e nos divertíamos imenso. Os jogos ao ringue e às cartas, os bailes ao som de concertina, em que todos se envolviam por momentos gratificantes, até não haver fim. Os refrescantes mergulhos nos poços da ribeira de Alvoco. Os cheiros das casas e de flores viçosas do campo, o fumo da chaminés de lareiras a crepitar, onde almoços e jantares se cozinhavam em enegrecidas panelas de ferro. Mulheres a lavar roupa no tanque do povo e a tratar da lida da casa, enquanto os homens, de sol a sol, amanhavam courelas. A água tirada da fonte em cântaros de barro e latão. A vibração do sino da capela do cabeço, à hora certa, e o Toque de Angelus. A loja de comércio do Ti Zé da Horta, porta sempre aberta, onde todos consumiam e, se fosse o acaso de o proprietário se ausentar, entravam, serviam-se do que necessitassem, podiam deixar dinheiro ou escrever o que levassem, para depois ser registado no rol. As grandes noites de luar apreciadas ao relento, entretidas com conversas intermináveis. Ao domingo, missa e mais tempo para folguedo.
Assim era a vida em Vasco Esteve de Cima, protagonizada por um povo crente, honrado, trabalhador.

Procissão das velas em Vasco Esteves de Cima. Foto © José António Santos
Momentos de vida que perscrutei e recordei em rostos de quantos empunhavam velas a iluminar o crepúsculo e o cair da noite; imagens idênticas, memoráveis, as recebi, também, do semblante de homens e mulheres que, aos ombros, carregavam os andores, verdeiros símbolos e sustento da veneração do povo: Nossa Senhora da Conceição, padroeira; São José; Sagrado Coração de Jesus; Nossa Senhora de Fátima; e Nossa Senhora do Bom Parto.
Assim aconteceu, no segundo fim de semana de julho.
Na procissão de velas, ao transportar imagens da capela de Nossa Senhora do Bom Parto para a Capela de Nossa Senhora da Conceição, representantes de três gerações carregavam não apenas a história individual, mas, no rasto luminoso de velas incandescentes, inscreviam a vida de quem os precedeu e deles fez o que hoje são.
No abraço de duas capelas, Vasco Esteves de Cima mostrou-se como é.
José António Santos é jornalista.










