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autores - Marijke de Koning

Entre Margens

O luto no “movimento descendente”: como “ascender”?

| 07/10/2025

 

Sentia […] quão solitário se tornou nos meses seguintes à morte de Birgit […]. Funcionava, não se permitia desleixo com a sua aparência e o seu guarda-roupa, e estava tão animado e amigável na livraria como sempre, mas isso exigia todas as suas forças. À noite, conseguia, no máximo, […] aconchegar-se no sofá com um livro depois do jantar. Então, rapidamente encontrava-se a olhar para as páginas sem realmente ler, perdido em memórias e pensamentos que se recusavam a tomar forma, que permaneciam em fragmentos e o faziam sentir que a sua vida havia desmoronado, tanto externa como internamente. […] deveria tentar fazer novos amigos? Como fazer isso aos setenta e um anos?
(Bernhard Schlink, De Kleindochter (A Neta), 2022. Amsterdam: Cossee, página 222.)

Quando li, na tradução neerlandesa, o livro A Neta do escritor alemão Bernhard Schlink, fiquei muito tocada pela capacidade do autor em superar as dinâmicas que caracterizam os movimentos descendentes nas nossas vidas. A perda de pessoas próximas, com quem construímos a nossa vida, implica estar consciente do perigo da força arrastadora do luto. Implica cada vez mais tentar ir ascendendo, mesmo quando parece pouco possível e muito difícil. Significa continuar a viver, num registo de esperança, “o que me é dado a viver”, como dizia Maria de Lourdes Pintasilgo.

 

Sem Elas 

Maria de Lourdes Pintasilgo enquanto primeira-ministra, em fotografia assinada pela própria © Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra/Arquivo Lourdes Pintasilgo

Em 2004 vivi a partida de Maria de Lourdes Pintasilgo. Foi uma morte súbita. Deixou um vazio tremendo na minha, nossa vida do Graal. Deixou a presidência da Fundação Cuidar O Futuro a cargo da Fátima Grácio.

No dia 30 de junho 2024, foi a vez de Fátima Grácio nos deixar para sempre, após dois anos e quatro meses de vontade e esforço de viver com um problema de saúde complicado. Passou por várias intervenções cirúrgicas que lhe tiraram a qualidade de vida. Apesar disto, não queria “deixar as pessoas”, não queria morrer.

Quando seguimos um caminho nas nossas vidas, é sempre fruto de uma relação com alguém. Uma das pessoas mais determinantes na escolha do meu caminho de vida foi a Maria de Lourdes Pintasilgo. Em janeiro de 1969, encontrei-a pela primeira vez no Centro Internacional do Graal De Tiltenberg na Holanda. Convidou-me a fazer uma experiência numa equipa internacional e intercultural de jovens mulheres em Paris, durante o ano letivo de 1969-1970, na casa onde funcionava o Secretariado Internacional do Graal. Apeteceu-me ir estudar língua e literatura francesa e a minha resposta foi “sim”, sem hesitação. Foi o início da minha viagem no Graal, Movimento Internacional de Mulheres.

Através de Maria de Lourdes Pintasilgo, conheci no verão de 1970, em Portugal, a sua prima Fátima Grácio. Maria de Lourdes atribuiu muita importância à existência de iniciativas voltadas para jovens mulheres no Graal. Entre 1971 e 1973 a Fátima e eu formámos uma equipa para trabalhar no centro do Graal de Lisboa com jovens, alunas do ensino secundário num regime extraescolar.

Maria de Lourdes Pintasilgo e Fátima Grácio tornaram-se duas pessoas estruturantes na minha vida no Graal. Permitiram que eu participasse com interesse e dedicação em muitos movimentos ascendentes, com encontros, projetos, redes e seminários, muitas vezes promovidos por elas.

Felizmente a geração inicial do Graal em Portugal conseguiu passar a mensagem, que ao longo dos anos inspira iniciativas diversas.

 

O movimento ascendente temperado pelo descendente?

Cito, de Henri J.M. Nouwen, O esvaziamento de Cristo. Movimento descendente e vida espiritual (Paulinas Editora, 2012):

“Toda a nossa forma de viver se estrutura à volta da ascensão na escala do êxito e da chegada ao topo da mesma. O nosso próprio sentido de vitalidade depende de sermos parte desse esforço ascendente e da alegria que deriva das recompensas recebidas ao longo do caminho” (pág. 20).
“Não é difícil distinguir o movimento ascendente do mundo em que vivemos do movimento descendente de Cristo (p.41).
“Não existe quase nada mais difícil de ultrapassar do que o nosso desejo de poder” (pág. 58).
“A disciplina do discípulo cristão não consiste em dominar nada, mas antes em deixar-se dominar pelo Espírito” (pág. 69).

 A dimensão espiritual está sempre presente no Graal. Toma formas diversas que se vão reinventando ao longo dos anos. Henri Nouwen problematiza a nossa existência nesta sociedade tecnológica, altamente competitiva, em que o sentido da vida depende do êxito, das recompensas recebidas. Muitas vezes não há paciência para lidar com pontos de vista diferentes, não há tempo para o diálogo em situações de conflito. Reina o “poder sobre”. As ideias desenvolvidas por Henri Nouwen permitem temperar espiritualmente os nossos movimentos ascendentes.

No mundo em que vivemos estamos envolvidas em sistemas de mensagens paradoxais perante os quais temos de nos reposicionar e reinventar constantemente. Através da ação reflexiva problematizamos o mundo mudado e ensaiamos voos mais leves, livres e solidários. Num devir constante, viajamos sem destinos fixos, atravessando paisagens desconhecidas, movimento ascendente. No Graal realizamos projetos, publicamos textos. Somos vistas quando pisamos este palco desta nossa “praça pública” que se estende internacionalmente.

Como vivemos no Graal esta tensão entre o desejo de sucesso e de ser reconhecida e a capacidade de “não dominar nada”? Conseguimos não ficar enredadas no movimento ascendente? O linguista e padre jesuíta Jacques van Ginneken, fundador do Graal na Holanda (1921), dizia em 1932 como “devemos viver”:

“Quem luta por amor de Deus não são meninas bem-comportadas, mas mulheres fortes que podem agir de forma independente (…) é assim que as mulheres podem conquistar o mundo para Cristo: usando o cérebro e não dizendo ‘Vou esperar que me digam o que devo fazer.’ Desse modo nunca iremos longe.

Como devem viver? Combinando a espiritualidade mais absoluta com a mais livre das mundanidades. (…) Temos de avançar com o nosso tempo (…). Temos de usar as oportunidades que se nos oferecem. Carros, aviões, telefone, rádio (…) Qual é a nossa tarefa? Contrabalançar toda a dureza masculina do mundo, todos os resultados do pecado e do capitalismo (…) se, pelo menos, conseguíssemos deixar de considerar o homem como a única força na vida pública. O feminismo está a trabalhar nessa direção…. Oh, se esse feminismo tivesse êxito! Se pudéssemos mobilizar aquela metade da humanidade que não tem contado até agora

 

O movimento descendente inspirado pelo ascendente?

Fátima Grácio. Foto DR

“O movimento descendente, que começou a estar mais presente na minha vida com a morte súbita de Maria de Lourdes Pintasilgo, tornou-se ainda mais forte com a morte da Fátima.” Foto: Fátima Grácio. DR

O movimento descendente, que começou a estar mais presente na minha vida com a morte súbita de Maria de Lourdes Pintasilgo, tornou-se ainda mais forte com a morte da Fátima. Fátima Grácio, uma mulher de abril totalmente confiante em Deus, como nos lembrava Teresa Vasconcelos no 7MARGENS.

Como mover-me de uma forma ascendente na vivência do luto, que por definição consiste numa dinâmica descendente? Há sempre pessoas que, com muita boa vontade e amizade, nos dão conselhos: “vai falar com alguém” (= uma psicóloga), e “tenta distrair-te”. Pode ser importante, mas para mim é “pouco”.

Rachel Donders, uma das fundadoras do Graal, afirma que, na vida, há o conhecimento da manhã, morning knowledge, e o conhecimento da noite, evening knowledge. Há uma nuance no que se sabe após uma longa experiência, que é diferente da luz que brilha no início. O importante é saber estar num registo de evening knowledge. Implica ter consciência da finitude da nossa vida e aceitar os caminhos descendentes. Tanto como é importante aprender a temperar os movimentos ascendentes com a consciência de dinâmicas descendentes, inesperadas e sempre possíveis, o oposto não é menos importante.

Como, então, no movimento já descendente, marcado pelo luto, conseguir, paradoxalmente, levantar-me, subir, ascender? Não fugindo à dor.  Cultivando a memória, o mais possível. Agarrar em objetos, abrir livros, olhar para fotografias, ouvir gravações, ver vídeos, falar com gente amiga lembrando situações, eventos e vivências. Visitar o cemitério, colocar flores. Agarrando a presença ausente. E, no meu caso, continuar a trabalhar no projeto Arquivo Digital do Graal, iniciado por Fátima Grácio em 2021 com a arquivista Susana Lourenço.

 

Cultivar a memória, prosseguir o caminho

“Há momentos – acontecimentos e lugares – nas histórias das pessoas e dos grupos que, quando são lembrados e contados, constroem o presente e garantem o futuro do sentido das coisas vividas.” Foto ilustrativa do texto “O que guardamos para fazer memória?”. Site Ponto SJ

Há momentos – acontecimentos e lugares – nas histórias das pessoas e dos grupos que, quando são lembrados e contados, constroem o presente e garantem o futuro do sentido das coisas vividas. Há como uma espécie de fidelidade àquilo que fez sentido no passado e que não morre porque continua a atravessar o nosso presente. “O que guardamos para fazer memória?”, pergunta Maria Captivo, num texto publicado no Ponto SJ, portal dos jesuítas em Portugal, no dia 8 de julho de 2025:

“(…) fazer memória implica ir mais fundo; implica revisitar a minha vida, isto é, voltar a olhar para aquilo que guardei sobre o que vi e ouvi, sobre o que aprendi, sobre o que vivi.  (…) Acredito que fazer memória ajuda a conhecer e perceber a importância que algo ou alguém teve ou tem na minha vida. E isso não é imediato. Fazer memória pressupõe tempo e parte de um desejo grande de procura de sentido (enraizado na convicção de que este existe). Já todos fizemos a experiência de só perceber o significado ou a importância de alguma coisa tendo deixado passar tempo. Diria, por isso, que fazer memória é o primeiro passo para acolher e integrar algo da minha vida de forma fecunda, de forma que dê fruto – e, lá está, os frutos levam tempo.”

As pessoas que morrem continuam presentes na nossa vida, vivem sempre em nós. Dão-nos um passaporte para um novo caminho. Fazem um convite para uma continuidade. Assim nunca morrem, mas ajudam-nos a prosseguir um caminho por nós reiniciado. Um caminho o mais leve possível. Leva tempo a ser leve, mais leve…

 

Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

(Fernando Pessoa, Poemas de Alberto Caeiro)

(Com muita gratidão às minhas amigas Fátima Silva e Glória Miraldes, por me terem acompanhado na escrita deste texto e de terem corrigido o meu “português de estrangeira”.)

 

Marijke de Koning, neerlandesa, trabalhou como pedagoga social e educadora de adultos, predominantemente no contexto do Graal, movimento internacional de mulheres enraizado na fê Cristã.

 

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