Quando o Papa Francisco nasceu ainda não era papa, é claro, nem tinha as condições que em 2013 lhe permitiram ser o escolhido. Era pequenino, como todos os outros bebés, chamava-se Jorge Mario Bergoglio, o que o tornava de certo modo único, tal como o seu ADN. Mas nada prenunciava um qualquer futuro. Como qualquer criança humana, era sobretudo moldável pela casa que lhe iria dar forma.
Em primeiro lugar, a sua família. Cristã e católica, no caso. Depois, a família dos Jesuítas, com o seu carisma e programa próprios. De seguida, a arquidiocese de Buenos Aires, na qual foi arcebispo, com os desafios próprios do lugar. Por fim, o colégio de cardeais de que passou a fazer parte em 2001. Foram todas estas casas que o acolheram e lhe deram a forma que conquistou o mundo muito para lá da função que, de imediato, lhe garantiu uma visibilidade mundial. Mas a visibilidade apenas tornou percetível aquilo que ele já era e que continuou a ser, a partir de então num contexto novo.
É fácil, e justo, olhar Francisco naquilo que ele foi como papa. Mas é importante prestar atenção a tudo aquilo que lhe deu a forma que lhe permitiu ser o que foi. Houve, como em cada um de nós, um dinamismo interior, próprio de qualquer ser vivo humano, mas essa força interior foi sendo passo a passo moldada pelas forças exteriores que lhe foram dando forma. A autobiografia de Francisco, com o título de Esperança, (ver 7MARGENS) permite ao leitor acompanhar, em grandes linhas esse processo. Se tivessem sido outras as casas de Francisco… não temos como saber qual teria sido o resultado.
Estas afirmações, elementares, são ponto de apoio para uma leitura do Cristianismo como casa de formação humana. É uma casa com muitos quartos, desde cada família e comunidade local com a sua vivência específica até às diferentes ordens religiosas com os respetivos carismas. A referência mundial que Francisco foi e é provável que continue a ser não deve ser olhada só do ponto de vista de um homem excecional, mas também como um produto vivo resultante de sucessivas casas que lhe foram dando forma. Outras religiões produzem outros projetos de vida com os respetivos resultados de um trabalho continuado de produção humana. E fora das religiões há ainda outras casas a darem guarida e forma a homens e mulheres com os seus problemas.
Mas este ponto de vista leva-nos a perceber que cada um dos homens e mulheres, numa diversidade que podemos dizer ilimitada, é resultado das interações formativas de que foi alvo. Por vezes olhamos as pessoas como se fossem substâncias, existindo apenas em si mesmas, logo culpadas ou merecedoras das acusações ou elogios que tendemos a fazer-lhes. Esquecemos com demasiada facilidade que as margens de autonomia de cada pessoa são muito mais limitadas do que conseguimos ver. É muito fácil o nosso olhar de estranheza e condenação esquecer que cada ser humano “estranho” é ele e sobretudo a sua circunstância (como nos ensina Ortega y Gasset).
A autobiografia de Francisco pode ser lida não apenas como a narrativa da sua própria vida, mas como o reconhecimento disto mesmo na sua vida. “Esperança” pode ser a síntese da sua história de vida, mas todos sabemos que há vidas que são sobretudo testemunhas de mil razões de dor e desespero.
Deste modo, a nossa casa comum é tecida a mil cores e sabores. Convém que saibamos olhar para o processo que transforma cada criança que nasce num caso sério a ter em conta. Se “tudo nasce para florir”, como diz Francisco, algumas vidas murcham demasiado cedo e muitas tornam-se em frutos amargos, em resultado de processos que não está ao seu alcance controlar.
Daí a necessária conclusão sobre a importância maior do contexto que proporcionamos a cada criança que nasce, desde os primeiros meses até aos seus últimos dias. Porque até os mais velhos precisam de aprender a ser o fruto maduro e saboroso de uma vida longa, apesar das dificuldades por que passaram ao longo dos anos. Podemos olhar as formas de vida de que participamos a partir desta pista de análise. Não é isso a que Francisco nos desafia? Não foi isso um dos seus cuidados maiores?
José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com










