A alquimia é a antiga arte de transformar os metais em ouro. Pode parecer distante da realidade brutal de Gaza, mas talvez seja esta metáfora que melhor descreve o que ali se vive: um processo doloroso, destrutivo, em busca de algo mais elevado — dignidade, justiça, paz.
A alquimia ensinava que, para se alcançar o ouro, era preciso atravessar o caos. Gaza vive esse caos há décadas — uma terra onde a dor se repete como um ciclo alquímico interrompido, sempre à espera da transmutação que nunca chega.
Gaza está há meses mergulhada no que os alquimistas chamariam de nigredo, a fase da decomposição. A terra está saturada de sangue, fome e ruínas. Gaza é sinónimo de destruição. A fome agrava-se, os hospitais são alvo – o hospital Nasser, um dos últimos ainda em funcionamento no sul de Gaza, foi esta semana atingido por mísseis israelitas. Vinte mortos, cinco deles eram jornalistas -. E o mundo, entre comunicados e hesitações, assiste.
No entanto há algo que já está em transformação: os jovens palestinianos, filhos da ocupação e da escassez. Crescem com raiva, com sede de justiça, e não se trata de glorificar o ódio, trata-se de compreender o que nasce quando se rouba o futuro a uma geração inteira.
Crescida entre escombros e promessas quebradas, esta geração não se limita a sobreviver. Revolta-se. Questiona. Deseja vingança.
Não é fácil falar de vingança sem cair na simplificação, mas ignorá-la é negar a realidade. Estes jovens não querem apenas pão — querem sentido. Querem que a dor dos seus pais, dos seus irmãos, não tenha sido em vão.
Na alquimia, o fogo é necessário para purificar. Em Gaza, o fogo é literal — explosões, destruição, perda. Estes jovens não querem apenas resistir. Querem transformar. Querem que o chumbo da guerra se transforme em ouro — não o ouro da riqueza, mas o da dignidade.
A fome, usada como arma, é o sal que irá conservar a memória da humilhação e corroer pontes e esperança, mas é nesse terreno que a esta geração se irá mover: entre o desejo de reconstruir e o impulso de retaliar.
Os alquimistas ensinavam que o veneno pode ser cura, se bem doseado, mas Gaza já está a ultrapassar a dose que serve para curar, e é por isso que o mundo precisa olhar para o que se passa não como um conflito distante, mas como um espelho da nossa falência moral.
A juventude de Gaza não é apenas vítima, é protagonista de uma história que talvez ainda pudesse ser mudada, desde que para isso houvesse coragem política, justiça real e um compromisso com a vida, porque, neste momento, Gaza não precisa apenas de piedade: precisa de transformação. E os jovens que lá vivem são, paradoxalmente, os alquimistas dessa esperança.
Talvez um dia… quando, verdadeiramente, se quiser compreender que o metal da guerra não se dissolve com silêncio, o ouro da paz seja possível.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










