[A escuta que cura – 2]

A dimensão espiritual da vida humana

| 7 Jul 2024

Auschwitz; Holocausto

Um sobrevivente do Holocausto argumentou que a busca por significado é uma das motivações primordiais do ser humano. Na imagem, óculos das pessoas assassinadas no campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau (1941-1945). Foto: Paweł Sawicki, Auschwitz Memorial.

Diferentes tradições culturais, religiosas e filosóficas têm procurado entender e explicar a dimensão espiritual que, embora intangível, é intrínseca à experiência humana. A espiritualidade, neste contexto, não se limita à prática religiosa, mas abrange um espectro mais vasto de experiências e perspetivas que transcendem a mera existência corporal. Pode ser entendida como a busca por um significado profundo na vida, uma conexão com algo maior do que o próprio indivíduo. Esta busca pode manifestar-se através da religião, mas também pode encontrar expressão em práticas não religiosas, como a meditação, a contemplação da natureza, a arte, a filosofia e em relações humanas profundas. Em todas elas, a espiritualidade implica um processo de autoconhecimento e transformação pessoal, que frequentemente resulta numa maior compreensão de si mesmo e do mundo. 

A Organização Mundial da Saúde define a dimensão espiritual da vida humana associada a experiências que transcendem os fenómenos sensoriais. Diferente do “religioso”, a espiritualidade pode incluir um componente religioso para muitos, mas vai além, integrando-se com os aspetos físicos, psicológicos e sociais. É capaz de realizar transformações internas profundas, oferecendo novos significados e campos de experiência que levam ao coração e ao mistério de todas as coisas.

Um dos aspetos centrais da dimensão espiritual é a sua capacidade de proporcionar um sentido de propósito e direção na vida. Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, argumentou que a busca por significado é uma das motivações primordiais do ser humano. No seu livro O Homem em Busca de um Sentido (edição Lua de Papel), Frankl descreve como a capacidade de encontrar um sentido na vida permitiu a muitos dos seus companheiros de campo de concentração sobreviverem às condições mais extremas. Esta busca, que pode ser vista como uma manifestação da dimensão espiritual, é fundamental para o bem-estar psicológico e emocional.

De facto, a dimensão espiritual está intimamente ligada à vida do coração. Na Bíblia, o coração é mencionado 872 vezes, representando a sede das ações, vida psíquica, afetiva e intelectual da pessoa. É o coração que regula a alegria, tristeza, coragem, desânimo, emoção e ódio, mas também é a sede da vida intelectual e moral, discernindo o bem e o mal. No coração, a pessoa dialoga consigo mesma e assume as suas responsabilidades, sendo a fonte da personalidade consciente, inteligente e livre, onde se compreendem e projetam as ideias e se guardam as intimidades. Na verdade, tudo o que tem a ver com a dimensão transcendente do ser humano, com o mundo dos valores, com a questão do sentido e com a dimensão do mistério. É o coração da dimensão espiritual.

Por isso, também no campo educativo e da saúde, a competência espiritual é cada vez mais discutida, especialmente em contextos de ajuda e acompanhamento. É essencial considerar a competência espiritual para evitar uma abordagem desumanizada. Como o termo espiritualidade possui conotações religiosas que geram reações diversas, é fundamental superar essas resistências. A competência espiritual é uma exigência ética para os profissionais de saúde e crucial para a humanização do cuidado. Ignorar essa dimensão ao acompanhar pessoas em sofrimento e em situações de crise é negligenciar o aspeto mais genuinamente humano.

Atualmente, coexistimos com uma tendência a menosprezar aquilo que carece de evidência empírica, enquanto simultaneamente ressurge o interesse pelo espiritual. Muitos procuram uma abordagem laica para evitar a perceção da religião como arcaica ou moralizadora. No entanto, os processos de humanização persistem graças ao poder do ser humano de se reconhecer a si mesmo. Edith Stein, na sua tese sobre a empatia, sublinha o lugar do outro: “Honro o outro não apenas como um corpo, mas como um ser vivo: para além do corpo, venero o sujeito que o habita, honro o outro como uma pessoa espiritual e descubro que os seus gestos, as suas palavras são motivados pela sua estrutura pessoal. É o espírito do outro que fala no meu espírito”.

Para alcançar uma vida autêntica, é necessário libertar-se daquilo que provocou rejeição à vida do coração e do espírito. Cultivar o espírito implica atrever-se a eliminar o que não contribui para uma vida verdadeiramente gozosa e em comunhão connosco próprios, com os outros e com o transcendente, a quem chamamos: Deus. 

Nuno Westwood é padre católico, pároco de Nova Oeiras e de São Julião da Barra (Patriarcado de Lisboa), formado em Counselling pelo Centro de Humanización de la Salud de Madrid, membro do GEscuta (Gabinete de Escuta) de Oeiras. 

Contacto: 964400675, www.gabinetedeescuta.pt, padre.nunomail.com

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Próximo texto: 4 de agosto – Uma escuta para curar. 

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