A vitória de Zohran Mamdani revela tendências profundas do nosso tempo e do estado atual da democracia. Não interessa se concordamos ou não com as suas propostas. Independentemente de se concordar ou não, o caso Mamdani oferece um retrato vivo das tensões entre medo, populismo, radicalismo e esperança que marcam a política.
1. O medo e a coragem
Mamdani demonstrou o que muitos políticos, meios de comunicação e instituições de ensino carecem: ausência de medo. Em tempos de declínio democrático, a coragem torna-se virtude essencial. A política do medo — a constante tentativa de evitar o erro, o confronto ou a crítica — alimenta o autoritarismo. Mamdani mostrou que é possível governar e comunicar, enfrentando a incerteza com confiança e clareza.
2. Socialismo democrático vs. social-democracia
Mamdani autodefine-se como “socialista democrático”, não como “social-democrata”. Na cabeça demente de Trump, isto é “comunismo”. Contudo, esta distinção é mais de sensibilidade do que de substância. Quando questionado sobre a diferença, Mamdani respondeu que o socialista democrático “luta mais tempo e com mais força pelos seus ideais”. O seu programa não diverge muito da social-democracia europeia; a diferença reside no ímpeto moral e combativo com que defende o Estado social e a justiça económica.
3. Política identitária e a armadilha do moralismo (“woke”)
Um dos aspetos mais notáveis da sua campanha foi a recusa do excesso moralizante. Mamdani defendeu causas progressistas, mas evitou transformar o desacordo político em conflito moral ou identitário. Por isso recebeu o apoio de boa parte da população judaica de Nova Iorque, tanto ortodoxos como liberais. Atenuou muito o “wokeísmo”, entendido como a transformação da diferença política em batalha moral e depois em disputa identitária imposta por instituições. A sua postura foi de firmeza contra Trump e conservadores mas sem demonização do adversário — uma diferença significativa num Ocidente que há mais de uma década se divide em guerras culturais.

“Mamdani encarna um tipo de populismo inclusivo, próximo do de Bernie Sanders, em contraste com o populismo de exclusão associado a Trump ou à direita radical europeia. Foto retirada da página oficial do Facebook
4. Populismo inclusivo vs. populismo de exclusão
Mamdani encarna um tipo de populismo inclusivo, próximo do de Bernie Sanders, (que entretanto se tornou também um milionário) em contraste com o populismo de exclusão associado a Trump ou à direita radical europeia. O primeiro mobiliza o povo com base na esperança e solidariedade, o segundo através do ódio e ressentimento. O populismo inclusivo reconhece que “todos contam” e procura canalizar os impulsos construtivos dos cidadãos, enquanto o outro liberta instintos destrutivos. A tarefa, portanto, não é culpar os cidadãos pelo declínio democrático, mas compreender as forças sociais que desencadeiam impulsos destrutivos e agir contra elas.
5. Radicalismo e o problema da exequibilidade
Ser radical não é, em si, um problema — o problema é propor políticas irrealizáveis. Aqui é que surgem muitas dúvidas. Mamdani prometeu medidas concretas e de alcance limitado: congelamentos parciais de rendas, transportes públicos gratuitos, creches acessíveis, pequenas redes de mercearias públicas, impostos sobre milionários. O seu radicalismo é pragmático e quotidiano, não revolucionário. Contudo, a dificuldade de cumprir é o calcanhar de Aquiles das democracias contemporâneas: quando as promessas não se cumprem, corrói-se a confiança não só no dirigente, mas em todo o sistema — até na distinção entre verdade e mentira.
6. O dilema da democracia: precisamos de audácia, mas o sistema bloqueia-a
As democracias neste século XXI, vivem um paradoxo: precisam de ação ousada para sobreviver, mas foram desenhadas para conter qualquer ousadia excessiva. As redes complexas de freios e contrapesos, criadas para impedir abusos de poder, acabam por paralisar a capacidade de reformar. Em Portugal, Sá Carneiro ficou como exemplo de político audaz a quem a morte cortou projetos. Nos EUA, Obama mostrou uma retórica brilhante, mas teve paralisia governativa. Mamdani enfrentará o mesmo dilema: a sua agenda vai chocar com os limites da realidade administrativa, orçamental e institucional, tanto estatal como federal.
Conseguirá Mamdani convencer os seus concidadãos de que, apesar dos obstáculos, tenta genuinamente melhorar as suas vidas — sem o narcisismo, oportunismo, carreirismo e os demais males dos políticos que não conseguem ser estadistas. Se o conseguir, manterá a confiança do público mesmo que falhe em várias propostas. Caso contrário, o desencanto crescerá, alimentando novo ciclo de medo e descrença .
O caso Mamdani é um espelho da atualidade: mostra como a coragem política, a empatia e o realismo podem coexistir com ideais de transformação social — mas também como as democracias do século XXI lutam contra os próprios mecanismos que deveriam protegê-las. A sua vitória é, portanto, um teste à capacidade das democracias de voltarem a inspirar esperança sem ceder ao medo, ao moralismo ou à paralisia. Não vai ser fácil.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.










