
João XXIII, autor da Pacem in Terris, o primeiro documento a ser dirigido por um Papa “a todas as pessoas de boa vontade”. Foto: Direitos reservados.
Ao percorrer o texto da recente encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti (assim denominada como sempre, por serem estas as primeiras palavras que iniciam o texto de Francisco, Todos Irmãos), não pude deixar de reviver a emoção e a memória com que, há 57 anos, acompanhei a publicação dessa outra encíclica, desse outro grande Papa que foi João XXIII, o Bom Papa João, hoje S. João XXIII: a encíclica Pacem in Terris. Fazer uma leitura conjunta destas duas encíclicas revela-se-me essencial.
Em 1963, os tempos eram outros. Portugal vivia a Guerra Colonial que, por mais de uma dezena de anos, haveria de marcar de forma indelével a sociedade portuguesa e de certo modo “separar as águas” entre os católicos portugueses. A hierarquia e o clero da Igreja Católica tardavam, com raríssimas exceções, em descolar de uma guerra sem qualquer sentido (se é que uma guerra alguma vez pode ter sentido), tomando, não poucas vezes, o partido do país colonizador contra a liberdade dos povos africanos colonizados.
Neste quadro nacional, João XXIII publica, em 11 de abril de 1963 (dois meses antes da sua morte e dois anos depois da construção do Muro de Berlim, cujo início ocorrera a 13 de agosto de 1961), alguns meses depois daquela que ficou conhecida pela crise dos mísseis em Cuba e já com o Concílio Vaticano II a decorrer, a Carta-Encíclica “Paz na Terra” sobre “a Paz de todos os povos na base da Verdade, Justiça, Caridade e Liberdade”.
Nesta conjuntura nacional em claro contexto de guerra e internacional caracterizada pela Guerra Fria, João XXIII reafirma e defende que “os conflitos entre as nações devem ser resolvidos com negociações e não com armas e na confiança mútua. A Paz entre os povos exige: a verdade como fundamento, a justiça como norma, o amor como motor, a liberdade como clima”. Poderíamos dizer, em síntese, exige fratelli tutti.
Várias das teses defendidas na Pacem in Terris vieram, posteriormente, a ser adotadas e a integrar os documentos do Concílio Vaticano II (1962-1965). É também este o primeiro documento, da importância de uma encíclica da Igreja Católica, a ser dirigido, expressamente, por um Papa “a todas as pessoas de boa vontade”.
Faz todo o sentido uma leitura comparada destes dois documentos, aos quais se deverá juntar a célebre mensagem de Paulo VI em 4 de outubro de 1965 à Assembleia Geral da ONU: “e aqui a nossa mensagem atinge o seu topo. Negativamente primeiro: é a palavra que vós esperais de Nós e que não podemos pronunciar sem estar conscientes da sua gravidade e da sua solenidade ‘nunca mais uns contra os outros’, nunca, nunca mais. Não foi sobretudo com este fim que nasceu a Organização das Nações Unidas, contra a guerra e pela paz? Escutai as palavras lúcidas de um grande desaparecido, John Kennedy, que proclamava há quatro anos: ‘A Humanidade deverá pôr fim à guerra ou é a guerra que porá fim à Humanidade’”.
Não cabe neste apontamento de memória que separa 11 de abril de1963 de 4 de outubro de 2020, uma leitura comparada dos dois documentos papais, nem o autor destas linhas tem competência para o fazer. Procurei apenas relembrar a linha de continuidade do pensamento de três grandes Papas, rememorando textos de há mais de 50 anos, quiçá um tanto esquecidos, os quais, à época, marcaram de forma decisiva o pensamento da Igreja.
Aventuro-me um pouco mais, ao relembrar, das cinco partes em que genericamente podemos dividir a Pacem in Terris, a terceira e a quarta partes. Muito ligadas entre si, a terceira parte reflete sobre as relações entre as comunidades políticas, com base em “problemas concretos como o das minorias (nº94-97), o dos refugiados políticos (nº103-108), o do desarmamento (nº110) e o dos povos subdesenvolvidos (nº123); A quarta parte analisa “as relações dos indivíduos e das comunidades políticas com a comunidade mundial preconizando a instituição de uma autoridade pública universal (nº132-138) e afirmando o princípio da subsidiariedade em que as pequenas comunidades possam exercer livremente as suas atribuições dentro da linha do bem comum (nº 149). Verdadeiramente revolucionário à época.
Sobre o essencial desta encíclica Fratelli Tutti de tão recente publicação, a sua leitura atenta permitirá entender, sem mais comentários, a linha de continuidade à Pacem in Terris. Acrescentarei apenas que ao longo dos seus oito capítulos a riqueza do discurso de Francisco sobressai de forma luminosa.
Não resisto, porém, em sublinhar, pela sua beleza e força espiritual, o Apelo final, com o qual Francisco encerra o texto:
“Naquele encontro fraterno, que recordo jubilosamente, com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb ‘declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram – nalgumas fases da história – da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens (…). Com efeito Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas’.
Por isso, quero retomar aqui o apelo à paz, justiça e fraternidade que fizemos juntos:
‘Em nome de Deus, que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como irmãos, a povoar a terra e espalhar sobre ela os valores do bem, da caridade e da paz.
Em nome da alma humana inocente que Deus proibiu de matar, afirmando que qualquer um que mate uma pessoa é como se tivesse morto toda a humanidade e quem quer que salve uma pessoa é como se tivesse salvo toda a humanidade.
Em nome dos pobres, dos miseráveis, dos necessitados e dos marginalizados, a quem Deus ordenou socorrer como um dever exigido a todos os homens e de modo particular às pessoas facultosas e abastadas.
Em nome dos órfãos, das viúvas, dos refugiados e dos exilados das suas casas e dos seus países; de todas as vítimas das guerras, das perseguições e das injustiças; dos fracos, de quantos vivem no medo, dos prisioneiros de guerra e dos torturados em qualquer parte do mundo, sem distinção alguma.
Em nome dos povos que perderam a segurança, a paz e a convivência comum, tornando-se vítimas das destruições, das ruínas e das guerras.
Em nome da ‘fraternidade humana’, que abraça todos os homens, une-os e torna-os iguais.
Em nome desta fraternidade, dilacerada pelas políticas de integralismo e divisão e pelos sistemas de lucro desmesurado e pelas tendências ideológicas odiosas, que manipulam as ações e os destinos dos homens.
Em nome da liberdade, que Deus deu a todos os seres humanos, criando-os livres e enobrecendo-os com ela.
Em nome da justiça e misericórdia, fundamentos da prosperidade e pilares da fé.
Em nome de todas as pessoas de boa vontade, presentes em todos os cantos da terra.
Em nome de Deus e de tudo isto, (…) declaramos adotar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério.”
Das duas orações finais compostas por Francisco para esta encíclica escolho a seguinte:
Oração ao Criador
Senhor e Pai da humanidade,
que criastes todos os seres humanos com a mesma dignidade,
infundi nos nossos corações um espírito fraterno.
Inspirai-nos o sonho de um novo encontro, de diálogo, de justiça e de paz.
Estimulai-nos a criar sociedades mais sadias e um mundo mais digno,
sem fome, sem pobreza, sem violência, sem guerras.
Que o nosso coração se abra
a todos os povos e nações da terra,
para reconhecer o bem e a beleza
que semeastes em cada um deles,
para estabelecer laços de unidade, de projetos comuns,
de esperanças compartilhadas. Amen.
António Marujo chama-lhe “o testamento político do Papa Francisco”… poderíamos dizer ter sido Pacem in Terris o testamento político de João XXIII.
06-10-2020
Fernando Gomes da Silva é engenheiro agrónomo










