Porta da Esperança na igreja de Souto, Terras de Bouro
«Portas: são quadros tridimensionais. Implicam, exigem também uma certa relação física. Uma porta é talvez a única obra de arte que nos é permitido tocar. Não fosse por outra coisa porque é preciso empurrá-la para a abrir e entrar».
[Di Capua 2012,170]

[Habitante de Souto a contemplar a Porta da Esperança © Joaquim Félix]
Uma nova porta! Banhada em óleo de cedro, ela resplandece no seu rosto amadurecido, arado pela mão dos monges e alfaiado a cobre pela delicadeza do latoeiro. É um apelo de infinito vertical. Sim, esculpido para, por ela, a porta, subir e descer com os olhos surpreendidos após a dormição com sonhos na Casa da presença humano-divina. Casa de Deus. Casa da comunidade. Casa de casas. E, na vertigem do não saber, entrar e sair, conforme o abrigo à sombra quente e a fome do mundo. Oxalá os anjos não retirem a escada do céu à terra. A porta-escada, digamos, porque nela se abre, degrau a degrau, a comunhão na mútua hospitalidade. Ou, valha a declinação, uma escada que é porta. E, todavia, se no tempo da erosão isso suceder, que fique a escala para toda a espécie de musicalidade.
A paróquia de Souto (Divino Salvador), em Terras de Bouro, passou a beneficiar de uma porta nova, na face principal da sua igreja matriz. Foi abençoada aos 17 dias de agosto, no contexto de uma celebração festiva, presidida pelo arcebispo de Braga, D. José Cordeiro. Naquele dia, tantos foram os gozos novos. Efetivamente, as pessoas pareciam gonzos de portas em dia de festa. Nesse domingo, recorde-se, a comunidade paroquial celebrava a festa de S. Roque. De cima do andor florido, o santo de Montpellier, com o pequeno cão que não saía de junto das suas botas, teve a sorte de beneficiar de uma bandeira nova. Talvez assim proteja melhor os seus devotos das pestes (afinal não acabaram, como a Covid-19 mostrou); ele que, por razões diversas, é padroeiro dos inválidos, cirurgiões e, quem diria, dos cães. Sem esquecer que também protege os gados contra as doenças contagiosas.
Abençoada a bandeira, junto da pequena capela de S. Roque, o cortejo processional dirigiu-se, a cantar «salmos das subidas», em atenção à inclinação da estrada e ao horizonte teológico da meta, até junto da porta de entrada da igreja. Caminhando à frente, os membros do Grupo de Bombos «Os Geraldinos», dos Transportes Urbanos de Braga (TUB), deram a precedência aos cânticos litúrgicos. E, atravessado o pórtico das duas oliveiras seculares ― este ano, carregadas de fruto ―, todos subiram a escadaria do adro, atapetada a linho branco. Em sintonia com a antiga liturgia romana, depois do lugar da reunião, isto é, a coleta, na capela de S. Roque, sucedeu-se a estação, o lugar da celebração da missa. Antes disso, procedeu-se à bênção da porta nova, com rosas frescas junto do seu limiar.


[Partes superior e inferior da Porta no dia da bênção © Joaquim Félix]
Eucologia e ritual da bênção da porta
Por ser teólogo da liturgia, prefiro recorrer à mistagogia. Preliminares são preliminares, admonições são admonições. Como refere Eclesiastes, «tudo tem o seu tempo determinado» (Ecles 3,1). Quando, com ritmo e brevidade, um preliminar ou uma admonição são cerzidos com o método da mistagogia, a ação litúrgica ilumina-se desde as clareiras da santa Escritura até ao vigor que atualiza o efeito do encontro. Para isso é primordial conhecer o método, que atingiu a sua época de ouro no século IV. Desconhecê-lo pode originar o silêncio inculto, mascarado de espiritualidade, e o falso iluminismo da loquacidade. Que S. Roque nos livre destes males contagiosos. Por isso, vamos primeiro à liturgia. Depois, iremos à fenomenologia da porta, da narração do processo à mensagem que, nomeadamente, o artista principal lhe inscreveu com o espírito e a mão parturiente, as goivas e a motosserra.
Estacionada a procissão, no final do cântico «Nós vamos com alegria» (pe. Miguel Carneiro), o pe. Almerindo Costa, na qualidade de pároco, dirigiu à assembleia, reunida junto da porta, a seguinte admonição: «Irmãos e irmãs, nós vamos com alegria para a casa do Senhor. Aquela casa paterna que a todos acolhe e onde todos nos sentimos bem. “Que alegria quando me disseram: ‘vamos para a casa do Senhor’.” Tal como canta o salmista, os nossos passos se detêm às portas da casa de Deus. Casa bela e harmoniosa, que forma tão belo conjunto. Para ela nos dirigimos nos dias de festa, nos domingos, quando alguém nasce e é batizado, quando alguém se entrega ao seu amado pelo matrimónio, quando queremos celebrar a vida e dar graças a Deus, quando nos despedimos daqueles que amamos. Hoje, benzemos a nova porta da casa de todos nós. Porta da Fé, da Esperança e do Amor».

[Pe. Almerindo Costa lendo a admonição © Joaquim Félix]
Uma atenta hermenêutica da admonição permite-nos não só identificar o fundo bíblico que canta o esplendor da porta, em especial a partir da salmodia, mas também das raízes antropológicas presentes na sua sacramentalidade. De facto, o admonitor evoca várias das dimensões fundamentais da vida: do nascimento até à hora da morte, sem esquecer o matrimónio. Nisto, ele coloca-nos em perfeita sintonia com quanto se lê no primeiro dos preliminares da bênção de uma nova porta da igreja, que contextualiza a sua pública referencialidade: «Em algumas celebrações litúrgicas, como no Batismo, no Matrimónio e nas Exéquias, os fiéis são recebidos à porta da igreja. Por ela entram também na igreja, em certos dias do ano litúrgico, ao terminar a procissão» (Bênçãos 1990, n.943).
Terminada a admonição, um jovem teólogo natural da paróquia de Souto, José Miguel Silva, partilhou, num exercício de procurada concisão, informações sobre a criação da porta: «Desenhada pelo Abade do Mosteiro de Singeverga, D. Bernardino Costa, a nova porta da igreja evoca o sonho de Jacob, que viu uma escada que tocava o céu, por onde subiam e desciam os anjos. Com 25 cubos, evoca o ano jubilar que estamos a viver. É, pois, uma Porta de Esperança, que manifesta a vitalidade da nossa comunidade e da Igreja, que nunca deixa de subir as escadas que nos conduzem ao encontro com Deus, na sua casa. Ela é limite e passagem: limite que separa o ordinário do extraordinário; passagem que nos leva do quotidiano ao espanto da presença amorosa do Senhor nas nossas vidas».
A intervenção deste jovem ― que também é seminarista e, após o Mestrado Integrado em Teologia na Universidade Católica Portuguesa, frequentou o Mestrado de Investigação em Teologia Sistemática na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica ― condensa importantes aspetos da fenomenologia da porta, ao referir o seu desenhador, a quantidade dos cubos, o atual contexto jubilar, a pertinente nomeação ― Porta da Esperança ―, a expressão eclesiológica, a dimensão sacramental vista desde a categoria do ‘encontro’, entre outros. Mais à frente, iremos aprofundá-los, ao apresentar o processo da conceção e realização da porta, tendo em conta a mens auctoris e o porquê da sua urgência. Este tipo de breves informações, quando não são publicadas num suporte documental, prestam um nobre serviço a quem não acompanhou a criação da obra.
Informações prestadas, D. José Cordeiro convidou todos os participantes a fazer um breve momento de silêncio, preparando-se assim para a oração. Como a oração de bênção não é a que se encontra na Celebração das Bênçãos do Ritual Romano, transcrevo-a, a fim de permanecer para memória futura: «Nós vos bendizemos, Senhor do céu e da terra, Fonte de toda a beleza, que ordenastes todas as coisas para vossa glória. Ao chegar a plenitude dos tempos, reunistes, de todos os povos, uma só família em Cristo Jesus. Ele é o Pastor e a Porta do aprisco pela qual todos entramos, pelo Batismo, para sermos um só rebanho. Nós vos pedimos, Senhor, Pai Santo, que vos digneis abençoar + esta porta para que os fiéis que por ela entrarem sintam a consolação da vossa presença, ternura e proximidade. Vós que sempre nos acompanhais nos nossos caminhos, conduzi-nos para a casa paterna, onde, todos juntos, vos louvaremos sem cessar. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo por todos os séculos dos séculos. R. Ámen».

[Porta da Esperança no dia da bênção © Joaquim Félix]
A pessoa que a criou, segundo a antiga lei da eucologia litúrgica, permanecerá no anonimato. Como adiante iremos ver, não será exceção, pois há mais anónimos, embora para outras singulares contribuições. Sem nos adentrarmos na sua hermenêutica textual, reconheceremos que é preciosa na sua teologia, tendo em conta as fontes bíblicas, patrísticas e de outros autores. E, mais do que isso, pois não é um escrínio com pérolas do passado. Antes, ela adota o ritmo orante. É oração. Mais, a sua linguagem respeita a tradução dos conteúdos para conceitos dinâmicos da contemporaneidade. Uma vez aprovada pelo arcebispo, que muito a apreciou, foi por ele dita de braços abertos.
Feita a oração de bênção, seguiu-se a abertura ritual da porta precedida do salmo responsorial colhido no Missal Bracarense, que é típico da abertura da porta da catedral, no Domingo de Ramos (cf. Missale Bracarense 1924,144-154). Esta entrada ritual foi objeto de estudo num artigo publicado na revista Theologica (cf. Carvalho 2018,102-107). O pe. Miguel Neto cantou o versículo sálmico: «Levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o Rei da Glória». E coro interpelou-o, cantando: «Quem é esse Rei da Glória?». À pergunta respondeu o pe. Miguel Neto: «O Senhor forte e poderoso». O diálogo repetiu-se por três vezes, com ligeiras variantes nas respostas. No final da primeira vez, a porta foi incensada; no fim da segunda, aspergida com água abençoada. Depois disso, o arcebispo D. José Cordeiro abriu a porta, enquanto se cantava: «Abram-se as portas santas» (pe. José Fernandes da Silva). Todos a atravessaram. E, chegados ao altar, prosseguiu-se com a celebração da missa, na forma habitual, com o Glória e as leituras do domingo vigésimo do tempo comum.

[D. José Cordeio abre a Porta e aguarda a entrada do andor de S. Roque © Joaquim Félix]
Escultura em madeira, latoaria e carpintaria
A Porta da Esperança tem a sua história. Vou narrá-la de forma sucinta, pois os racontos dos processos de criação das obras de arte são escolas de aprendizagem. Nesse sentido, antes de fornecer dados que resultam de encontros in loco, de conversas entre artistas e de opções ao longo da conceção e realização da nova porta, recordo algumas informações fornecidas, numa notícia publicada no jornal Diário do Minho, que resultam de uma nota de imprensa (D.M. 22 agosto de 2025,15). Nela, o pe. Almerindo Costa, pároco de Souto, salientou: «Fruto de um processo demorado, de cerca de sete meses, esta peça única surgiu do cruzamento de vários saberes, pensares e olhares, que viram nesta necessidade a possibilidade para algo diferente» (Ibidem).

[Resultado da lavagem das paredes da igreja © Joaquim Félix]
Antes da visita pastoral à paróquia do Divino Salvador de Souto, por sinal, realizada por D. José Cordeiro, em dezembro de 2024, fizeram-se obras na igreja e no adro. Nessa altura, procedeu-se à revisão do telhado e lavaram-se as paredes da igreja. Fora deste programa ficou a porta de entrada, que, ao nível das almofadas inferiores, se encontrava bastante deteriorada. Na tentativa de remediar o problema, causado pela humidade ao longo de décadas, tinham-lhe aplicado gesso e pintura por cima. A podridão avançou e, como é natural, bastava pressionar um pouco e as aparências cediam. Por conseguinte, a porta não oferecia sequer condições de segurança, nem ficava esteticamente bem.

[Porta antiga com evidente degradação © Joaquim Félix]
Poucos dias antes do Natal, José Miguel Silva interpelou-me: «Na igreja de Souto, uma pessoa, que prefere ficar no anonimato, disponibilizou-se para pagar uma nova porta principal. De facto, ela encontra-se muito fragilizada. Foi ter com um carpinteiro, numa freguesia vizinha, e disse-lhe para fazer outra, com a ressalva de ser tal e qual à que lá se encontra. Nem o meu pároco sabe quem possa ser, apenas tem conhecimento de que será alguém natural de Souto. Não lhe parece que, para mais celebrando-se o ano jubilar, se poderia aproveitar a oportunidade para fazer uma porta diferente, em linha com as linguagens da arte contemporânea?». Respondi-lhe então que se poderia pensar nisso, mas que, primeiro, seria necessário desenvolver várias diligências. Desde logo, tentar saber se a tal pessoa se disponibilizaria para criar uma porta diferente e se, nesse caso, manteria a sua oferta.

[Porta antiga fotografada, no dia 3 de janeiro de 2025, desde o pórtico das oliveiras © Joaquim Félix]
No dia 3 de janeiro de 2025, desloquei-me à igreja de Souto, para uma reunião com o pároco, pe. Almerindo Costa, e o jovem José Miguel Silva. Depois de apresentada a igreja, detivemo-nos junto da porta. Na verdade, esta encontrava-se com sérias fragilidades, embora, diga-se, a pintura até as disfarçava bem. Como todas as outras portas da igreja, estava decorada, nos dois níveis inferiores, com almofadas em losangos e, na parte superior, com outros motivos geométricos. Estudada a porta, decidimos visitar a Serração-Carpintaria, em S. Vicente do Bico, Amares. Encontrava-se lá João Alves, o proprietário, que tinha recebido a incumbência de fazer a nova porta, a pedido da pessoa, para nós, anónima, mas que ele conhecia bem. Apresentamos-lhe a possibilidade de desenvolver uma porta diferente, mostrando inclusive outras portas lígneas, antigas e novas. Sempre, porém, com a intenção de explorar a linguagem contemporânea. Espantado e disponível para desenvolver o processo, João Alves disse-nos que iria falar com a tal pessoa, de quem, por fidelidade ao pedido, não nos poderia dizer quem era. Um segredo, para ser segredo, exige pessoas fiéis. Em atenção ao requisito, Auguste Rodin esculpiu «O Segredo», em mármore branco, entre duas mãos, protegendo-o com carinho.
Entretanto, Joaquim Alves, seu filho, mostrou-me várias obras de arte que realizou para as paróquias onde o seu irmão, pe. Filipe Alves, serve no arciprestado de Fafe. De referir que ele tinha aperfeiçoado as técnicas de escultura em madeira com Asbjørn Andresen, artista norueguês. Aliás, foi nesta carpintaria que ele, com a ajuda do Joaquim e do Paulo Alves, concretizou a maior parte da escultura de Nossa Senhora da Humildade, que se encontra na Capela da Imaculada, em Braga. E, inclusive, construíram todo o mobiliário em madeira e o ambão-altar da Capela das Sete Alegrias de Maria, do Tempo Propedêutico, no Seminário Conciliar de Braga. No álbum de fotografias que me mostrou, chamaram-me a atenção algumas delas, com obras feitas em cobre. Pensei que teriam sido feitas, em Fafe, como o incensário da Capela da Imaculada. Mas, não. Sem me referir grandes dados, disse que eram obra de um competente caldeireiro, que vivia numa freguesia vizinha. Bem, foi o suficiente para que essa preciosa informação ficasse a remoer na imaginação. Já se verá porquê.

[Asbjørn Andresen e Joaquim Alves esculpindo Nossa Senhora da Humildade na carpintaria © Joaquim Félix]
Nos dias seguintes, João Alves conversou com a tal pessoa anónima, que aceitou de pronto o desafio. Colocou, porém, um teto à sua oferta. Mantinha o mesmo valor, tal como tinha pensado para a obra de carpintaria. A partir desse valor, seria a paróquia a assumir, se assim entendessem. Foi o que veio a suceder, com a junção de outras ofertas.

[Participantes na reunião de 25 de janeiro de 2025 junto à porta da igreja de Souto © Joaquim Félix]
Criadas as disponibilidades, avançámos para uma segunda reunião, no dia 15 de janeiro, junto da porta da igreja de Souto. Para ela foram convocadas várias pessoas, tendo como objetivo único pensar a nova porta. Da parte da paróquia, estiveram presentes o pároco, pe. Almerindo Costa, e o jovem José Miguel Silva. E, da carpintaria de S. Vicente do Bico, veio Joaquim Alves. Esteve, também, o abade de Singeverga, D. Bernardino Costa, porque, entretanto, eu tinha sugerido para ser ele a criar as almofadas da porta. Além deles, compareceu o caldeireiro Joaquim Freitas, de Lago, Amares. Porquê o caldeireiro? Porque ― assim o confesso ― tinha pensado que poderia considerar-se a possibilidade de recobrir algumas partes da madeira com aplicações em cobre. O atelier de Singeverga produz trabalhos, no setor da encadernação de livros com capas de madeira e cartão recobertas a couro, de reconhecida qualidade. Seria possível fazer algo semelhante com aplicações em cobre? Feita a pergunta ao caldeireiro, ele respondeu que sim. Segundo ele, há técnicas de moldagem da folha de cobre que permitiriam recobrir os revelos. Nessa reunião estive eu também. Colheram-se as medidas da porta e ficámos comprometidos em prosseguir os trabalhos. A reflexão sobre as possibilidades, dialogada de forma harmoniosa e no respeito pelas competências dos artistas e demais colaboradores, começou a gerar a porta. Até as árvores dos bosques e campos das redondezas pareciam acenar esperançadamente, com as suas coloridas rebentações, à nova porta ainda em gestação. E o Cristo do cruzeiro do cemitério ― digno de entrar no livro Os rostos de Jesus, com fotografias de Duarte Belo e texto de José Tolentino Mendonça (Belo – Mendonça 2013) ― irradiava luz para os nossos olhos, como o sol para as árvores.


[Árvores das redondezas e Cruzeiro do cemitério de Souto © Joaquim Félix]
Com estas linhas de pensamento, os artífices colocaram mãos à obra. Os monges do atelier de Singeverga, coordenado pelo abade, D. Bernardino Costa, esculpiram duas pranchas maciças de carvalho francês. Concluída esta fase, as grandes almofadas foram transferidas para a oficina de Lago, Amares, onde Joaquim Freitas recobriu as áreas que D. Bernardino lhe indicou. Trabalho este que foi realizado no mês de junho. Como pude testemunhar, a aplicação de cobre sobre madeira reveste-se de grande delicadeza, não obstante ser uma matéria metálica. No fundo, combinavam-se duas artesanias: a da escultura em madeira com a do caldeireiro. Além da cobertura dos revelos, para melhor preservação da porta, sentiu-se necessidade de forrar a parte interior das almofadas. Joaquim Freitas é um artista, no genuíno significado do atributo, como já poucos há na arte de caldeireiros. Além disso, é de carácter muito atento e silencioso. Ouvem-se mais as ferramentas do que a sua língua. Não, não é como o caldeireiro Alexandre, de quem S. Paulo pediu a Timóteo para dele tomar distância, porque lhe tinha causado muito mal, mostrando-se resistente às suas palavras (cf. 2 Tm 4,14-15).


[Joaquim Freitas recobrindo a madeira com cobre © Joaquim Félix]
Em julho, depois de feitas as coberturas metálicas, as almofadas seguiram para a Carpintaria / Serração, em S. Vicente do Bico. Receberam ainda um aro em ferro, para contenção da madeira ― são pranchas maciças de grande dimensão e, por isso, trabalham mais. Terminada a sua incrustação na esquadria da porta, conforme o trabalho de carpintaria, todas as madeiras foram banhadas em óleo de cedro. E, concluídos os trabalhos, a porta foi finalmente levada para a igreja. Foi montada no dia 14 de agosto. E, de imediato, não faltaram os admiradores.
A porta da igreja fornece os olhos para ver os acontecimentos
Durante os trabalhos de escultura das almofadas, enviei a D. Bernardino Costa informações e imagens sobre as portas do edifício do Knesset, o Parlamento de Israel, também elas em madeira revestida de cobre, no caso, com desenhos abstratos que representam as tribos de Israel (cf. Rolef 2000). Sem querer sugerir o que quer que fosse, parecia-me importante dar a conhecer outras portas, onde os mesmos materiais, nomeadamente o cobre, eram aplicados. D. Bernardino Costa deu-me a conhecer os seus desenhos para a Porta da Esperança, no adro da igreja de Argivai, Póvoa de Varzim, enquanto aguardávamos o pe. Pedro Daniel, para desenvolver um outro trabalho naquela igreja paroquial. E, desde logo, me pareceram evocativos. Abriu o seu caderno e partilhou comigo a inspiração que lhe assistiu para chegar àqueles desenhos, nessa altura, com algumas variações. Agradado, sugeri-lhe que avançasse com aquele que melhor lhe parecesse.

[Quadrado recoberto com folha de cobre © Joaquim Félix]
No dia 28 de julho, enviei-lhe uma mensagem, solicitando dele um breve texto sobre a nova porta da igreja de Souto, sintetizando o que me tinha dito em Argivai, ou algo que entendesse ser mais pertinente. Logo se prontificou a escrevê-lo. Com efeito, considero indispensável fazer a análise fenomenológica das obras de arte. Neste sentido, torna-se importante atender ao conselho que Crispino Valenziano dá na sua obra Architetti di Chiese: «Da Porta (…) pode-se fazer análise fenomenológica a partir das ciências humanas em relação às suas constantes gerais: e é bom que se faça; mas deve fazer-se síntese teológica no que respeita às suas variantes particulares, desde as Escrituras à liturgia: e é muito mau que não se faça» (Valenziano 2005,135-136). Acolhendo a pertinência deste conselho, também eu procurei fazer a análise fenomenológica de diversas portas de igrejas e capelas: das portas da Capela Árvore da Vida, com miniaturas (pinturas) de Ilda David’ (cf. Carvalho 2012); das portas criadas por Igor Mitoraj para a basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires, em Roma, que apresentei na conferência «Quando a arte contemporânea é alfaia do lugar», nas I.as Jornadas da Pastoral dos Bens Culturais da Igreja, realizadas no Museu de Leiria, promovidas pelo Secretariado Nacional Bens Culturais da Igreja, da Conferência Episcopal Portuguesa (cf. Carvalho 2024); e, em parte, das portas criadas por Giacomo Manzù, cingindo-me mais à Porta da Morte, na basílica de S. Pedro no Vaticano (cf. Carvalho 2023).

[Aplicação de folha de cobre nos relevos curvilíneos inferiores © Joaquim Félix]
Em relação à Porta da Esperança, criada para a igreja de Souto, seria melhor que fosse o mentor, D. Bernardino Costa, a escrever sobre a sua fenomenologia. No texto que me enviou, ele assinalou algumas notas que, sendo-me transmitidas por mensagem eletrónica, vale a pena partilhar: «Segue, em anexo, um pequeno texto que escrevi sobre os pressupostos que estavam na minha mente quando pensei o desenho da porta de Souto. Está em forma de texto corrido, para o caso de ser publicado. Como bem entendes, custa-me dizer: os quadrados significam…, as ondas significam… Prefiro dizer que me inspirei no sonho de Jacob para fazer o desenho. Assim, os quadrados são a escada e as ondas são os anjos que subiam e desciam. Penso que, assim procedendo, a obra se abre a outros significados que cada um poderá livremente acrescentar».

[Joaquim Freitas usando várias ferramentas na aplicação da folha de cobre © Joaquim Félix]
Procurando conservar-me fiel ao seu pensamento, creio ser mais importante fornecer o texto na íntegra, conforme me foi enviado, do que seccioná-lo em pontos, em função de perspetivas que pudesse salientar. E, desta forma, ele passa também a ser valorizado como documento publicado. Ei-lo, ipsis verbis, com o título e respetivo subtítulo:
Porta da igreja paroquial de Souto – Terras de Bouro
O significado da porta da igreja deve ser procurado dentro do movimento habitual do crente que se dirige à igreja para escutar a Palavra, falar com Deus e celebrar. Dentro deste processo habitual, dar-se-á conta de que a porta tem uma dupla função: de “limite” e de “passagem”. Quanto à função de limite, a porta determina a separação entre espaço exterior e espaço interior, não só a nível físico, mas também a nível espiritual. Ela marca o limite entre o adro da igreja, que lhe está adjacente, e o interior do edifício, o lugar da celebração. Do ponto de vista espiritual, abandona-se o mundo ordinário e exterior, para aceder ao mundo interior e extraordinário; deixa-se o antigo, para aceder ao novo; deixa-se o espaço do mundo, para aceder ao espaço de Deus; deixa-se para trás o espaço acessível, para aceder ao espaço inacessível, que se perde no horizonte. Para além desta função de limite entre exterior e interior, a porta é, sobretudo, a “passagem” de um espaço ao outro. Entrando por ela, o fiel acede ao lugar sagrado, isto é, ao lugar da revelação de Deus. Ela é, portanto, elemento de unidade, ponto de junção e de encontro. A porta é “passagem” porque determina também a possibilidade de subir e de descer, entendida não como simples movimento, mas como superação de um confim, tal como nos é narrado no sonho de Jacob (Gen 28, 10-19): «Uma escada estava assente na terra e a parte superior tocava o céu; por ela subiam e desciam Anjos de Deus. No cimo da escada estava o Senhor, que lhe disse: «Eu sou o Senhor, Deus de Abraão teu pai e Deus de Isaac. Dar-te-ei, a ti e à tua descendência, a terra em que te encontras. A tua descendência será tão numerosa como o pó da terra […] Quando Jacob despertou do sono, disse: “Realmente o Senhor está neste lugar e eu não o sabia”. Ele teve medo e disse: “Como é terrível este lugar! É nada menos que a casa de Deus e a porta do Céu”». O subir e o descer a escada descreve a ação dos anjos que até os faz emudecer: subiam e desciam sem nada dizer. No seu silêncio está o segredo insondável que os torna felizes: não só assistem ao acontecimento, mas, sobretudo, participam ativamente do acontecimento. Não é uma coisa que veem desde fora, como se fossem espetadores mais ou menos interessados, porque não se pode assistir a um acontecimento desde fora, porque “assistir” a uma epifania é “estar” na própria epifania, é “tomar parte”, desempenhar um ministério, celebrar um acontecimento. Assistir a uma epifania significa estar dentro daquilo que se assiste: é ser parte da cena e não espetadores do palco. A celebração não tem espetadores, e se os tem, são os próprios “atores” que partilham o palco, porque são recriados. Tudo o que acontece nesta escada, tudo o que dela se diz, não pode ser dito fora da cena: é um segredo, o “segredo dos anjos”. Para desvelar este segredo dos anjos é preciso, por isso, conhecer melhor a sua função: O anjo é aquele que leva uma mensagem, que anuncia um acontecimento, que indica a estrada: é o profeta, o apóstolo, o conselheiro, o custódio. Para alguns, é a voz que orienta na vida ou que nos desperta do sono sem sonhos e sem esperança. Mas se o anjo é o portador da mensagem, o que poderá acontecer para que ele deixe de falar? Se a palavra é a vocação do anjo, o que significa o seu silêncio, enquanto subiam e desciam a escada de Jacob? É surpreendente que haja momentos e lugares, tempos sagrados e espaços rituais, nos quais os anjos parecem hesitar: quase não se ouve uma palavra, como se não houvesse comunicação possível. Podemos arriscar a hipótese: se a palavra dos anjos é o anúncio de um acontecimento central na vida das pessoas ou dos povos, o silêncio dos anjos é a proximidade máxima com aquele acontecimento. A terra e o céu, o exterior e o interior de uma igreja, são espaços diferentes, separados por uma escada ou uma porta que, portanto, pode abrir-se, mas que também pode fechar-se. O crente que passa pela porta está sustentado pela confiança de alcançar, mas que, no seu íntimo, teme não ser capaz de alcançar. Quando essa confiança se torna indiscreta e dominada pela soberba, transformada em arrogância, porque dominada pela certeza de obter a graça, a porta fecha-se. E permanece fechada até que, de novo, caindo em si, recebe a graça de confiar mais em Deus do que em si próprio. É o que nos diz a divina Escritura: «Todo aquele que se exalta será humilhado e aquele que se humilha será exaltado» (Lc 14,11). Por isso, a tradição da igreja viu na escada de Jacob uma imagem da “vida espiritual”, por causa da necessidade de subir os “degraus da humildade” para alcançar a perfeição. Não é de admirar, portanto, que S. Bento termine o capítulo VII da sua Regra com esta solene conclusão: «Uma vez subidos todos os degraus da humildade, depressa atingirá aquele amor de Deus que, sendo perfeito, expulsa o temor. E graças a este amor, o que antes observava não sem um sentimento de terror, começará a guardá-lo sem dificuldade alguma, como que naturalmente e por hábito» (RB 7, 67-68). Por conseguinte, a humilde confiança é o modo de viver o reino de Deus, de tal maneira que o reino de Deus pode identificar-se com a confiança em Deus. A confiança é estar no reino, é estar em Cristo sem o qual não existiria o reino de Deus. Graças à confiança nós vivemos em Cristo que disse: «Eu sou a porta. Se alguém está por mim será salvo» (Jo 10,9). Por este motivo, quem provoca a confiança dos outros cumpre o pior crime da humanidade e diz a pior blasfémia contra Deus. Sem confiança as coisas mais belas desta terra são um risco e a promessa mais grandiosa de Deus é uma fábula. Com a confiança, até os riscos da vida são enfrentados e as dúvidas sobre Deus são dissipadas. A confiança não pode demonstrar-se com os factos, mas fornece os olhos para ver os acontecimentos. A confiança é por essência «dom» e «olhar»: dom do reino e olhar da esperança.
Bernardino Costa, osb


[João Alves junto da Porta na Carpintaria © Joaquim Félix]
Fornecer os olhos para ver os acontecimentos? Com confiança? Sim, a nova porta da igreja de Souto é esse doador. Regressando à recomendação de Crispino Valenziano, podemos dizer que não falta ao texto de D. Bernardino Costa uma sólida fundamentação «desde as Escrituras à liturgia» (Valenziano 2005, 136). Contudo, o conselho de Crispino ― como salientei na análise das portas da Capela Árvore da Vida ― «não constringe a seguir a sua costumada teorização da teologia simbólica para a porta da aula litúrgica, gerada nos versículos dos salmos 99 (vv.4-5), 117 (vv.19-20) e 147 (vv.12-14)» (Carvalho 2012, 96-97). Lembremo-nos de que, no ritual de abertura da porta, como acima relevámos, foi adotado o antigo ritual bracarense, que incidia nos versículos do salmo 24, convidando as portas a levantar os umbrais (cf. Sl 24,7-10). No seu texto, porém, D. Bernardino Costa prefere evocar o sonho da escada de Jacob, com os anjos subindo e descendo a escada, em silêncio. Não é, digamos assim, uma ousadia sem precedentes. Na verdade, sobretudo nas antigas catedrais da Idade Média, nos tímpanos e umbrais de certas portas, encontram-se epigrafias com o versículo bíblico: «A casa de Deus e a porta do Céu» (Gen 28,17), em latim. E, recentemente, na Capela da Imaculada, em Braga, nas duas portas laterais abertas ao Claustro e ao Pátio das Laranjeiras, foram fixadas, em caracteres metálicos, as expressões em latim, que aqui traduzo: «Na verdade o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia. (Gen 28,16)» e «Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus» (Gen 28,17)».

[Madeira ungida com óleo de cedro e coberturas em cobre © Joaquim Félix]
As perspetivas bíblicas e litúrgicas exploradas por D. Bernardino Costa permitem-lhe ensaiar uma teologia prática januária (de porta; janua, em latim), cuja espiritualidade é permeada de especiais virtudes, desde logo a confiança. E, entre as mais destacadas, a humildade. O aprofundamento que faz em relação à humildade beneficia da espiritualidade beneditina, não fosse ele monge de S. Bento. Daí a citação da Regra de S. Bento, cuja meditatio (meditação) do final do capítulo VII da referida Regra lhe permite sulcar, na Porta da Esperança, linhas de «vida espiritual» para quem a atravessar com os pés, os cinco sentidos acesos, o espírito, a alma e o corpo. É notável a síntese com que ele filigrana o texto, quando escreve: «A humilde confiança é o modo de viver o reino de Deus» e, bem assim, no remate final, que dá mote à sua intitulação: «A confiança não pode demonstrar-se com os factos, mas fornece os olhos para ver os acontecimentos. A confiança é por essência “dom” e “olhar”: dom do reino e olhar da esperança».

[Almofadas em pranchas de madeira maciça de carvalho francês © Joaquim Félix]
Não é uma porta qualquer. E poderia ser…
Tendo sido inteirado sobre o processo de criação da nova porta, D. José Cordeiro desenvolveu vários outros aspetos na homilia da missa, que se seguiu à sua bênção. Formado em ciência litúrgica pelo Pontifício Instituto Litúrgico Santo Anselmo, em Roma, e com responsabilidades nacionais neste setor da pastoral, por ser inclusive o presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade, soube aproveitar o momento, em sintonia com quanto se refere nos preliminares da bênção de uma nova porta da igreja: «A colocação de uma nova porta na igreja constitui ocasião oportuna para recordar aos fiéis não só um acontecimento exterior de certa importância, mas também e sobretudo o significado profundo que representa todo o recinto a que a porta dá acesso» (Bênçãos 1990, n.944).
Depois de dirigir palavras de alegria pelo reencontro dos rostos ― tinha estado na paróquia em visita pastoral há cerca de oito meses ―, começou por aprofundar, em tom de conversa familiar, várias dimensões sobre o fogo que Jesus veio trazer à terra, conforme o evangelho do domingo (Lc 12,49-53), que nada tem que ver com os lamentáveis e destrutivos incêndios. E, porque isso seria importante para o que posteriormente iria desenvolver, convidou a fixar os olhos em Jesus, em sintonia com a solicitação do autor da Epístola aos Hebreus (cf. Hebr 12,1-4). E com os olhos fixos em Jesus, que disse: «Eu sou a porta das ovelhas» (Jo 10,7), passou a aprofundar vários aspetos em relação à nova porta. As suas palavras não se encontravam escritas, pelo que, de forma espontânea, lhe saíam da abundância do coração.
Partindo da alegria que a bênção tinha gerado na assembleia, sublinhou o alcance da travessia da porta, que todos com ele fizeram, e, na sequência disso, louvou a envolvência dos artistas e a generosidade dos doadores: «E por isso, também, hoje, ao participarmos neste gesto tão belo e simbólico da bênção, a travessia que fizemos juntos da porta principal desta igreja matriz não é um mero gesto de funcionalidade ou porque a anterior estava gasta e precisava de ser renovada. Podia-se fazer de qualquer maneira, até, como inicialmente estava previsto, substituir por uma outra com as mesmas características. Mas, felizmente, entre vós, houve benfeitores e uma equipa multidisciplinar que gerou um entusiasmado envolvimento na sua criação: o vosso pároco, as pessoas que com ele colaboraram, o D. Abade do Mosteiro de Singeverga ― que hoje até se faz representar pelo professor Alberto, aqui no meio de nós ―, o cónego Joaquim Félix e tantas outras pessoas que estiveram no pensar, no realizar desta bela obra, desta nobre simplicidade».


[Trabalho de escultura em madeira realizado no Atelier de Singeverga (detalhes) © Joaquim Félix]
Após este louvor, D. José Cordeiro parece que estava a seguir o roteiro dos preliminares da bênção de uma nova porta da igreja, em atenção ao segundo parágrafo do n. 943: «Por isso torna-se conveniente que a porta da igreja, tanto na sua estrutura como no seu ornato artístico, se apresente como sinal de Cristo, que disse: “Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10,7), e simultaneamente sinal daqueles que percorrem o caminho da santidade que conduz à morada de Deus» (Bênçãos 1990, n.943). Com efeito, focado na simbólica da porta, que mais esplende no presente ano jubilar, ele passou a dizer o seguinte: «Porque não é o mero critério da funcionalidade, mas é o simbolismo que ela traduz, Jesus apresenta-se Ele mesmo como a porta: “Eu sou a porta” (Jo 10,7). Ao atravessar a porta neste ano santo jubilar, como peregrinos de esperança, sentimo-nos abraçados, amados, perdoados e também provocados a sermos pessoas de perdão, de reconciliação, de paz».


[Carlos Couto no dia da instalação da porta na igreja © Joaquim Félix]
Apreciador das obras de arte e da arquitetura litúrgicas, D. José Cordeiro ― aluno e, depois, docente do Pontifício Instituto Litúrgico, inclusive no Curso de Arquitetura e Artes para a Liturgia, ― sabe quanto é importante valorizar o diálogo entre os artistas e os interlocutores eclesiais, e também a qualidade das matérias-primas. Por isso, não deixou de salientar: «E este diálogo tão belo entre a madeira, o cobre, a arte e a beleza que levaram à sua construção, todos os que estão envolvidos na carpintaria, no desenho, na própria colocação e execução, fazem-nos transpor para um outro horizonte mais vasto do que o do mar, que é o horizonte da Esperança. É assim que nascem as grandes obras na Igreja, é assim que nasce cultura, a partir do encontro com Deus e com os outros, na conjugação de esforços, de saberes, de artes, da beleza, da vontade, da verdade».
É na transcendência do visível para o invisível, do invisível no visível, que as obras de arte litúrgicas trabalham na construção da comunidade, que se encontra com Deus. Disso nos deu conta Teresa Bartolomei, na introdução ― Arte e liturgia. Teoria da presença de Deus entre visível e invisível ―, que escreveu para o pequeno livro Ecologia Poética no labirinto da Liturgia (Carvalho 2023a): «No ato litúrgico, Deus torna-se presente para o crente não porque se faça visível para ele, mas porque o põe em condição de sentir-se visto, acolhido, por Ele» (Bartolomei 2023,9). Tendo isto presente, e também a necessária suplantação do puro funcionalismo e da banalidade, D. José Cordeiro sustentou na sua homilia: «Por vezes, o querermos ser funcionais, o querermos ter sempre tudo pronto a servir, a comer, a vestir, faz-nos ser pessoas banais no dia a dia. Mas quando nos decidimos na concretização e de sermos capazes de olhar para lá do visível, de contemplar o invisível, então constrói-se a comunidade».

[Paulo Alves ajustando a forra em cobre da porta © Joaquim Félix]
A paróquia de Souto faz parte do arciprestado onde se encontra o Santuário de S. Bento da Porta Aberta. A referência da porta aberta não passou despercebida. De facto, tendo em consideração a amplitude dessa abertura, como metáfora de eternidade «enquanto o tempo é tempo» (Horas 2009, 55), conforme a expressão do hino de vésperas de terça-feira, D. José remata com uma expressão lapidar, em relação à nova porta: «Não é uma porta qualquer. E poderia ser… Quando pensamos numa porta, serve para abrir, para fechar, para passar, às vezes para bloquear. Mas esta é para estar sempre aberta, ainda que na maioria das horas esteja fechada por razões de segurança e proteção. Mas como nos indica o lugar tão significativo destas terras, S. Bento da Porta Aberta, a porta é para estar sempre aberta: é a porta do coração, é a porta de Cristo».


[Carlos Couto e Joaquim Alves trabalhando no dia da instalação da porta na igreja © Joaquim Félix]
Em relação ao tempo que as obras de arte requerem, e mais ainda as que se destinam ao serviço e lugares da liturgia cristã, D. José recorre a uma passagem clássica da literatura, para sustentar o valor da lentidão, citando-a sem a preocupação pela fidelidade ipsis verbis: «No livro de Saint-Exupéry, o diálogo impressionante entre o principezinho e o vendedor de comprimidos para matar a sede faz-nos também entender o mistério desta porta. É um vendedor que andava a vender comprimidos para que as pessoas não tivessem de gastar tempo a procurar uma fonte no deserto ou nos lugares onde a água é muito escassa. Pode ser difícil para nós compreender o alcance desta história, sobretudo aqui no Gerês, onde abunda a água. Mas para quem vive no deserto, procurar uma fonte pode ser um exercício moroso. Então o vendedor destes comprimidos, uma espécie de pílulas que saciavam a sede, poderia ser comparado aos vendedores da “banha da cobra”, que prometem uma solução fácil – utilitária – e que pouparia muito tempo. Então o principezinho pergunta-lhe: O que ganho com isso? Ao que o vendedor responde: Assim, podes poupar 53 minutos por semana e fazer outras coisas. “Eu”, pensou o principezinho, “eu cá se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, punha-me era a andar devagarinho à procura de uma fonte…”». Ir além do critério da utilidade e do imediato…». O problema da falta de tempo, como sabemos e também experimentamos, não é de agora. Todavia, se desejarmos obras de arte litúrgica com qualidade, haveremos de saber investir tempo para as obter. Que se ganha, nos nossos dias, com a aquisição fácil de obras que se vendem nas paramentarias e lojas de objetos religiosos, por norma sem qualidade e em materiais de pouca nobreza? Teremos já esquecidas, por exemplo, as sérias críticas que Marie-Alain Couturier e Raymond Régamey, padres dominicanos, escreveram na revista L’Art Sacré? Sem a morosidade dos sete meses, a Porta da Esperança não poderia ter sido dada à luz, pelo menos como agora se apresenta. Porque o tempo ― recordemos o adágio ― não perdoa o que não se pode fazer sem ele.

[A Porta da Esperança apela à tatilidade © Joaquim Félix]
Por fim, conhecendo já ― embora em parte ― quanto D. Bernardino Costa escrevera sobre a porta, D. José Cordeiro concluiu a sua homilia com apontamentos sobre as perguntas que ela poderia suscitar, passando da mera curiosidade a uma maiêutica sapiencial: «Ao olhar a porta, as pessoas podem-se perguntar: O que é que aquilo significa? Para que é que aquilo serve? Tinha de ser assim? São estas perguntas que depois hão de levar a algumas respostas, mas hão de suscitar novas perguntas. Hoje, um dos grandes males do nosso tempo é o de que há poucas pessoas a fazer perguntas, a não ser pelo interesse pessoal. Mas também há, se calhar, poucas simbólicas, poucas obras, poucas narrativas que provoquem a pergunta. Que esta porta, neste dia, no horizonte mais alargado do ano santo da esperança que vivemos, nos convoque e provoque a uma vida com maior esperança e que possamos contagiar à nossa volta este esforço do peregrino, daquele que não se contenta com o que já tem, com o que já vive, com aquilo que já alcançou, mas continua a caminhar até ao fim do fim, à procura de uma fonte: a fonte da água viva, essa fonte que jorra para a eternidade».
Não sendo uma homilia breve ― nem por isso foi menos pertinente ―, gostaria, ainda assim, de repetir uma expressão: «Não é uma porta qualquer. E poderia ser…».

[Enquanto os carpinteiros trabalhavam, os hibiscos sorriam a espreitar sobre a parede do adro © Joaquim Félix]
Nota endográfica em forma de convite
Depois de abençoadas, em 2008, as portas de bronze da igreja matriz da Póvoa de Varzim, obra do escultor Rui Anahory (cf. Vieira 2008) e, em 2017, da matriz antiga de S. Adrião de Famalicão, da autoria do escultor Rogério Timóteo, a diocese de Braga passa, a partir deste ano jubilar, a contar com mais uma porta singular, a Porta da Esperança, da igreja de Souto, em Terras de Bouro. Sem ser em bronze, é em madeira e cobre. Valerá a pena visitá-la.
O convite está feito. Quem ao encontro dela vier, peregrino ou de passagem, não se equivoque: não suba no lanço de estrada que, em Souto, tem a placa com indicação «Lugar da Porta». Não é aí, mas um pouco mais à frente, onde existe a indicação para a igreja matriz. Talvez muitos conheçam melhor outra referência: o restaurante Adega Regional «O Vaticano». É precisamente junto dele que se implanta a igreja. Passado o pórtico das oliveiras seculares, de umbral mais alto que os ramos, a Porta da Esperança resplandece no topo da escadaria. Sendo ela um convite à fruição multissensorial, segundo a perspetiva do crítico de arquitetura Juhani Pallasmaa (cf. Pallasmaa 2011, 2013, 2017, 2018), desde logo à tatilidade, por que não associar uma visita à porta com uma refeição no Vaticano? Oh, sim, para comer bem, das entradas até ― sobremaneira no inverno ― as inigualáveis rabanadas!

[A Porta da Esperança resplandece no topo da escadaria © Joaquim Félix]
Não poderia terminar sem me deter em três endereços da gratidão. Em primeiro lugar, a gratidão é para o jovem José Miguel Silva, que deu início a toda esta história, tendo como objetivo criar-se uma porta diferente. Com que alegria eu o vi quando, nos finais do passado mês de julho, ele contemplava as portas em bronze do Duomo de Salerno; e, em Roma, a Porta da Morte de Giacomo Manzù na basílica de S. Pedro no Vaticano, as Portas da Ressurreição e da Anunciação de Igor Mitoraj na basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires, e, em madeira, a porta do século V da basílica de Santa Sabina no Aventino, entre tantas outras, como as portas jubilares das basílicas maiores! Porque estaria assim jubiloso? Não seria porque se tinha envolvido decididamente na construção da Porta da Esperança para a igreja de Souto, comunidade paroquial à qual pertence?
Em segundo lugar, a gratidão vai para o caldeireiro Joaquim Freitas e os carpinteiros da família Alves ― João, Joaquim, Paulo e demais trabalhadores ―, por terem acreditado na possibilidade de harmonia das artes na construção da mesma obra. Coisa rara! Coisa rara, repito. Porque, em tempos, me tinha persuadido de que é complicado, muito mesmo, entregar a mesma obra a vários artistas. Não, não poderia esquecer, também pela valorização desta dimensão, o abade D. Bernardino Costa. Ele que tanto escreveu sobre as artes e a arquitetura litúrgicas (cf. Ferreira da Costa 1014, 2015a, b e c, 2017a e b, 2020 e 2025), e inclusive já criou vários altares, ambões, sedes, etc., experimentou agora, em regime de colaboração de artistas, o que foi criar a primeira porta. Possa ele, com os monges da sua comunidade, dar sequência a este tipo de obras no atelier de Singeverga, até porque no mosteiro onde eles vivem existem duas portas, em madeira trabalhada, de grande recorte artístico: a do capítulo e a que do claustro dá para a igreja, ambas da autoria do escultor Altino Maia.


[Um paroquiano, depois de apreciar a Porta da Esperança, retira-se © Joaquim Félix]
Por fim, a nossa gratidão é para o pároco, pe. Almerindo Costa, e toda a comunidade de Souto, que acreditaram e se disponibilizaram para acarinhar e custear a nova porta. Claro, sem esquecer o grande contributo oferecido pela pessoa anónima que, felizmente, acabou por ser uma entre outras. De entre estas, não posso deixar de lembrar o autor da eucologia ― a nova oração de bênção da porta ― e a quem organizou o ritual da celebração, com textos e cânticos muito bem ajustados, conforme prevê o n. 945 dos preliminares da bênção de uma nova porta da igreja (cf. Bênçãos 1990, n.945). A todos o meu bem-haja!

[Porta da Esperança vista por entre a ramagem de uma oliveira do souto. Até sempre! Adeus! © Joaquim Félix]
Referências
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. Belo, Duarte – Mendonça, José Tolentino. 2013. Os rostos de Jesus. Uma revelação. Lisboa: Temas e Debates / Círculo de Leitores.
. Bênçãos, Celebração das. 1990. Ritual romano. Editado pela Conferência Episcopal Portuguesa. Coimbra: Gráfica de Coimbra.
. Goffredo (ed.). 2012. Ars Liturgica. L’arte a servizio della liturgia. Magnano: Edizioni Qiqajon.
. Carvalho, Joaquim Félix de. 2012. «À porta da capela Árvore da Vida. Querubins de espada flamejante nas miniaturas de Ilda David’», 93-108. Em O Ladrão e o Querubim. Drama litúrgico cristão oriental. Tradução e posfácio de Joaquim Félix de Carvalho e introdução de Carlos Nuno Vaz. Lisboa: Pedra Angular.
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. —————. 2023a. Ecologia Poética no labirinto da Liturgia. Lisboa: UCP Editora.
. —————. 2024. «Quando a arte contemporânea é alfaia do lugar», Pro manuscripto. A publicar nas Atas das I.as Jornadas da Pastoral dos Bens Culturais da Igreja, realizadas no Museu de Leiria, promovidas pelo Secretariado Nacional Bens Culturais da Igreja, da Conferência Episcopal Portuguesa.
. D.M. 22 agosto de 2025. «Em Terras de Bouro, entre o sonho e a cultura. Arcebispo de Braga benzeu a nova porta da igreja de Souto», Suplemento Religião, 15.
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. Valenziano, Crispino. 2005. Architetti di chiese. Bologna: EDB.
. Vieira, José Macedo, Laura Castro, António Torres, e Rui Anahory. 2008. Janua Coeli: portas do céu: portas da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Póvoa do Varzim 2006-2007 – Rui Anahory. Obra coordenada por Laura Castro e Fátima Machado, com fotografias de Rui Anahory, Fátima Machado e Albino Martins. Póvoa de Varzim: Greca – Artes Gráficas.
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens.










