Numa recente visita à casa e ao atelier da dinastia de editores Plantin-Moretus, em Antuérpia – ativos do século XVI ao final do século XIX – deparei-me, como um vendaval a irromper por uma janela aberta, com o rasto da alma europeia.
Em cada sala, escada, retrato, máquina, estante, a evocação das inquietações europeias dos séculos que nos precederam. Elas apontam para lugares centrais: a precisão linguística, a busca do saber e da inovação, a excelência dos conteúdos e dos materiais, uma espécie de sacralidade devocional não só a Deus, mas também aos seus sinais: o conhecimento e a alegria de o partilhar. E, antes de o partilhar, recolhê-lo.

“Os Plantin-Moretus, dinastia de editores hoje quase desconhecida e que marcou séculos de edição e de pensamento europeu.” Fotografia: Casa Plantin-Moretus
As paredes da Plantin-Moretus conheceram as vozes de humanistas, linguistas, geógrafos, médicos, botânicos, biblistas, teólogos, cientistas, filósofos, pintores. Balthasar Moretus era amigo de Rubens, que desenhou frontispícios para muitos dos seus livros.
Circular por aquela casa, nos registos das várias gerações que a albergaram, nos quadros das paredes, na austeridade contida do atelier e da sala dos excelentes revisores, no rigor da loja – em contraponto com a riqueza, ainda que contida, da zona residencial de paredes vestidas a couro trabalhado – faz-nos visualizar essa Europa que brandia a alma sôfrega das suas gentes: sôfrega de curiosidade, de conhecimento e das relações por ele suscitadas; da excelência; da busca da verdade, no belo e no bom.
Encimando o atelier, uma imagem de Nossa Senhora com o Menino. Na biblioteca maior, um quadro imponente do Crucificado.
Os Plantin-Moretus, dinastia de editores hoje quase desconhecida e que marcou séculos de edição e de pensamento europeu, continuam a esbofetear a soberba contemporânea que não agradece e se apropria do sangue de quem a gerou. Esse sangue entregue, certo, disciplinado – sangue de alma orante e estudiosa, generosa e capaz de tudo dar para engrandecer os outros.
A alma europeia é a alma das suas grandes gentes. E a medida da alma, como diz o Poeta, é a medida do seu sonho – do único sonho pelo qual vale a pena dar a vida: o sonho onde Deus se encontra.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










