Quase seis mil pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas em apenas três semanas na província moçambicana de Cabo Delgado, onde os ataques de grupos armados continuam a provocar novas vagas de deslocados. Nove anos depois do início da insurgência, o bispo de Pemba alerta para o risco de a violência cair no esquecimento, denuncia raptos de crianças, sequestros para obtenção de resgates e a decapitação de cerca de uma dezena de cristãos só este ano.
Entre 21 de setembro e 13 de outubro, foram 5.794 as pessoas, pertencentes a 1785 famílias, que fugiram de várias localidades dos distritos de Nangade, Macomia, Muidumbe, Mocímboa da Praia, Montepuez e Mueda, segundo o mais recente relatório do mecanismo de monitorização de deslocações de emergência da Organização Internacional para as Migrações (OIM), citado pela agência Lusa.
Mais de metade destes novos deslocados são crianças: 3.136, o que corresponde a 54% do total. A OIM contabilizou ainda 1.690 mulheres e 968 homens e identificou, entre as pessoas em situação de particular vulnerabilidade, 119 mulheres grávidas, 88 idosos com mais de 60 anos, 35 crianças desacompanhadas ou separadas das famílias, 38 pessoas com deficiência e dez com doenças crónicas.
Os ataques e o medo de novas incursões estão na origem destas deslocações, realizadas sobretudo a pé ou de autocarro. Alimentação, abrigo e bens essenciais para estas pessoas que deixaram tudo para trás são agora as necessidades mais urgentes identificadas pela OIM.
“Não vejo um horizonte para o fim disto”
Os números surgem poucos dias depois de o bispo de Pemba, António Juliasse, ter traçado um retrato particularmente preocupante da situação numa entrevista conjunta à Renascença e à Agência Ecclesia.
“Não vejo, ainda, um horizonte para o fim disto em pouco tempo”, afirmou. “Aquilo que está a acontecer aqui no terreno não nos oferece dados objetivos de que isto esteja a chegar ao fim.”
A violência em Cabo Delgado começou em outubro de 2017 e provocou, desde então, mais de 6.600 mortos e um total acumulado de cerca de 1,2 milhões de deslocados. Atualmente continuam a existir campos de reassentamento, ao mesmo tempo que surgem novos locais de acolhimento para quem foge dos ataques mais recentes.
A situação é agravada pela precariedade em que vivem muitas das famílias que já tinham sido deslocadas. Segundo António Juliasse, algumas estão a regressar às aldeias de origem não porque a segurança tenha melhorado, mas porque deixaram de encontrar condições para permanecer nos centros de reassentamento.
“Preferem lidar com a insegurança nas próprias aldeias: quando são atacadas, fogem para as matas, voltam, enterram os mortos, reconstroem as casas e continuam ali”, descreveu o bispo.
Crianças raptadas e cristãos decapitados

Mais de metade destes novos deslocados são crianças: 3.136. Foto © PMA/Falume Bachir
O agravamento da insegurança está também a limitar a chegada da ajuda humanitária às populações. O bispo António Juliasse explicou que várias organizações estão impedidas de trabalhar nas zonas consideradas de maior risco e permanecem nas grandes vilas e na cidade de Pemba, depois de terem sido registados sequestros de trabalhadores de organizações não-governamentais.
“Nestes últimos tempos há muitos raptos para obtenção de resgate e são exigidos valores muito elevados”, afirmou.
Agravam-se, assim, as dificuldades alimentares. O prelado identifica “focos de subnutrição, sobretudo entre as crianças”, tanto nas aldeias como nos campos de reassentamento, e relata casos de famílias sem trabalho, terra para cultivar ou condições para manter os filhos na escola.
A violência atingiu também diretamente as comunidades cristãs. “Neste ano, cerca de 12 cristãos foram decapitados. Esta é uma terra de mártires”, denunciou António Juliasse, recordando ainda a destruição, em maio, da igreja da missão de São Luís de Monforte. “Também tem havido muitas crianças raptadas e muitas pessoas raptadas para obtenção de resgate.”
Dois mil militares para uma província de 82 mil quilómetros quadrados
Os grupos responsáveis pela violência têm sido associados ao Estado Islâmico, incluindo através das publicações que divulgam nas redes ligadas à organização. Mas o bispo de Pemba considera que existe “uma impotência de todos os lados” para pôr fim ao conflito e lamenta que continue sem existir “um esclarecimento claro, uma posição oficial sobre o que se passa em Cabo Delgado”.
A presença militar estrangeira também não abrange todo o território. António Juliasse recorda que Cabo Delgado tem cerca de 82 mil quilómetros quadrados e 11 distritos, enquanto o contingente ruandês ronda os dois mil militares e está concentrado em apenas algumas zonas. Em Mocímboa da Praia e Palma, onde essas tropas estão presentes, existe uma situação de segurança “mais ou menos controlada”, mas o contingente “não está a operar em toda a província de Cabo Delgado”.
O bispo diz também não dispor de informação suficiente para avaliar os resultados da missão de formação da União Europeia, na qual Portugal participa, nomeadamente quanto ao número de militares moçambicanos treinados e à capacidade dessas unidades para responder à insurgência.
“Esta guerra já não é novidade”

O bispo de Pemba considera que existe “uma impotência de todos os lados” para pôr fim ao conflito. Foto © Eduardo Jorge Madureira
Para o bispo António Juliasse, apesar de a situação não melhorar, há um grande risco: o de Cabo Delgado desaparecer progressivamente da atenção internacional.
O bispo reconhece o dilema de um país que precisa de atrair investimento para enfrentar as dificuldades económicas e onde falar insistentemente de terrorismo pode prejudicar essa estratégia. Mas rejeita que isso justifique o silêncio.
“As pessoas estão a morrer, e ficar calado diante desta situação é ser conivente com as mortes que estão a acontecer e com este sofrimento”, afirmou.
A Igreja Católica, garante, continuará a denunciar a situação. O prelado destaca também a proximidade da Igreja em Portugal e da Santa Sé, recordando a recente visita a Cabo Delgado do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, que esteve num campo de reassentamento durante a sua deslocação a Moçambique por ocasião dos 30 anos de relações diplomáticas entre o país e a Santa Sé.
Em julho, também as Comissões Justiça e Paz alertaram para a “dramática situação” vivida em Cabo Delgado, num apelo conjunto à sociedade civil, aos governos e às empresas para que atuassem no sentido de pôr fim ao sofrimento da população. Na altura, pediram especificamente aos órgãos de comunicação social que não deixassem cair no esquecimento a situação na província moçambicana e defenderam que o bem das populações fosse colocado acima de “quaisquer interesses políticos ou económicos”.
Mas nove anos depois do início dos ataques, o bispo teme que a longa duração do conflito esteja a torná-lo menos visível. “Esta guerra já não é novidade. Já não se fala dela”, lamenta. No entanto, “a guerra continua aqui” e, sem “um esforço de mobilização da informação” que mostre que a violência persiste, “pode facilmente cair no esquecimento”.










