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autores - Helena Fonseca

A idade da turbulência (2): O adolescente e a família

| 21/09/2024

“Quem sou eu? Aonde pertenço?” Foto © Arnel Hasanovic | Unsplash

“Quem sou eu? Aonde pertenço?” Foto © Arnel Hasanovic | Unsplash

 

As transformações que ocorrem na adolescência são a três níveis: as transformações do corpo, a modificação das relações com os pares e a modificação do modelo relacional com os pais. A construção psicológica do adolescente tem em conta a sua história pessoal e as suas novas competências sexuais, cognitivas e sociais. O meio familiar, tal como o social, como que permite fazer a ponte entre os espaços psíquico e somático que são, conforme já analisámos, indissociáveis.

O conhecimento dos marcos do desenvolvimento psicológico do adolescente e o estudo das teorias sistémicas têm ajudado a entender a dinâmica da relação adolescente-família. [ver primeiro texto desta série]

As tarefas da adolescência poderão ser facilitadas ou, pelo contrário, dificultadas pelo sistema familiar. A família é um sistema aberto em constante interação com o meio.

As diferentes fases do ciclo de vida implicam a realização de tarefas próprias, havendo necessidade de reestruturação do sistema para as desempenhar.

A estrutura familiar tem essencialmente duas vertentes. Uma homeostática, favorecedora da permanência e da continuidade, e outra transformadora, que consiste na capacidade que a família tem de viver as crises adaptativas e reencontrar um novo equilíbrio. Assim, poderemos entender a crise como algo que não é, em si mesmo, necessariamente patológico. A cristalização do sintoma é que poderá ser sinal de patologia.

Na família com adolescentes assiste-se a uma mudança na relação pais-filhos, a um aumento da flexibilidade das fronteiras familiares, a uma nova focagem na vivência do casal. Trata-se habitualmente de um período da vida profissional muito exigente para os pais. Há também um deslocamento progressivo das preocupações da família para as gerações mais velhas e, na fase final, assiste-se a uma preparação para a saída dos filhos, dando origem à chamada síndrome do ninho vazio. Há atualmente uma tendência para que esta saída se dê mais tarde comparativamente ao que acontecia na geração dos pais. Por outro lado, atualmente, com o emergir das novas formas de família, o conceito de família transformou-se em algo de bem mais abrangente, obrigando a um reenquadramento social.

 

Sinais de mal-estar

O pai visto por Mafalda, de Quino: “A necessidade de autonomia que caracteriza a adolescência pode ser geradora de conflitos familiares.” Foto © DR

O pai visto por Mafalda, de Quino: “A necessidade de autonomia que caracteriza a adolescência pode ser geradora de conflitos familiares.” Foto © DR

 

Está descrito que é nos períodos de transição entre as diferentes fases do ciclo de vida, que mais frequentemente surgem sinais de mal-estar e que o sistema familiar, reconhecendo a sua dificuldade de mudança, pode pedir ajuda.

A fase do ciclo de vida familiar caracterizada pela adolescência dos filhos é reconhecidamente um período de grande vulnerabilidade para o sistema. O adolescente, quando recorre aos serviços de saúde, pode ser o portador do sintoma da família, o elemento que leva a família a pedir ajuda. É essencial enquadrar o sintoma no contexto familiar para ajudar a modificá-lo. Quantas vezes não coincide a adolescência dos filhos com uma fase mais cinzenta da vida em que os pais questionam a sua relação enquanto casal? Poderá então ser-lhes mais fácil procurar ajuda através do filho adolescente (que poderá até estar a fazer uma adolescência perfeitamente normal!), em vez de pedirem diretamente ajuda para si próprios.

A criança pequena tem os pais como referência absoluta. O adolescente, inserido numa das várias formas de família, inicia um percurso em que a separação das figuras parentais é um acontecimento essencial para a construção da sua identidade. No entanto, a necessidade de autonomia que caracteriza a adolescência pode ser geradora de conflitos familiares, indo necessariamente desencadear mudanças no interior da família, com alteração de regras e descoberta de parte a parte de novas formas de comunicação.

O período intermédio da adolescência, em particular, caracteriza-se pela necessidade de individuação em relação à família de origem, que muitas vezes se revela através da contestação constante. As opiniões dos pais são incessantemente questionadas e postas em causa. O que o adolescente pretende com esta atitude é sobretudo ver como é que os pais reagem a este desafio e defendem as suas convicções e estilos de vida. Há, no entanto, como que uma ambivalência por parte do adolescente entre o desejo de contestar e ter um lugar no mundo dos adultos e a necessidade de se sentir protegido sempre que surgem dificuldades.

Os pais passam neste período por uma fase muito difícil. Importa apoiar os pais para que se sintam menos perdidos e menos sozinhos nas suas vivências. Convidar os pais a fazerem um esforço de memória e tentarem relembrar as suas próprias adolescências, poderá ser útil. Ajudá-los a refletir sobre esta travessia do deserto, este terreno movediço em que a adolescência se move, com alguns avanços e muitos recuos. Urge descobrir espaços onde a partilha destas experiências seja possível e onde os pais possam encontrar algum suporte.

 

A pressão do grupo e a diluição da identidade

Foto © Levi Guzman | Unsplash

A pressão da adolescência pode impedir o adolescente de verdadeiramente se divertir. Foto © Levi Guzman | Unsplash

 

É também nesta fase intermédia da adolescência que a pressão do grupo é maior, constituindo muitas vezes um motivo de preocupação para os pais. Aquilo que habitualmente intitulamos de grupo de pares é, na adolescência, um grupo de jovens de idades semelhantes, com interesses e necessidades também semelhantes, cujos membros preferem passar mais tempo uns com os outros do que com as suas respetivas famílias.

No grupo de pares o adolescente como que dilui a sua identidade, veste-se, fala e comporta-se como os do grupo. Ganha segurança à custa de ter comportamentos semelhantes aos outros. Ao ser integrado pelo grupo, reforça também a sua autoestima. Os pais tendem a ver o grupo de pares como algo ameaçador, como uma influência negativa na vida do adolescente. Em alguns casos talvez o seja, mas ele constitui sobretudo uma entidade na qual o adolescente pode ensaiar diferentes maneiras de ser adulto até descobrir a sua própria, aquela com que se sente mais confortável.

O grupo é, de facto, uma matriz de identidade muito importante para o adolescente. A maioria dos estudos aponta para o facto de o adolescente se juntar a um determinado grupo porque esse grupo preenche as suas necessidades e interesses. Ao contrário do que habitualmente se pensa, o adolescente não vai escolher um grupo que o force a fazer o que não se sinta inclinado a fazer. Assim, se por exemplo o adolescente tem necessidade de participar em condutas de experimentação que envolvam risco, irá procurar pares que pensem de modo semelhante para conseguir obter apoio do grupo.

As dificuldades de comunicação estão na base de muitos dos conflitos que surgem tipicamente neste período. Há também frequentemente dificuldade em negociar regras. Coisas simples, como por exemplo as saídas e as horas de chegar a casa. Um destes dias contavam-me uns pais que o filho, quando pretendia dinheiro para comprar alguma coisa ou sair à noite, fazia um jogo tal entre a mãe e o pai, que acabava invariavelmente pela concordância de um deles com o desconhecimento do outro. Em reunião onde pais e adolescente estavam presentes, e depois de ter sido feito o levantamento deste problema que foi identificado por ambas as partes como aquele que mais desconforto gerava na família, ficou combinado que daí em diante todas as combinações teriam de ser feitas na presença de ambos os pais e que cada um deles se recusaria a aceitar fazer qualquer acordo sem o conhecimento do outro. Esta medida, aparentemente tão simples, veio ajudar a reestruturar o adolescente e a própria dinâmica familiar.

 

Helena Fonseca é pediatra especializada em Medicina do Adolescente e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa; email: helenaregalofonseca@gmail.com 

 

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