
Adolescentes do Arco Maior, em performance. Foto Arquivo do Arco Maior
Há quem defina a adolescência como o percurso da infância à idade adulta ou o percurso da dependência à autonomia.
Não podemos considerar a adolescência no singular já que se trata de um período da vida que corresponde a uma multiplicidade de aventuras individuais.
Esta etapa do desenvolvimento, por vezes intitulada de “idade da turbulência”, tem características próprias e tarefas bem definidas. Nela ocorrem alterações fundamentais de ordem biológica (comandadas pela puberdade, que irá influenciar o surto de crescimento e as diversas transformações a nível do corpo), cognitiva (capacidade em elaborar raciocínios cada vez mais complexos), psicológica (desenvolvimento da autonomia e construção da identidade) e social (transição para o desempenho de novos papéis). Estas alterações são em si mesmos universais. O contexto em que se desenvolvem é que é diferente de adolescente para adolescente. Contextos culturais e socioeconómicos particulares, contextos familiares diversos, contextos de saúde ou de doença, irão naturalmente exercer uma influência determinante no desenvolvimento do adolescente.
O conceito de adolescência é relativamente recente. Antes de existir passava-se diretamente da infância à idade adulta através de ritos de passagem ou seus equivalentes. Em algumas sociedades ainda encontramos exemplos desses ritos que podem assumir características religiosas, sociais ou militares. As crianças são submetidas a provas que, uma vez realizadas com sucesso, lhes permitem a entrada no mundo adulto. Na nossa sociedade podemos encontrar equivalentes deste fenómeno (por exemplo, o direito de votar ou de obter a licença de condução aos 18 anos), que representam sinais de reconhecimento por parte da sociedade de uma mudança de estatuto, conferindo novos direitos e privilégios ao adolescente, mas exigindo-lhe também novas responsabilidades.
O corpo e a cara mudam, sendo de esperar que o adolescente se sinta diferente e sinta aquilo que o rodeia também de um modo diferente. A construção psicológica irá ter por base a própria história pessoal e as novas competências que o adolescente vai adquirindo, a nível cognitivo, sexual e social. Ao mesmo tempo que surgem preocupações ligadas a estas novas competências, vai-se desenvolvendo uma autonomia crescente e vai-se formando a identidade. O pensamento abstrato é a marca da diferença entre a atividade cognitiva da criança e do adulto.
Segundo Jean Piaget, a criança passa por quatro estádios do ponto de vista do seu desenvolvimento cognitivo: o sensório-motor (do nascimento até aos 2 anos de idade); o pré-operatório (dos 2 aos 7 anos); o das operações concretas (dos 7 aos 12); e o das operações formais (acima dos 12). Assim, a criança começa a ter capacidade de pensar de um modo abstrato pelos 12 anos. O pensamento abstrato completo, contudo, só será conseguido pelos 15-16 anos, e mesmo assim ainda com algumas limitações. O pensamento operacional formal caracteriza-se, nomeadamente, pela capacidade de gerar abstrações, construir hipóteses, fazer a abordagem de um problema de uma maneira sistemática, usar combinações lógicas, criar as várias possibilidades a partir de uma situação específica. Nas fases iniciais deste pensamento operacional, o adolescente ainda não desenvolveu a mestria necessária para, por exemplo, definir soluções possíveis para problemas relativamente simples da vida quotidiana.

“As grandes tarefas da adolescência são a autonomia e a construção da identidade”, defende Helena Fonseca. Foto © Annie Spratt | Unsplash
Também nesta fase, o adolescente é muito egocêntrico e tem necessidade de estar constantemente em cena como ator principal. É como se aquilo que pensa, por ser tão importante para si mesmo, também tivesse de o ser para os outros. O sentimento que se origina desse egocentrismo leva-o a acreditar que é imune aos riscos que atingem os outros. As condutas de experimentação envolvendo risco advêm assim, habitualmente, de um sentimento de invulnerabilidade. Durante a primeira fase da adolescência há ainda uma incapacidade em equacionar as questões sob uma perspetiva temporal, consequentemente deveremos concentrar-nos nas consequências imediatas de um determinado comportamento. Com um adolescente mais velho já poderemos perspetivar as várias questões (ligadas à sexualidade, aos estilos de vida, aos projetos, etc.) tendo em linha de conta eventuais consequências a médio e longo prazo. Na fase média da adolescência temos essencialmente um desfasamento entre uma grande exuberância do sistema límbico e um córtex pré-frontal ainda imaturo e que só atinge a maturação plena em adulto jovem.
Considera-se que as grandes tarefas da adolescência são a autonomia e a construção da identidade.
O desenvolvimento psicossocial vai condicionar a capacidade que o adolescente tem de se ver a si próprio e de se relacionar com os outros e compreende essencialmente quatro tarefas: a autonomia que vai construindo face aos pais e à família; os projetos de futuro que passam por um objetivo vocacional; o amadurecimento da sexualidade e o desenvolvimento de uma autoimagem positiva, essenciais para a formação da identidade. Os cenários privilegiados da vida social do adolescente (família, escola, grupo de pares), jogam um papel determinante na construção da identidade. É também esta a etapa da vida em que o adolescente tem de fazer opções importantes na área académica que vão condicionar o seu futuro. Entre nós, estas escolhas são efetuadas mais precocemente do que seria desejável, sendo fruto de muitas dúvidas e indecisões. Seria desejável termos troncos curriculares comuns mais abrangentes que permitissem que as opções específicas pudessem ser efetuadas mais tardiamente, já com o adolescente numa fase mais avançada do seu desenvolvimento.
Helena Fonseca é pediatra especializada em Medicina do Adolescente e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa; email: helenaregalofonseca@gmail.com










