Este artigo corresponde à segunda parte do texto publicado pelo 7MARGENS na última semana.
(…) O que resta de um rapaz quando lhe dizem que não vale nada?
– X, o algoritmo só mostra o que vês, não define quem és – disse-lhe o professor de informática.
X só queria ser visto, mas acabou por ser moldado pela narrativa da manosfera, que promete força e identidade, mas o que faz é alimentar a fragilidade e roubar humanidade.
A mãe do X continuou a entrar no quarto todos os dias. Afagava-lhe o cabelo, abraçava-o e deixava um prato com fruta descascada em cima da secretária. Compreendeu, procurou informação, e decidiu que não podia desistir de lhe transmitir que era visto.
X não é um caso isolado, é o espelho de muitos rapazes que crescem numa sociedade onde a masculinidade continua a ser predominantemente transmitida através do algoritmo pseudo patriarcal: quanto mais bem-sucedido e misógino, mais “macho” e poderoso.
Estes jovens não são monstros, são vulneráveis, procuram identidade, reconhecimento e pertença, e encontram tudo isso embrulhado no discurso:
“Estás perdido? A culpa é das mulheres. Queres poder? Domina-as. Queres sucesso? Compra-o.”
A manosfera não é apenas um fenómeno preocupante, é um problema estrutural, violento e organizado, que está a recrutar adolescentes enquanto a sociedade assobia e segue adiante.
Fingir que isto é apenas “conteúdo polémico” é ingenuidade. Fingir que é apenas “coisa de miúdos” é irresponsabilidade. A manosfera é hoje uma máquina que transforma inseguranças masculinas em misoginia militante, e faz isso com método, lucro e estratégia. Não se trata de um fenómeno cultural, é um projeto político de regressão social – muito entranhado nos movimentos e partidos de extrema-direita – é um ataque direto à igualdade de género, às mulheres e à saúde emocional dos próprios rapazes.
A manosfera oferece aquilo que o Estado, a escola e muitas famílias não oferecem: uma narrativa, uma identidade, uma pertença – que é falsa, tóxica e violenta – mas está disponível, através de um clique.
Os influencers não são acasos do algoritmo, são produto de um mercado que descobriu que a misoginia vende, fideliza e gera engajamento digital. E, o que é mais grave, vende-se como solução para o sofrimento real de rapazes reais.
Seria cómico, se não fosse trágico, mas enquanto isto está a acontecer, continua a discutir-se se se deve ou não falar de sexualidade nas escolas e se a educação para a cidadania é ideologia. Ideologia é isto: um ecossistema digital que ensina rapazes a odiar raparigas.
Nada disto se combate com silêncio, com moralismos, ou com medo de ferir suscetibilidades. E não basta desligar o Wi‑Fi ou mudar a password lá de casa. Também não resolve proibir palavras e dizer “isso é parvo”. É urgente ensinar outra linguagem.
É preciso combater este flagelo com educação sexual séria, e a sério, desde cedo; com professores preparados; com literacia digital real; com conversas sobre afetos, limites e consentimento; com políticas públicas que não vacilam perante polémicas.
Sem isto, estamos a entregar adolescentes a influenciadores que tratam as mulheres como objetos e os rapazes como carne para radicalização.
Durante décadas, dissemos aos homens que já não eram obrigados a ser chefes de família, machos alfa. Ótimo. Só que fomo-nos esquecendo de dizer o que poderiam ser em vez disso. O resultado? É o vazio. E onde há vazio, entra quem grita mais alto. E se não ocuparmos este espaço, alguém o ocupará, e esse alguém já lá está, organizado, barulhento e perigosamente eficaz.
A pergunta já não é “como chegámos aqui?”, a pergunta deve ser: “vamos continuar a deixar que isto aconteça?”
Aos poucos, com tempo e com ajuda, X está a reaprender a pensar e a falar uma linguagem em que a força não exclui a vulnerabilidade; em que o valor não se mede em centímetros, euros ou ângulos da mandíbula; em que ser homem é aprender a estar no mundo sem medo de cair. X começou a perceber que não precisa de seguir homens que confundem violência com coragem, porque ser homem é outra coisa, ser homem é ser gente, gente que pensa e não acredita em quem grita mais alto.
Nota Final: O que transmiti nestas duas semanas é como acender um fósforo num túnel, não ilumina tudo, mas quero muito que tenha sido um alerta para quem não estivesse ainda desperto para esta realidade.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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