Os migrantes necessitam de ser ouvidos e de participar nas tomadas de decisão em matérias que influenciam as suas vidas, dado que, de outro modo, a “inclusão verdadeira”, que supõe que eles sejam “sujeitos ativos e não apenas destinatários de medidas”, não poderá ter lugar. Quem o afirma são os participantes do I Fórum Migrações, uma iniciativa da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que se realizou em Fátima, no último sábado, 15 de novembro.
O Fórum, que contou com a participação de 70 pessoas as diferentes dioceses portuguesas, que atuam junto dos migrantes, teve como objetivo “sensibilizar e formar as comunidades cristãs para o fenómeno migratório e contribuir para a reflexão desta temática na Igreja e na sociedade em geral”.
No texto das conclusões, enviado ao 7MARGENS, destaca-se também a proposta de “constituição de pequenas equipas paroquiais, com a preocupação do acolhimento e da relação”, que invistam na formação orientada para conhecer e compreender a realidade dos migrantes. Mas, ao mesmo tempo, importa “conhecer o trabalho que está a ser feito a nível paroquial e diocesano, mapeando os recursos disponíveis, partilhando aprendizagens e boas práticas”.
O documento defende “um trabalho em rede”, com “partilha de recursos”, no quadro do “aprofundamento das relações entre as instituições da sociedade civil e a Igreja, com a constituição de equipas interdisciplinares”.
Nesta mesma linha, sublinha-se a necessidade do “diálogo ecuménico e inter-religioso”, “para ajudar as comunidades cristãs e compreenderem a riqueza que a pluralidade traz”.
Por outro lado, o Fórum considerou ser de exigir à Igreja que, “de uma forma articulada internamente, tenha capacidade de negociação com o Estado e com o tecido empresarial para responder às necessidades concretas relacionadas com a escassez de habitação ou mesmo de respostas alternativas e complementares às já existentes”.
Estas linhas de ação assentaram numa reflexão em pequenos grupos heterogéneos sobre a realidade no terreno, no que respeita ao fenómeno migratório, da qual se sublinhou:
– “A degradação da opinião sobre os migrantes no espaço público”: “A discriminação – vincam os participantes – tornou-se aceite na esfera pública e política, o que resulta na normalização e vocalização de comentários depreciativos e narrativas incorretas sobre comunidade migrantes (…) especialmente aguda entre os mais jovens”, “fruto de uma maior eficácia da comunicação de grupos extremistas”.
– Outro ponto são as “dificuldades dos migrantes no acesso à habitação digna, aos cuidados de saúde e à educação são transversais, assim como as dificuldades de comunicação e articulação entre as várias entidades eclesiais e civis que trabalham com migrantes e refugiados (Igreja, paróquia, município, juntas de freguesia, ação social e saúde)”.
– Sublinha-se também “os desafios que se colocam no acesso ao reagrupamento familiar por parte das famílias imigrantes, de modo particular das famílias mais vulneráveis”, o que constitui “uma ameaça à garantia da dignidade da pessoa humana e comprometem a coesão social”.
– Chama-se ainda a atenção, da parte da Igreja, no plano local, para “um medo do desconhecido, o que aumenta a resistências dos migrantes que habitualmente já reagem com medo e desconfiança à inclusão”, o que poderia ser superado através de uma efetiva evangelização “com respostas mais abertas e integradoras”.
Falando no âmbito do Fórum, a diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), Eugénia Quaresma, afirmou que as migrações “não são uma questão ideológica”. “Infelizmente estão a ser politizadas e polarizadas”, acrescentou, quando questionada sobre algumas manifestações de líderes partidários sobre os migrantes.
D. José Traquina: “Para nós, Igreja, não há estrangeiros”
Também o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana disse que o Fórum Migrações sublinha a “valorização da pessoa humana como força da mensagem cristã” e o “reconhecimento da fraternidade humana”.
“A nossa abrangência é larga, no sentido do diálogo, do apoio. Não obrigamos ninguém a celebrar connosco a nossa dimensão de fé, e não deixamos de prestar algum apoio social a uma pessoa que tenha uma outra confissão religiosa”, disse o bispo José Traquina, em declarações aos jornalistas. “Não deixamos de apoiar e de valorizar a pessoa no seu sonho de vida, sonho de felicidade, se passar por Portugal”, acrescentou o presidente da Comissão da Pastoral Social e Mobilidade Humana, da CEP, citado pela Agência Ecclesia.
“Em síntese está a valorização da pessoa humana como força da nossa mensagem cristã e o reconhecimento da fraternidade humana presente na nossa mensagem e de reconhecer que, para nós, Igreja, não há estrangeiros, digamos assim, são todos irmãos e irmãs quando celebramos a santa missa, estamos em comunidade cristã”, concluiu José Traquina.










