AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

A irrelevância de Deus?

| 09/03/2021

Matthias Sellmann

Mathias Sellmann: “Os cristãos não estão preparados para se orientarem num ambiente sem religião”. Foto © ZAP/Martin Steffen.

 

Em Junho de 2020, o portal Katholisch.de da Igreja Católica da Alemanha publicou as estatísticas relativas ao ano de 2019. O artigo em que se analisavam esses dados titulava “O grande choque”. As estatísticas mostravam existirem menos 400.000 pessoas a dizerem-se católicas, das quais mais de 270.000 afirmavam ter abandonado a Igreja, número que nunca antes tinha sido tão alto. A tendência já vinha de anos anteriores e um estudo da Universidade de Friburgo, então referido, mostrava que, a manter-se tal tendência, dali a 40 anos (2060) o número de cristãos (católicos e protestantes, divididos praticamente em duas metades) será de 22,7 milhões em vez dos actuais 44,8 milhões (52% da população alemã).

O presidente da Conferência Episcopal, o bispo Georg Bätzing, disse serem necessárias corajosas mudanças e, sem esquecer o Caminho Sinodal em curso, acentuou: “…depois de uma considerável perda de credibilidade, temos de inverter a situação. Temos de garantir honestidade e transparência. Para isso a Igreja tem de dar respostas úteis às questões da época actual e encetar também alguns processos de mudança que mostrem que no centro da fé e da Igreja está a proposta de Deus para, na fé, dar sentido à vida”.

Ora, é precisamente neste sentido – orientar o viver – que na newsletter semanal, no passado 26 de Fevereiro, (na qual também se publicava uma entrevista com a nova secretária da Conferência Episcopal, pela primeira vez uma mulher, Beate Gilles) saiu um artigo cujo título se poderá traduzir assim: “Sobre a relação com Deus: o que a Sua ausência nos pode dizer?”. O artigo é um debate (melhor se diria, duas posições complementares) entre dois teólogos que estiveram na organização de um congresso online a partir de Dresden e que se efectuou nos dias 26 e 27 de Fevereiro passado. Na introdução a esse “debate”, referem-se as variadas posições dos bispos sobre as respostas a dar ao tal “choque”, tais como anunciar o Evangelho de maneira convincente, ou fazer do “acolhimento amigo sem condições” a orientação pastoral que apresente a relação com Deus – portanto a fé – como proposta.

Mas o que queria desde já destacar é o que me parece ser um desafio-paradigma (paradigma, pois põe a questão em termos diferentes dos habituais na análise de situações da Igreja): enfrentar o facto de Deus não ser relevante para muita gente. Esta questão da não relevância de Deus parece-me exposta com clareza no texto de apresentação do congresso de Dresden e que é a autoria dos dois teólogos, Mathias Sellmann (Ruhr – Universität Bochum) e Thomas Arnold (Katholische Akademie Dresden), que intervêm no artigo-debate acima referido.

Nele, Mathias Sellmann acentua sobretudo a ausência de Deus, afirmando: “Os cristãos não estão preparados para se orientarem num ambiente sem religião” e precisam de ajuda para lidar com um Deus distante. E sugere aprender com as místicas e os místicos de hoje, entre os quais Chiara Lubich (fundadora do Movimento dos Folcolares) e Madre Teresa de Calcutá. Destaca esta última que viveu dezenas de anos na “escuridão” da ausência de Deus.

Por outro lado, para Thomas Arnold,  no horizonte da Alemanha 2060, “Deus faz-se distante, muda a relação com Ele…”, o que altera o modo de O experienciar. “Deus muda (talvez) não de uma forma para outra forma, mas de ausência para perda/abandono…”. Segundo T. Arnold, “a experiência de haver muitos não crentes mostra que o parâmetro cultural se altera. Torna-se cada vez mais pós-cristão. Com a Alemanha de Leste à frente”. E continua: “Pois se Deus se faz estranho, irreconhecível, ausente, então a secularidade não é nenhuma situação de grande dano para a história da Igreja, mas sim o novo espaço do mundo que Deus valoriza para O reencontrarmos. E a Igreja face a estes avanços ou progressos seculares deve dar provas do seu valor. E então a questão “O que e como, se sem Deus” será uma nova experiência de Deus”.

Thomas Arnold

Thomas Arnold: “Deus muda (talvez) não de uma forma para outra forma, mas de ausência para perda/abandono…” Foto © Privat

 

Este final do artigo dos dois teólogos leva-nos ao texto de apresentação do congresso online que teve essa questão O que e como, sem Deus como tema central. O congresso, que reuniu 330 participantes, foi organizado pela Katholische Akademie Dresden e pelo Movimento dos Focolares, no quadro do Caminho Sinodal da diocese de Dresden Meissen cujo bispo Heinrich Timmerevers fez a introdução de abertura e encerrou também o congresso. Penso que vale a pena fazer duas citações do texto de apresentação.

A primeira citação: “Para muitos, Deus já não tem qualquer relevância, quando procuram respostas sobre de onde e para onde. Os conhecimentos científicos da natureza e os conhecimentos técnicos fazem de nós cada vez mais criadores do mundo. A religião apresenta-se para muitos contemporâneos inquietos como fonte de poder e violência. E os escândalos dos abusos desacreditaram a Igreja como quadro da relação com Deus…”. Não resisto a um parêntese a propósito de “criadores do mundo”: as vulnerabilidades cada vez mais evidentes do ser humano parecem desmentir essa ilusão…

A segunda citação: “Hoje, viver com Deus é diferente do que era ainda há poucas décadas. E também os contemporâneos sem escolha religiosa expressa sentem que isto é uma evolução cultural importante.”. É interessante notar que um dos oradores do congresso foi o checo Tomás Halík que no título da sua apresentação inclui a pergunta “Pode-se hoje ainda acreditar em Deus?”.

Ora bem, embora o congresso não deixasse de tratar dos problemas da Igreja, nomeadamente os levantados pelas estatísticas que referi no início, a questão central foi a da falta de relevância de Deus para muitos contemporâneos.

Enfrentar esta questão é um desafio-paradigma. É pôr o problema de forma diferente da habitualmente dominante. Não se trata de discutir a existência ou não existência de Deus, não se trata apenas de crentes e não crentes, de “praticantes” e “não praticantes”, trata-se de uma questão de “visão do mundo” e da vida. O que é que Deus tem a ver com a minha vida e com a nossa vida? Para muitas pessoas, Deus não tem qualquer papel na vida. Enfrentar a questão da falta de relevância de Deus para muitos quando procuram “respostas sobre o donde e para onde” mostra que esta não é tanto uma questão de religião, como sobretudo uma questão sobre encontrar um sentido da vida.

“O que é que há no viver e conviver quotidianos que nos interpele no fundo de nós mesmos?” Foto: Catedral de Colónia © KNA/Theodor Bart

 

Insisto, trata-se mesmo de um desafio-paradigma, de entender e viver a religião mais como sentido da vida do que como conjunto de práticas e ritos. Ou, noutros termos, ser relevante, ter Alguém a quem tomar como referência do sentido da vida (para nós, cristãos, é Jesus). Mas se esse Alguém é distante ou é próximo, é o desafio. A busca do sentido da vida não se esgota na espiritualidade e na dimensão individual de “ser eu mesmo”. Uma das causas ou condições explicativas do contexto ou background sociocultural de indiferença e falta de relevância da ideia de Deus poderá ser a “raridade” do olhar para si próprio como pessoa e como pessoa em relação com o outro (e não apenas os próximos e os familiares)? O “recolher-se”, sem “fechar-se”, parece-me ser uma das condições para que a tal irrelevância possa dar lugar a uma consciência da Dignidade Humana como “Inalcançável” mas sempre Desejável, ou como algo a tentar-se alcançar. Poderíamos falar, aqui, da busca humana da Plenitude.

E a relevância de Deus para o viver quotidiano? Difícil de responder. Será que a questão é pertinente? O que é que há no viver e conviver quotidianos que nos interpele no fundo de nós mesmos? Não são certamente o predomínio do ter sobre o ser, o de fazer boa figura – predomínio do parecer e chegar primeiro sobre a atenção ao outro e ser solidário. O vazio em que alguém assim se torna, sem o sentir ou sofrer como tal, não ajuda nada a vislumbrar ao menos um pouco do horizonte de plenitude. E também não ajuda a aflição “stressante” da incerteza do futuro, o não poder pensar em mais nada senão no sobreviver.

A procura da plenitude abrange o “nós” cuja universalidade começa pelo próximo, incluindo os que mais precisam, como o Papa Francisco diz na encíclica Fratelli Tutti sobre a fraternidade e a amizade social”, como também nos lembra “tive fome e destes-me de comer…” (Mat. 25, 35-40) ou ainda o cântico “Onde está o amor, aí está Deus”. E voltando ao Deus distante e ausente não estará Ele no próximo?

 

Cláudio Teixeira é professor associado do ISCTE, aposentado. Trabalhou em direcção de recursos humanos, formação de gestores e quadros, consultoria em recursos humanos e organização do trabalho.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber novidade

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This