
Gustav Klimt, Der Kuss (Liebespaar), detalhe, Österreichische Galerie Belvedere. Gustav Klimt, Public domain, via Wikimedia Commons.
O teólogo italiano Martin Lintner que tem dado dores de cabeça à Curia Romana, acaba de publicar um novo livro, no qual sustenta que a Igreja só teria a ganhar em demarcar-se de posições de rigorismo e mesmo hostilidade, no campo da moral sexual.
O livro, que saiu em outubro último, em alemão, tem por título Christliche Beziehungsethik: Historische Entwicklungen; Biblische Grundlagen; Gegenwärtige Perspektiven (Ética relacional cristã: Evolução histórica; Fundamentos bíblicos; Perspetivas atuais) e tem a chancela da editora Herder.
A editora afirma, na ficha de apresentação da obra, que “a moral sexual e a doutrina do matrimónio da Igreja Católica precisam de uma revisão completa”. O escândalo dos abusos, as descobertas científicas naturais e humanas e os estudos de género deram elementos relevantes para essa tarefa de renovação, acrescenta a nota.
Observando que a Igreja “sempre se sentiu capaz de responder aos desafios do seu tempo”, o livro considera que “a questão decisiva”, nessa resposta, é “saber se ela ajuda a compreender melhor a mensagem do Evangelho e a responder-lhe mais eficazmente”. Por esta razão, fornece também uma revisão bíblica detalhada, uma referência aos conhecimentos da exegese feminista, desenvolvendo “aspetos de uma ética renovada da sexualidade, das relações e do matrimónio que continuam consistentemente a mudança de paradigma do Concílio Vaticano II”.
Numa entrevista ao site da Igreja Católica alemã, Martin Lintner lamentou que “com a sua rígida moral sexual, a Igreja dificultou desnecessariamente a vida das pessoas e fê-las mergulhar em graves problemas de consciência”. Por isso, no livro, através de uma abordagem “abrangente e crítica” da evolução da moral sexual da Igreja, ele explica “porque é que a Igreja adotou frequentemente uma posição tão hostil em relação à sexualidade e como podemos ultrapassar esta visão negativa”.
Para este teólogo moral e presbítero, “a instituição adequada para fundar uma família era, do ponto de vista jurídico, o casamento, daí a exigência de que as relações sexuais fossem praticadas exclusivamente no seio do matrimónio, com o objetivo de procriar”. “É por esta razão, acrescenta, que a masturbação ou os atos homossexuais eram veementemente rejeitados como pecados. Porque tudo isso não serviria para a procriação, mas para a busca do prazer”.
Recorrendo aos relatos bíblicos da criação, no Génesis, Lintner considera que “uma interpretação errónea da Bíblia” permite compreender aquela posição redutora. E explica: “No primeiro [relato], lemos sobre a criação do ser humano: Deus criou-o ‘macho e fêmea’. Na bênção, diz-se, depois, que os humanos devem ser fecundos e multiplicar-se. No segundo relato da criação, historicamente mais antigo, não se diz nada sobre a fecundidade, mas que o homem ‘reconhece com alegria na mulher osso do seu osso e carne da sua carne’ Diz também que ele deixará o pai e a mãe e unir-se-á à mulher, e que os dois se tornarão uma só carne. Tal como no Cântico dos Cânticos, a referência aqui é à força de atração e à ligação erótica entre dois amantes, sem referência à procriação. Só mais tarde é que estas duas tradições narrativas foram reunidas e interpretadas como uma missão para os casais, segundo a qual o objetivo principal do casamento é ter filhos. Mas esta formulação reflete antes o contexto sociocultural, ou seja, do ponto de vista jurídico, o casamento era contraído com o objetivo de constituir família.”
Interrogado sobre o celibato dos padres, o teólogo faz notar que só foi estabelecido no século XII, “nomeadamente sob a influência de uma interpretação negativa da sexualidade”, e não é, assumidamente, “uma condição necessária para o exercício do sacerdócio”. Nesta linha solicita à Igreja que reflita sobre a possibilidade de o tornar opcional. “Não — explica ele — porque não considere este modo de vida adequado — eu próprio o escolhi como padre — nem porque pense que desta forma se poderia remediar a falta de padres, mas por outra razão. Há padres que não respeitam o celibato — seja qual for a razão — e que entram numa relação com uma mulher ou que também se tornam pais. Para eles, para as suas companheiras e para os seus filhos, isso significa muitas vezes um grande sofrimento. Ou estão a viver secretamente uma vida a duas velocidades, ou são confrontados com uma escolha. Se optarem pela família, a Igreja perderá sacerdotes empenhados e competentes”.
Recorde-se que Martin Lintner está, por assim dizer, com um cargo para que foi escolhido em suspenso. Em novembro de 2022, o instituto teológico pontifício em que leciona, no norte de Itália, elegeu-o para o cargo de presidente. O Dicastério para a Cultura e Educação, ouvido o Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF), entendeu não dar o “nihil obstat” (nada obsta) para que ele assumisse funções.
Como oportunamente o 7MARGENS noticiou, soube-se que as reservas se ficaram a dever ao teor de um livro de Lintner, de 2011, que tratava temas de moral sexual e outros, que levaram a Doutrina da Fé a instaurar um exame que, finalmente, não viu na obra matéria condenável.
A oposição ao nome deste teólogo, que foi já presidente da Sociedade Europeia de Teologia Católica e da Associação Internacional de Teologia Moral e Ética Social, desencadeou, no início do verão de 2023, uma polémica na Itália e no plano internacional e uma viva reação condenatória de mais de uma centena de teólogos. Finalmente, na sequência de diálogo entre as partes e já depois de ter saído de cena o cardeal Ladaria, como prefeito do DDF, encontrou-se uma solução: o presidente ainda em exercício continuaria o seu mandato até agosto deste ano de 2024 e, entretanto, procurar-se-ia “amadurecer as questões levantadas”.










