
A chegada do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa à Mesquita Central de Lisboa deu início ao apelo multirreligioso pela paz. Foto © Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República
“Não o bem que eu quero mas o mal que não quero, esse eu faço”. Este versículo de São Paulo ecoa dentro de mim e reflete o agridoce do humor que me acompanha depois de um dia passado na Mesquita Central de Lisboa, no âmbito da iniciativa “Unidos pela Paz”, onde a Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL) abriu as portas às diferentes confissões presentes na cidade.
É que foi tão plena a soma dos valores expressos em uníssono pelos líderes religiosos e civis, foi tão vívida a celebração da diversidade, foram tão reconfortantes as palavras fundadas nos credos, que resulta ainda mais amargo o espaço entre esta expressão de Fé e a violência, disfarçada de atuação de um projeto divino em muitas áreas do mundo.
Mas é no abismo entre a aparente incapacidade do ser humano de viver a paz e os valores partilhados no passado sábado, 30 de novembro, que se enraíza o porquê deste encontro: assumir a responsabilidade de fazer mais pela paz, enquanto religiões e comunidades.
Recuemos ao início da minha visita à Mesquita: fui acolhida com simpatia pelos organizadores que logo me indicaram o piso das crianças para o meu filho poder participar no desenho do mural da paz e brincar nos insufláveis. Impressionou-me a quantidade de crianças, de jovens e de famílias presentes, em união, alegria, partilha. A decorrer também o torneio de futsal, venda de livros, produtos artesanais e roupa, tatuagens de henna. Na cantina, comidas mais e menos tradicionais (como o bubble tea especialmente apreciado pelos adolescentes).
De tarde, a chegada do Presidente Marcelo deu início ao apelo multirreligioso pela paz: uma sequência de reflexões e orações dos líderes das comunidades Ismaili, Hindu, Budista, Sikh, Bahá’í, e das igrejas Anglicana, Presbiteriana e Católica, além da Comunidade Islâmica de Lisboa, que abriu e encerrou o momento.
“Ninguém nasce a odiar o outro. A odiar aprende-se, da mesma forma que podemos aprender a amar”, afirmou Mahomed Iqbal, presidente da CIL. “Por isso, gosto de pensar nas fronteiras apenas como linhas no mapa e não como barreiras na nossa mente, gosto de pensar nas diferenças como pontes entre as pessoas. A paz não se pode entender apenas como ausência de guerra: paz é respeito, compaixão, entendimento; ouvir e estender a mão ao outro. Cada ato de exclusão é uma ferida aberta no coração da humanidade. Mas há esperança! Ser agente de paz é responsabilidade de todos nós, a partir do coração, da própria casa. As crianças merecem a paz”, apelou.

O padre Peter Stilwell (ao centro) salientou os laços de amizade pessoal com muitos dos presentes. Foto © Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República
Entre os representantes políticos, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, e o presidente da Junta de Freguesia de Campolide, Miguel Marques. Este último garantiu que ninguém é estranho em Portugal: “Rejeitamos todas as formas de extremismo, intolerância, racismo, cuja raiz é sempre a ignorância. Muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa”. E o presidente da Câmara realçou a identidade de Lisboa como porto seguro, cidade de união e diversidade. Às orações das comunidades Hindu, Budista e Sikh, que realçaram a conexão entre paz interior e paz social e a responsabilidade de cuidarmos uns dos outros e da natureza, como filhos do mesmo Criador, seguiu-se uma carta da Comunidade Israelita de Lisboa, que não esteve presente, dirigida à comunidade islâmica: “As nossas comunidades sempre souberam coexistir, mas infelizmente noutras geografias a religião é razão de discórdia. Para que haja paz é precisa uma vontade explícita de respeitar as diferenças mesmo sem as compreender, sem a qual não será possível alcançar a paz”.
Pudemos ainda ouvir a voz feminina de duas líderes cristãs: Elizabeth Sena, presbítera da Igreja Anglicana, e Rute Salvador, pastora da Igreja Presbiteriana. A primeira exortou a orar para que “Deus nos dê a todos a paz que o mundo não pode dar, especialmente quando nos sentimos sobrecarregados e impotentes perante a violência da guerra”. Já a pastora Rute Salvador conduziu uma oração inter-confessional, depois de ter afirmado: “A verdade é que não nos conhecemos mutuamente. Para sermos construtores de paz, reunimo-nos, partilhamos quem somos, damos do que temos. Vencemos a passividade e a fraqueza que existem dentro de nós!”. O padre católico Peter Stilwell, responsável do departamento do Patriarcado de Lisboa para a Promoção da Unidade dos Cristãos e do Diálogo Inter-religioso, salientou os laços de amizade pessoal com muitos dos presentes e citou as palavras do Papa Francisco em Jacarta, sobre aquilo que definiu “um lugar de diálogo”, ou seja, o chamado “túnel da amizade”, que liga a mesquita à catedral da capital, e que pretende simbolizar “a visão de coexistência enraizada” na Indonésia.
O representante da comunidade Bahá’í de Portugal afirmou que, na visão Bahá’í, a Paz não só é possível, como é inevitável, pois realiza a natural unidade do mundo.
Zohora Piarali, do Centro Ismaili, citou o Alcorão, onde se afirma que Deus é responsável pela diversidade humana. “A paz exige esforço consciente, cuja condição é o respeito do pluralismo. Precisamos de sociedades educadas e fortalecidas, capazes de abraçar e celebrar as diferenças”, sublinhou.
E o xeque David Munir, em conclusão, relançou muitos dos conceitos expressos pelos líderes religiosos, acrescentando que ao paradigma do choque de civilizações contrapõe o do choque de ignorâncias, porque onde há educação também há compreensão mútua. Precisamos de comunidades reunidas em torno de preocupações comuns, que transformem estas palavras em prática diária, para que seja reconhecida a mesma dignidade para toda a humanidade, desafiou.
A fechar a sessão, Marcelo Rebelo de Sousa, acolhido com calor por todos os presentes: “É dentro de cada um que se encontra a raiz da construção da paz, em cada ação, com as nossas atitudes quotidianas. Muitas vezes não temos essa noção, pensamos que há dias em que estamos simplesmente ocupados com outras questões, mas não: estamos sempre a construir a paz ou a destruir a paz”. O Presidente da República incluiu no seu apelo também os não crentes, que definiu como crentes não religiosos, mas de ideais e visões leigas. “Qual o fator que determina a nossa capacidade de construir a paz?”, perguntou, para logo a seguir dar a resposta: “Amar os outros, o mais difícil na vida. Amar em abstrato é facílimo, mas não somos capazes de amar em concreto. E nisto, não há sociedades perfeitas”.
Ao fim de quase duas horas, um aplauso marcou o final do encontro. As muitas crianças corriam a brincar, as cores dos véus dispersavam-se pela sala, havia um sentimento de esperança e de solidariedade.
E da iniciativa lisboeta que pretendia ser um exemplo para o resto do mundo, ficava o repto: que o amor seja concreto, que haja prática diária e educação, que a Paz seja o princípio e o fim de cada oração ao Deus comum.









