Sempre tive um sentido crítico que não escondo, e a atenção para o género das palavras foi-me despertada pela crónica de um ilustre professor de Filosofia e padre, na sua crónica de 15 de Março deste ano, onde afirmava:
“Como escreveu Juan Tamayo, “a memória das mulheres vítimas do patriarcado é já em si um acto de reabilitação, de devolução e reconhecimento da dignidade negada”. “Na reconstrução da História, é preciso encontrar o papel das mulheres, activo e criador, mas oculto e silenciado.”…
“A leitura …dos textos sagrados faz-se a partir dos movimentos de emancipação da mulher e, portanto, dentro da luta pelos direitos humanos, que, sendo indivisíveis, exigem sociedades que ponham termo a todo o tipo de discriminação, sem esquecer que as estruturas discriminatórias da mulher são múltiplas e multiplicativas, como bem viu a teóloga E. Schüssler Fiorenza.”
Temos que estar particularmente atentos ao funcionamento sexista da linguagem. Utilizando sistematicamente uma palavra de género masculino, as de género feminino são inevitavelmente invisibilizadas, esquecidas e marginalizadas. Impõe-se, portanto, estarmos atentos/atentas.
Na mesma crónica vinha o alerta para a imagem patriarcal de Deus, uma vez que se Deus é masculino, o homem-varão acaba por ser divinizado, legitimando o poder dos homens.
A maior parte das imagens usadas nas religiões e nas teologias para se referirem a Deus são expressões do domínio patriarcal: por exemplo, Pai, Rei, Juiz, Senhor, Soberano, Criador do Céu e da Terra, Omnipotente. Devemos portanto desconstruir estas imagens, porque estão associadas ao poder dos homens e geram atitudes de submissão e dependência, não fomentando uma relação interpessoal.

Criação de alunos do Colégio Sagrado Coração de Maria (Lisboa) para o encontro “Também somos Terra”, Almada, 2018. Fotografia © Miguel Veiga
Ora, nós sabemos (se algum teólogo me ler, faça o favor de me corrigir), que o Deus bíblico tem muitas características femininas. É por isso, que eu fui ficando atenta. Dizia o Papa Francisco: “Deus ama cada um de nós «como um pai e como uma mãe»: para recordar isto, sugeriu a imagem daquela flor delicada, chamada precisamente «não-me-esqueças» que na Argentina se oferece às mães no dia da sua festa” (L’Osservatore Romano, edição em português, 29 de março de 2018).
Com esta e outras imagens na mente, faço todos os dias a leitura do 7MARGENS e assim me ocorreu fazer um comentário, sem querer de forma alguma ser inconveniente ou abusiva:
Presumo que são os autores que escrevem os títulos e que os editores não queiram alterar. No entanto, gostaria de vos pôr perante aquilo que, no meu humilde entender, é, embora pareça inofensivo, uma inocente distorção das palavras do Papa Francisco, que foram:
1. «LAUDATO SI’, mi’ Signore – Louvado sejas, meu Senhor», cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços: «Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras».[1]
2. Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que «geme e sofre as dores do parto» (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.” (Laudato Si’).
Neste pequeno texto, incluindo nas palavras de São Francisco e nas do Papa, há cerca de 10 referências à terra ou outros termos femininos. O termo masculino planeta é referido uma única vez.
No entanto, as crónicas que surgiram no contexto da Laudato Si’, incluíam sempre o termo “planeta” no seu título, e pelo menos eu nunca vi os termos “terra” ou “casa comum” no título, por exemplo.
Sei que não tem nada de intencional. Era só para vos mostrar como é que vão promovendo o patriarcado em pleno século XXI.
[1] Cantico delle creature: Fonti Francescane, 263.
Maria Aldina Brás é geneticista médica e professora aposentada da UNL.









