Assinalam-se nesta quinta-feira, 13, doze anos da eleição de Jorge Mario Bergoglio como Papa Francisco. E na sexta-feira, 14, completa-se um mês de internamento hospitalar, com a notícia desta semana de que o estado de saúde do Papa já não é crítico. Seria por isso despropositado estar a fazer balanços prematuros do pontificado, como se este tivesse terminado.
Não é o caso. Pelo contrário, sente-se a falta da voz do Papa na tensa e complexa situação mundial, como recordava há dias, em entrevista à Ecclesia e Renascença, o padre Jorge Teixeira da Cunha, professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Do hospital, durante este mês, chegaram mensagens várias sobre as múltiplas guerras (vista de lá, “a guerra parece ainda mais absurda”, dizia o Papa no dia 2), propostas de meditação sobre as “poeiras tóxicas” e a fragilidade que atinge a vida social e política contemporânea, ou sugestões de renovação da Igreja, mesmo a partir da liturgia, que deve ser uma escola de espiritualidade e serviço.
Com Francisco nas suas condições normais de saúde (mesmo sabendo que essa ‘normalidade’ traduzia já várias fragilidades, sobretudo na locomoção), a sua palavra teria sido mais frequente, mais intensa e mais presente em relação a diferentes realidades. Num momento em que vivemos uma absoluta desregulação das relações internacionais, provocada por uma administração dos Estados Unidos que entende o governo de um país como um exercício narcisista e dedicado aos negócios; quando ouvimos os líderes europeus a propor como único caminho de fuga o rearmamento e o aumento da despesa militar (como se alguma vez a guerra fosse solução para algum problema); quando vemos a China, a Rússia e os Estados Unidos a repartirem entre si zonas de influência imperial; quando uma nova crise política em Portugal traduz o baixo grau de exigência ética de alguns membros proeminentes da classe política (e mediática) – sentimos que a voz assertiva do Papa sobre a responsabilidade política pelo bem comum da humanidade e dos povos está a fazer-nos falta.
Mas também se sente a falta da voz do Papa na exigência à sua Igreja de uma reforma mais consequente com o Evangelho e com a tradição dos grandes místicos do cristianismo, para os quais oração e compromisso permanente no serviço às pessoas vão a par. Inácio de Loiola, fundador dos jesuítas, pedia aos cristãos que fossem contemplativos na acção, Francisco de Assis unia a busca pela justiça ao amor pela natureza criada e à oração, o irmão Roger de Taizé falava de luta e contemplação. Este Papa liga a imperiosa necessidade de paz, da fraternidade humana e do cuidado da casa comum à misericórdia de Deus e à imensa alegria do Evangelho.
Sentimos a falta da sua voz assertiva não só para a Igreja mas também como líder global. Não esquecemos quantas vezes a elevou para defender os migrantes e denunciar os muros que contra eles se levantam um pouco por todo o mundo. Quantas vezes correu o risco de desagradar a todos para dar espaço aos caminhos da paz. Ou implorando pela misericórdia e pela fraternidade em plena pandemia que nos isolou. Nem esquecemos o seu recorrente empenho no diálogo com outras religiões em prol da paz mundial e da convivência comum. Não esquecemos quantas vezes a sua voz foi eco do grito dos povos esquecidos e dos perseguidos pelos dramas da fome, da guerra, da exclusão, da repressão e dos desastres climáticos.
Sentimos a falta da sua voz assertiva. Mas não a esquecemos quando, acompanhada de tantos gestos, se fez vigorosa contra o clericalismo que impede a sinodalidade, contra a resistência eclesial a sair de portas para ir até às periferias mais afastadas e todos acolher com um olhar amoroso próprio de Jesus Cristo, fundamento da missão da Igreja que o Papa lidera.
Em datas como estas, é importante perceber que há vozes que nos fazem falta. Francisco é, sem dúvida, uma delas. Que ela (nos) regresse.
António Marujo, Clara Raimundo, Eduardo Jorge Madureira, José Centeio, Jorge Wemans e Manuel Pinto
(Foto de destaque: O Papa Francisco na Penitenciária de Rebibbia, em Roma, em Dezembro. Foto retirada do vídeo da transmissão do Vatican News.)










