
Padre Sebastião Cruz, que morreu em 1996, acusado de abusos sobre várias vítimas na Casa Elísio de Moura. Imagem da reportagem exibida pela SIC em 26 Setembro 2024, da autoria do jornalista Pedro Coelho.
Num dos depoimentos, ouve-se o testemunho de Olinda Soares, uma das vítimas de abuso na Casa de Infância Elísio de Moura: “Para mim era a primeira vez que eu estava em lençóis. Lençóis branquinhos que tinha uma cama, uma cama de ferro, uma cama para mim era muito bonita e eu não dormia numa cama bonita. Venho de uma família muito humilde. Nós tínhamos cobertores diretamente sobre a pele… E ali eu tinha lençóis.”
Olinda Soares é uma das vozes que dá rosto à reportagem As Pupilas, da autoria do jornalista Pedro Coelho, cuja primeira parte passa na noite desta quinta-feira, 26 de Setembro, na SIC. As outras são Sandra, Rosa, Fátima e Sónia (nome fictício), as vozes que deram a cara por uma situação que já levou à criação de grupos fechados no Facebook, aos quais o jornalista teve acesso.
Nascida em Barcelos, num tempo e num meio dominado pela pobreza, Olinda foi enviada pela mãe para Coimbra em 1966, quando tinha sete anos. A Casa de Infância Elísio de Moura era gerida pelas Irmãs do Amor de Deus e tinha, desde a sua génese, em 1836, uma ligação directa à Universidade de Coimbra, como lembra a reportagem, já que a sua direcção era sempre assumida por professores daquela instituição académica – como o próprio Elísio de Moura.
O trajecto de Olinda tinha semelhanças com o de muitas outras crianças. Uma das outras vítimas dirá que a família não “dava protecção nenhuma”, por isso iam para aquela casa.
Em dois episódios (o segundo será exibido na quinta-feira dia 3 de Outubro), a reportagem percorre a história da casa, do psiquiatra Elísio de Moura que deu nome à casa e era tratado por “paizinho” pelas alunas ali internadas, do papel da Universidade de Coimbra, e das vítimas de abusos que terão sido cometidos pelo padre Sebastião Cruz, que morreu em 1996.
“Eu não me confessei mais depois desse episódio e fui fazer a comunhão. E na comunhão, quando o vi a fazer a cerimónia, eu urinei-me toda com medo”, conta Olinda noutro passo da reportagem. “O que é que pode ter provocado tanto medo a uma criança?… O que é que a minha cabeça guardou aqui dentro? O que é que a minha cabeça não quer que eu sinta outra vez?”, pergunta. O segundo episódio tratará do papel das religiosas que gerem a instituição.
A reportagem abordará também, diz o jornalista, o papel das irmãs a quem a gestão da casa foi entregue e da Conferência Episcopal e do Grupo Vita, na questão da gestão do processo das indemnizações. E dará voz ainda ao descontentamento de Ana Nunes de Almeida, que integrou a Comissão Independente que estudou os abusos sexuais na Igreja Católica em Portugal.
A mesma instituição já esteve no centro de uma curta reportagem da jornalista Ana Luísa Rodrigues, que passou no Telejornal em Dezembro de 2022 e que pode ser vista no site da RTP.










