Testemunho de uma vítima

Abusos sexuais: “Como é que eu ainda sou católico?”

| 2 Jul 2022

Na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que decorreu quinta-feira, 30 de junho, em Lisboa, foram lidos três testemunhos de vítimas de abusos, cujo anonimato foi mantido. Depois de ter divulgado os testemunhos de um homem que se dirigia ao seu abusador, e de uma mulher que, quando contou a história a um bispo, sentiu que não acreditavam nela, este terceiro testemunho é de um homem de 46 anos, que diz que não lhe custa dar este depoimento. “Violento foi o que aconteceu. Falar disto é como ensopar uma esponja que limpa e absorve a porcaria e pelo menos melhora sempre a superfície.” O título é da responsabilidade do 7MARGENS.

abusos sexuais menores foto dr

 

Sou um homem adulto de 46 anos. Escrevo este texto, que é pequeno, apenas para contar em resumo o que me aconteceu e também porque desde já peço a todos que passaram pelo mesmo que não tenham medo, que falem e que assim se ajudem a si próprios e a outros que, quem sabe, passaram ou podem vir a passar pelo mesmo.

Serei breve: falar disto custa, pois preencher um inquérito é mais fácil. Mas ambas as situações são mesmo muito melhor do que olhar alguém nos olhos e descrever tudo quanto passei, isso tenho dificuldade a 100%. Folhas e folhas e folhas não chegavam para tal. Bebi um Martini antes de começar. Tenho aqui ao lado outro para o final, desculpem-me no detalhe e não façam o mesmo. Aproveito agora, pois não está aqui ninguém em casa. Estou eu apenas e a memória desse homem nojento que, desculpem a minha linguagem profissional, de vez em quando ainda me boicota os circuitos. Ele já morreu, grande estupor, mas tristemente tenho a memória dele em mim e essa não morre. Acreditem, isto não se cura mesmo. É um fusível que às vezes está off, outras vezes dispara e está em on. Lixado, acreditem…

Sou engenheiro de profissão. Considero-me uma pessoa normal. Casado e com dois filhos, agora os dois na mudança para a adolescência. Se alguém me vir na rua nunca dirá assim: “Olha, ali vai outro gajo que foi abusado por um padre!” Mas isso pouco importa, o meu drama são os meus pensamentos desde que aquilo aconteceu e mais tarde – e essa é que me custa admitir – voltou ainda a acontecer outra vez. Não posso estar com mais rodriguinhos, pediram-me se aceitava dar um depoimento curto ou se isso era violento para mim. Não é, pois que violento foi o que aconteceu. Falar disto é como ensopar uma esponja que limpa e absorve a porcaria e pelo menos melhora sempre a superfície.

Vou direto lá. Eu tinha 12 anos, acho que quase 13. Andava numa escola católica em Lisboa. Adorava e ainda a adoro, ótimas recordações. Magoei-me uma vez no recreio e mandaram-me ir à enfermaria onde havia um padre que fazia missão de enfermeiro. Era preciso despir-me da cintura para baixo, pareceu-me super natural, estava ali a ferida por baixo, mas não tardou muito.

Agora vou ser rápido porque quero esquecer. Lembro-me das mãos dele a entrarem nas minhas boxers. Ele a tocar-me e a fazer movimentos ali para me excitar e eu quieto de medo. Só sentia frio e a boca toda seca. Pôs-me em ereção e dizia que era muito grande para a idade. Quis saber se eu sabia que tocar ali era pecado, mas como estava frio ali estaria sempre bom para nos aquecermos, disse em plural. Depois terminou. Conseguiu de mim o que se calhar ele queria, uma ejaculação minha e a vergonha de eu sair dali todo sujo, o cheiro a notar-se imenso, não fui mais às aulas nesse dia. Ele limpou as mãos com o álcool.

Eu? Eu só queria era esconder-me, fugir, estava a morrer de vergonha. Iam notar em casa que tinha sujado a minha roupa interior, o meu irmão mais velho ia de certeza chatear e gozar-me, então lavei a sozinho, o que foi muito pior porque a minha Mãe achou estranho. Mais tarde, tudo se repetiu outra vez. Como foi possível, como, caramba? Entre o sangue e a dor da ferida e o medo de que tudo se repetisse, ainda tive fé. Mas enganei-me. Era católico quando tudo isto aconteceu e a grande pergunta que ainda faço a mim mesmo e para a qual fico sempre com a boca seca e sem qualquer tipo de resposta para ela, é a seguinte: como é que eu ainda sou católico? Fé em quem? Porquê?

Porque dei o meu testemunho? É fácil de perceber. Porque quero que outros o façam também? Nem vou responder, deixo à vossa consciência e é claro. Só uma pista: eu também pensei muitos anos, muitos anos, que fui o único. Juro-vos, é inacreditável. Era mesmo infantil, como foi possível?

Obrigado por me ouvirem e por favor, isso não, não fiquem com pena de mim. Segui em frente, não apaguei, mas segui e por favor a vocês todos que também podem ter sido vítimas, por favor, sigam com as vossas vidas em diante.

 

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