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À Margem_Manuel Pinto

Acabar com a guerra… para sempre

| 17/10/2024

À Margem_Manuel Pinto

A guerra desencadeada pelo governo de Israel contra a Faixa de Gaza, mas também na Cisjordânia e, por estes dias, no Líbano, destina-se a eliminar a ameaça do Hamas ou do Hezbollah, mas cada dia se torna mais evidente que ela visa o extermínio dos palestinianos.

Os setores mais radicais assumem esse objetivo sem titubear, a começar pelo ministro da Defesa. Mas bastaria prestar atenção ao que se passa no terreno para verificar que a morte indiscriminada de civis, estejam eles onde estiverem, não constitui empecilho para os bombardeamentos. Os reféns há muito tempo que deixaram de ser problema. Se tiverem de morrer, serão sacrificados. Mas uma tendência denunciada por profissionais de saúde dá bem o sinal da vontade de extermínio: o número e a regularidade com que lhes chegam crianças baleadas na cabeça, em ações militares ou paramilitares que as tomam como alvo.

Um outro sinal da política genocida é o corte radical de autorizações de abastecimento humanitário, que atingiram, nos últimos meses, níveis que só podem pretender levar a população civil a morrer à fome ou a sucumbir por doenças em cascata. Cada palestiniano tornou-se num potencial inimigo e o inimigo é para abater.

Perante as decisões dos tribunais internacionais e os apelos das Nações Unidas, das ONG, dos líderes religiosos e da grande maioria dos países, as autoridades israelitas prosseguem a sua ofensiva como se o ataque hediondo, mas localizado no tempo e no espaço, como foi o de 7 de outubro, pudesse dar carta branca para atrocidades de um horror, uma extensão e uma desproporção tais que os judeus e israelitas deveriam ser os primeiros a recusar.

A guerra na Terra Santa continua a fazer vítimas de ambos os lados. Foto © Wafa/Wikimedia Commons

É cada vez maior o número e a regularidade com que chegam aos hospitais crianças baleadas na cabeça, em ações militares ou paramilitares que as tomam como alvo na Faixa de Gaza. Foto © Wafa/Wikimedia Commons

É preciso dizer que esta arrogância perante o mundo só existe porque Israel tem beneficiado de cobertura e solidariedade da parte de alguns países, particularmente dos Estados Unidos da América e, também de alguns países europeus, do ponto de vista militar e político.

No caso dos Estados Unidos da América, onde nomes importantes da cena política se contam entre os que recebem vultuosos donativos por parte de organizações judaicas, começa a ser inaceitável e inquietante o apoio que vem dando a Benjamin Natanyahu, misturado com pedidos, apelos e pressões, cada qual mais inconsequente.

No momento em que escrevo, é conhecido o teor de mais uma carta de dois governantes estadunidenses, datada de 13 deste mês, em que apelam aos ministros da Defesa e dos Assuntos Estratégicos do Governo de Israel para que cumpram mínimos razoáveis quanto à chegada de ajuda humanitária em Gaza, entre outras medidas, sob risco de os acordos de fornecimento de armas poderem ser postos em causa. Não fossem outras cartas análogas, mas inconsequentes, enviadas nos últimos meses, e poder-se-ia ver nesta um sinal de esperança. E no entanto, com uma situação de extrema urgência em múltiplas frentes como é a que se vive, nomeadamente em Gaza e na Cisjordânia, os Estados Unidos dão 30 dias para Israel tomar as medidas que lhe são indicadas. Acresce que o fim do prazo cai além da eleição presidencial de 4 de novembro, que pode alterar significativamente o atual estado de coisas, conforme os resultados que vierem a verificar-se.

O cinismo e o jogo de interesses que caracteriza as relações internacionais precisa de ser denunciado e combatido. O parar da guerra e o caminho da negociação têm de ser exigidos como caminho de defesa de vidas inocentes, tirando consequências do seu incumprimento. Nós, que já nos cansamos de ver sempre as mesmas imagens e as mesmas cenas de morte e de terror, temos de exigir dos governos (e dos deputados europeus que nos representam) que tomem as medidas mais adequadas para acabar com as guerras, já que, como diz o Papa e dizem também estudiosos dos conflitos violentos, com a paz pode-se criar condições de superação dos conflitos, ao passo que, com a guerra todos perdem (com exceção dos fabricantes de armamento).

Mas se parar as guerras e conseguir a paz com justiça é uma tarefa necessária e urgente, isso não é suficiente. É preciso voltar a inscrever nas agendas públicas formas de desenvolver e concretizar culturas de paz, formas não violentas de enfrentar e resolver os conflitos a todos os níveis da vida social, desde as relações interpessoais às relações de grupos e comunidades e às relações entre estados e organismos internacionais.

É verdade que esse é um sonho antigo, enunciado por filósofos e sábios, que viram muito cedo a irracionalidade e mesmo a loucura que há na violência e na guerra. Esse sonho deve ser redescoberto e trazido para as famílias, para as comunidades locais, para as associações, para os programas e ação políticos.

Construir projetos, agendas e práticas de paz não tem de se abordar apenas pela negativa – aqueles e aquelas que não querem a guerra. Trata-se, pelo contrário, de afirmar a aprendizagem da convivência dos diferentes, do diálogo, do lidar com as tensões, contradições e conflitos, aprender a empatia, a atenção e o cuidado. Para que todas e todos tenham o seu espaço, a sua voz, o reconhecimento da sua dignidade.

Neste sentido, deixem-me sinalizar, neste esboço de caminho, dois acontecimentos recentes. O primeiro, noticiado aqui no 7MARGENS, foi a constituição de um Instituto Internacional para a Não Violência Ativa, uma iniciativa da Pax Christi internacional, a que a vice-presidente em Portugal aqui deu eco e fez referência.

Novo instituto em Roma para formar católicos na não-violência ativa

A não-violência ativa “é um estilo de vida, uma força positiva e poderosa para a mudança social e um meio de construir uma comunidade global empenhada no bem-estar de todos”, segundo aquele Instituto.

O outro foi a visão de futuro que está presente na atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2024 ao Hibakusha, uma organização composta por sobreviventes das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, “pelos seus esforços em favor de um mundo sem armas nucleares e por ter demonstrado, através de testemunhos, que as armas nucleares nunca mais deveriam ser utilizadas”.

Os caminhos da paz são múltiplos. Cabe a cada um(a) inventar o seu e percorrê-lo.

 

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