“Acreditar num Deus que é relação é, ainda hoje, um dos grandes desafios do cristianismo” e é, ao mesmo tempo, a maior “crítica que o cristianismo pode aportar à sociedade atual”, confrontando “uma cultura muito focada no indivíduo, no individualismo, numa competição a todo o custo pela vitória de um só”, pois a Trindade “é a afirmação de que a glória, a grandeza, a perfeição estão na comunhão, na relação, na intercomunicação”. São palavras do padre Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e especialista em estudos patrísticos, na segunda parte da entrevista ao 7MARGENS a propósito do Primeiro Concílio Ecuménico de Niceia, de que se celebram a 20 de maio os 1.700 anos. [A primeira parte da entrevista pode ser lida na ligação a seguir.]

7MARGENS – Os debates cristológicos em Alexandria e outras cidades, por volta do ano 320, mobilizavam as pessoas comuns, ou eram apenas discussões entre bispos?
P. ISIDRO LAMELAS – Sim, o debate envolvia o cristão comum. Naqueles tempos as pessoas participavam mais e, portanto, acompanhavam os debates. E não era só pela popularidade da teologia. É verdade que os cristãos tinham tempo para ouvir e por vezes as homilias eram longuíssimas. Temos homilias de São João Crisóstomo [c. 347-407], de Santo Agostinho [354-430], que são verdadeiros tratados de teologia de uma ou duas horas… e as pessoas ficavam ali a ouvir. Portanto, tinham alguma formação, mesmo sendo analfabetos. Mas a questão fundamental, a razão para esta participação nos debates, era a noção vinda das catequeses de que, por exemplo, acreditar que Deus é uma mónade, um só no sentido de solitário, individual e autossuficiente, em que não é admissível uma relação com o outro, tem implicações muito concretas na vida social, na vida pessoal, na vida familiar.
Pelo contrário, acreditar num Deus que é relação é, ainda hoje, um dos grandes desafios do cristianismo. A crítica que o cristianismo pode aportar à sociedade atual é precisamente essa de confrontar uma cultura muito focada no indivíduo, no individualismo, numa competição a todo o custo pela vitória de um só… porque à meta só pode chegar um. Falar do mistério da Trindade é, ao contrário, afirmar que a glória, a grandeza, a perfeição estão na comunhão, na relação, na intercomunicação.
7M – E esse é o Deus cristão…
Ele é um Deus que partilha, que se dá todo, que se comunica totalmente, na sua paternidade comunica tudo aquilo que é; logo, o Filho, não sendo nunca igual, no sentido de que não se confunde com o Pai, é tudo o que o Pai lhe dá, porque Deus não dá aos bocadinhos.
As tendências a que hoje começamos outra vez a assistir no mundo da política, com afirmações teocráticas, monocráticas, muitas vezes usam a religião, até usam outra vez o nome de Deus, procurando suporte numa ‘teologia’ monárquica que, logo no despontar do nazismo alemão, foi contestada exatamente com recurso à Trindade afirmada em Niceia. Porque a melhor imagem da democracia é essa afirmação de um Deus que é três pessoas, que se distinguem totalmente sem deixar de serem totalmente iguais. Isto é, uma não diminui a outra, nem a glória de uma ofusca a glória da outra. É um exemplo de alguma consequência!
Além disso, se Aquele que assumiu a condição humana não é totalmente Deus igual à glória do Pai, nós estamos perdidos na mesma, porque a nossa condição perecível continua perecível. Se não é Deus, não nos vai salvar, não nos pode salvar. Aqui percebemos a ligação entre teologia e destino da humanidade.

Hildegarda de Bingen, Santíssima Trindade: “Alguns estudiosos dizem que o Espírito Santo foi o grande esquecido, sobretudo no Ocidente.” Ilustração no livro Cânticos de Rothschild f.75r
7M – O que se debatia em Niceia tinha mais consequências sobre a conceção de homem e do seu destino do que sobre Deus, que continuaria a ser quem sempre foi… Contudo, este primeiro Concílio vai ainda precisar de outros para se chegar à redação do Credo que hoje professamos mais vulgarmente, sobretudo no que toca ao Espírito Santo…
O caminho iniciado em Niceia aponta e completa-se no primeiro Concílio de Constantinopla, em 381. Os credos, as fórmulas que são sínteses, são puzzles, são um resumo. Não está lá tudo. Está o essencial sobre tudo aquilo que foi colocado em discussão. O dogma, como nós o entendemos, não é todo o cristianismo, nem toda a fé cristã, porque evoluiu a partir da discussão, dos debates, da oposição às heresias. E o evoluir da discussão à volta do Espírito Santo é muito curioso.
O Espírito Santo, esse esquecido?
Alguns estudiosos até dizem que o Espírito Santo, sobretudo no Ocidente, foi o grande esquecido. Não é bem assim, pois já Santo Ireneu [130–202] e outros antes dele, como Santo Inácio de Antioquia [c.33–c. 105], já falam dessa fé trinitária. E os cristãos sempre foram batizados em nome do Pai, do Filho do Espírito Santo. Isso estava claro. A necessidade de uma explicação sobre o Espírito Santo, digamos, teológica, filosófica, dogmática, só se colocou mais tarde, precisamente por derivação da onda ariana, herdeira do arianismo, que conclui: se o Filho não é igual a Deus, então o Espírito Santo, obviamente, também não o é.
Foram precisas mais umas décadas de discussão, de reflexão, para se dizer que, porque a nossa fé é trinitária, o Espírito Santo também é Deus, é igual a Deus, é digno da mesma glória e do mesmo culto, embora sendo distinto. Então, sobretudo a partir do ano 360, começaram-se a assinalar quais são essas notas distintivas. Santo Atanásio é o primeiro que escreve umas cartas onde define a mesma teologia para o Espírito Santo por analogia com a que tinha defendido para o Filho. No primeiro Concílio de Constantinopla vai-se, sobretudo, desenvolver esse último artigo [“Creio no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele falou pelos profetas”] que nós hoje no Credo rezamos, como o Credo Niceno-Constantinoplitano, de uma forma mais completa, porque o Credo de Niceia acaba com aquela frase muito simples, que era o que estava nas fórmulas anteriores, “Creio no Espírito Santo”.
7M – Mas já antes existiam sínteses de fé…
Sim, já antes havia credos, por exemplo, em Cesareia e em Jerusalém, que desenvolviam esse artigo relativo ao Espírito Santo. Citei Santo Ireneu que tem fórmulas de fé, ditas ‘Regras da Fé’, que desenvolvem os três artigos [Pai, Filho e Espírito Santo], não de uma forma igual, dado que a parte cristológica é sempre a mais extensa, precisamente porque foi sempre a mais discutida contra os que sublinhavam de tal maneira a dimensão humana que esqueciam a divina, e os outros que sublinhavam de tal modo a dimensão divina que desvalorizavam a humana.
Voltando à atualidade, há quem diga que hoje vivemos numa cultura um bocadinho neo-ariana, tendemos a valorizar sobretudo a dimensão humana de Cristo, separando-a da dimensão divina.

Ícone representando Constantino e vários bispos com o Credo adoptado em 381 no Concílio de Constantinopla, 56 anos pós-Niceia; lê-se: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra…”
7M – Os confrontos que levaram ao Concílio de Niceia ainda dividem as igrejas de hoje? Temos dificuldade de viver um ecumenismo mais vasto por causa dessas questões?
Niceia é chamado de primeiro concílio ecuménico, não no sentido que nós hoje damos de Igrejas diferentes, Igrejas ortodoxas, católicas, do Ocidente, do Oriente. Naquele contexto, o ecuménico tem a ver com o universal. Ecuménico é o mundo habitado, o mundo que coincidia com o Império Romano, porque não se conheciam outras geografias ou, se conheciam, não as consideravam. Mas é um concílio igualmente importante para a Igreja Latina Romana, como para as Igrejas Orientais, precisamente porque nele se define a fé, e aqui não há diferenciação no que toca ao Credo ou ao dogma.
Prevaleceu a discussão em relação a algumas práticas que distinguiam as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nomeadamente a data da celebração da Páscoa. Há quem diga – estas questões hoje estão outra vez a ser revistas – que este foi o principal ponto de discussão em Niceia. Na perspetiva do imperador, este era “o” assunto. Constantino escreve numa carta, que podemos ler hoje, dirigida às Igrejas de Alexandria, mais ou menos isto: “Essas coisas teóricas, teológicas, guardem-nas lá para dentro, ou então façam como os filósofos, discutam entre escolas, discutam entre vós, não venham para a rua, pois a teologia não deve ir para a rua.”
Estas questões sobre Deus faziam-lhe confusão. Já o preocupava muito mais a questão da fixação da data da Páscoa, que era uma questão de prática pública. Não cabia que um a celebrasse num dia, outro a celebrasse noutro dia. Nessa carta, Constantino dá uma machadada, que depois não foi nada benéfica para o Cristianismo, para a Igreja, porque ele acentua sobretudo a necessidade de distinção de datas com a da Páscoa dos judeus. E instiga os bispos a ponderarem “como é que um cristão pode celebrar a Páscoa, confundindo-se com esses deicidas, esses malvados [o povo judeu]?”. Este discurso nasce num contexto político, mas depois vai enformar o discurso teológico.
Trindade, poder e celibato
Michael Damaskinos, Concílio de Niceia (1591). Mosteiro de Vronitissiou, hoje integrante da Agia Collection, Heraklion (Grécia)
Teologicamente, as questões estão resolvidas no século IV. Mais tarde [século V em diante], voltam sobretudo por causa daquela questão da explicação da proveniência do Espírito Santo, do Pai e do Filho. Mas a dificuldade principal no diálogo entre as Igrejas cristãs do Ocidente e do Oriente radica nas questões pragmáticas, institucionais, que são mais difíceis por razões, culturais, mentais, de poder… e políticas também, porque as Igrejas do Oriente estão mais condicionadas pelos seus compromissos políticos.
7M – Além de dirimir questões teológicas e, sobretudo, cristológicas, o Concílio de Niceia aprovou decretos disciplinares que organizaram a Igreja à semelhança da organização do império: as províncias eclesiásticas passam a coincidir com as províncias do império. Que importância tem este decalque da geografia eclesiástica com a geografia imperial?
Nós temos um problema com Niceia relativamente aos documentos e ao seu resultado, ao que se terá discutido, ao que se decidiu, pois, ao contrário dos outros concílios que se lhe seguiram, não temos as atas do Concílio. É estranho, tendo aquela gente que lá estava a noção da importância do momento, não termos as atas. Até o Eusébio de Cesareia, que esteve lá, e Santo Atanásio, que são talvez as duas principais fontes sobre Niceia, fazem uma descrição sumaríssima dos debates, do que ali se passou.
De Nicea temos o credo e 20 cânones, isto é, decisões tomadas sobre questões concretas. Desses 20 cânones, 14 referem-se ao clero, a problemas de ordem disciplinar que existem dentro da Igreja. Dizem respeito aos clérigos que renegaram a fé, aos que abandonam as suas dioceses para se dedicarem a negócios, aos clérigos que introduzem mulheres na sua companhia, etc…. Surge também a tal questão da data da Páscoa. Mas não se abordam muito as questões administrativas.
No que toca aos deveres do clero é curioso ver que o primeiro desses cânones, proíbe absolutamente a autocastração. Niceia proíbe essa prática, numa afirmação clara de que o cristianismo, a ascese, nada tem a ver com a negação do corpo, da sexualidade ou da vida conjugal. No Concílio foi proposto também pela primeira vez o celibato de uma forma definitiva, e há um monge que intervém no sentido de dizer que “o celibato é uma opção de quem quer seguir a vida monástica, os clérigos não têm de estar obrigados a tal”. É outra questão com uma certa atualidade, mas começa aí o debate sobre o celibato dos padres.

Isidro Lamelas: “A teologia hoje vive alheada da vida e nós precisamos que a teologia se torne um assunto de interesse, não só dos crentes, mas que ela seja relevante, tenha uma presença pública Foto © Jorge Wemans/7MARGENS
7M – A 3 de abril deste ano, a Comissão Teológica Internacional divulgou um extenso documento intitulado “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador” em que propõe uma longa reflexão sobre o símbolo saído de Niceia-Constantinopla. Que aspetos deste documento valoriza?
Para ser honesto, tenho de dizer que não estou muito à-vontade para lhe dar uma resposta com algum valor, ou algum crédito. Na verdade, olhei para o documento até mais que uma vez sem o ler no detalhe e completamente. Tenho a ideia que realmente é um documento próprio dessa comissão, que põe os pontos nos is de uma forma até muito detalhada e toca algumas questões focadas no debate do Credo de Niceia e depois dele.
Penso que é um documento muito esclarecedor para quem não tem tempo para ler muitos livros e tem ali uma síntese feita por gente com muitos créditos. Mas fiquei com a ideia que não é um documento para o comum dos leitores, para o comum dos nossos cristãos batizados que não frequentam a teologia ou não leem livros um pouco mais elaborados. Esses dificilmente entendem aquele documento nem percebem a sua atualidade. Suponho que dar a perceber como é que estes assuntos teológicos são fundamentais e continuam a ser importantes hoje, no mundo em que vivemos, deveria também ser o objetivo de um texto destes…
Traduzir Deus na linguagem das pessoas
A teologia hoje vive alheada da vida e nós precisamos que a teologia se torne um assunto de interesse, não só dos crentes, mas que ela seja relevante, tenha uma presença pública. Para isso precisamos de atualizar a sua linguagem… Isto é uma dificuldade imensa, sobretudo no nosso país. Já não se passará o mesmo noutros países. No documento da Comissão Teológica Internacional faltou, ou falta, essa explicitação quanto à relevância do dogma.
Há uns anos, o cardeal Jean Daniélou [1905-1974] escreveu uma obra intitulada Oração como Problema Político, que se tornou um clássico, em que mostra exatamente que tudo o que nós cremos, dizemos, acerca de Deus, tem a ver com a nossa vida. E desde o momento em que nós afastamos Deus da nossa vida, do discurso, da nossa conversa, das nossas preocupações, interrogações e reflexões, temos um problema político. Não apenas um problema religioso, mas um problema político.
Creio que hoje estamos a viver precisamente essa experiência de uma casa sem o dono, precisamente porque Ele não é tido nem achado. E não sendo tido nem achado, começamos também a pôr-nos em causa a nós, humanidade, que somos os habitantes da casa de Deus, a própria experiência humana e o destino da humanidade. Talvez precisássemos de uma coragem maior, no sentido de a Igreja se unir, desse sonho da união, que foi o sonho do próprio mestre, Jesus, o seu grande desejo: “Que todos sejam um”.
O que presidiu ao Concílio de Niceia foi esse sonho da unidade da humanidade, como uma grande família, não unida à volta de um pensamento único, ou de um monolitismo cultural, religioso ou intelectual, mas à volta, precisamente, de um respeito pela diversidade, pela diferença, pela afirmação do múltiplo. O múltiplo pode conviver com a unidade. E, inversamente, a unidade pressupõe a multiplicidade. Portanto, o ideal não é que todos sejamos iguais, é que todos sejamos diferentes, respeitando o que cada um é.

Exposição “Rémiges Cansadas”, de Samuel Silva (Brotéria, Lisboa, julho-setembro 2024), inspirada no poema inédito O País de Deus, de Daniel Faria: “O grande desafio e a dificuldade maior é traduzir Deus numa linguagem e numa experiência que seja a das pessoas.” Foto © António Marujo/7MARGENS
7M – Ou seja, do seu ponto de vista, apesar de dizermos a nossa fé em português, ainda falta traduzi-la para os portugueses de hoje, assim como Niceia traduziu para o grego o Credo dos primeiros cristãos?
É esse o grande desafio e a dificuldade maior: traduzir Deus numa linguagem e numa experiência que seja a das pessoas. Vou dar-lhe um exemplo: há dias, uma pessoa chegou à Universidade Católica, andava lá nos corredores e eu perguntei-lhe: “Procura alguém, precisa de ajuda?” Ele respondeu: “Preciso de alguém, de um professor, de teologia.” E eu voltei a perguntar: “Aqui há vários professores, mas tem algum assunto em particular sobre o qual precise de ajuda?”. Respondeu: “Não, não, o meu assunto é Deus.” E ficámos todos atrapalhados, porque nós estamos habituados a especialidades: um fala de Cristologia, outro fala de Soteriologia, outro de Teologia, outro de Angelologia… Mas falar de Deus é outra coisa!
A teologia, enquanto não for capaz de dar resposta a este tipo de busca, continua a produzir mais uma vez, o que em parte aconteceu depois de Niceia: a barafunda. São Gregório Nazianzo [239-389] fala da “logomaquia”, isto é, nós até falámos e escrevemos muitos e bons livros sobre teologia. Mas trata-se de uma espécie de combate teológico por uma verdade que já não responde a pergunta nenhuma. E esse é, de certo modo, o gueto da teologia que há que superar.
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