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Advento, Natal e Ano Novo

| 15/12/2021

José Franco (1920-2009), Sobreiro, Mafra. Presépio em barro pintado, com S. Francsco e Santa Clara de Assis. 1993

 

Vem aí o Natal. É o que todos sabemos. Um mote mais do que provável, talvez impertinentemente banal e desinteressante. O calendário marca a nossa vida sempre e, nestes momentos cruciais, se se pode dizer isto, marca ainda de forma mais notória. Nós, católicos, devemos ter os nossos corações em festa grande: nasceu Aquele que veio para nos salvar e, por isso, juntamo-nos com as nossas famílias para festejá-lo. Levamos para a comemoração as nossas preocupações; as nossas alegrias; os nossos grandes temas de vida; os nossos sonhos, alguns dos quais tornados realidade ou preparados para ser sonhados noutro qualquer momento, mas não para destruir. Sim, os sonhos do Natal, as magias, as luzes e as surpresas.

Parece que as vidas param e, por isso, há um compasso de espera entre o antes e o depois. 

Termina Dezembro, passa mais um ano e deixamos para trás 365 dias com muitas histórias e muitos arrepios. A pandemia, os confinamentos; as transformações dos convencionais rituais de saudação e todas as implicações que isso acarreta; os isolamentos; os novos receios; as dúvidas sistemáticas; os vulcões em erupção; a eutanásia que passa despercebida, mas passa,… 

O ano novo que chega é invulgarmente um tempo de esperança, de recomeço. Poucas vezes nos lembramos, porque precisamos de gestos simbólicos, que entre o fim do dia 31 de Dezembro e o início do dia 1 de Janeiro bate apenas no relógio mais um segundo. E dá-se o clique. Uns sobem a cadeiras, colocam uma nota na mão, pedem 12 desejos privados ao som das badaladas e das passas que ingerem uma a uma… Fazem-se brindes entre os presentes e telefonemas aos ausentes.

Para além das intenções que transmitimos (saudações, abraços e chamadas), não sabemos bem porque cumprimos certos rituais, mas, objetivamente, estamos a falar de superstições. Na realidade, estas são crenças populares, sem fundamento científico, que passam transgeracionalmente como se de um património de segurança se tratasse. Aquelas a que nos estamos a referir, a propósito do ano novo, não são prejudiciais como outras que incapacitam ou ameaçam, mas é preciso ter maturidade para não ficar em sofrimento se alguma vez temos de as contrariar ou apenas de não as seguir, por acaso ou somente porque sim.

Recordo-me que, antes de chegar a pandemia, estava num lugar exótico na passagem de ano e, de facto, tudo era diferente. A primeira coisa que pensámos foi como devíamos ter levado as nossas uvas passas, mas, em seguida, desfizemos o desconforto ao perceber que aqueles que cumpriam outros rituais, o faziam com tanta convicção e confiança como nós cumpríamos os nossos. Decidimos, pois, em Roma ser romano e, portanto, as boas esperanças que traríamos para o período que se avizinhava seriam fundamentadas nas crenças de outros, tão potentes como as nossas.  

De facto, para nós, fiéis, as superstições deviam apenas ser oportunidades de brincar com liberdade, seguindo e partilhando costumes ancestrais com outros, sem que isso perturbasse de algum modo os nossos corações. 

Na realidade, fé e superstição não são sinónimos. São bem longínquos no seu sentido e, diria mesmo, incompatíveis, pois correspondem a territórios interiores bem distintos. 

Talvez estejamos a precisar de aprofundar o verdadeiro sentido da fé, sob pena de nos tornarmos incoerentes. Não é raro ouvirmos pessoas que se dizem católicas afirmarem que são supersticiosas e assumirem isso como algo que as caracteriza – “eu sou assim” – e que as desmobiliza de querer mudar. 

Não somos perfeitos e as nossas imperfeições fazem de nós seres humanos, assim dito, normais, com muito para trabalhar, muito para trazer à partilha, muito para crescer. Por esta razão, e porque, como se ouve na cantiga de Joan Manuel Serrat, Caminante no hay camino. Se hace camino al andar, vamos passando de uns patamares para outros, até chegarmos aos degraus nos quais a vida nos surpreende e nos encanta, não apenas pelas pequenas maravilhas que nos oferece, mas porque nós já atingimos a capacidade de acolher o bom, o bem e o belo, simples, sem deles duvidarmos.

Grandes são os desafios deste tempo de Advento, do tempo de Natal e do ano novo. Não, não precisamos de crenças infantis nem de crendices; não precisamos de conteúdos de pensamento que nos assombrem ou nos ativem fortemente os medos; não precisamos de notícias que nos desesperem e nos roubem aquilo que faz falta para continuar a viver numa lógica de missão; não precisamos de obstáculos suplementares que tenhamos de estar sempre a contornar. 

Temos, isso sim, falta de gente que conta e apenas se dedica; falta de nós próprios quando andamos distraídos com ocupações supérfluas; falta de amor e de coragem de lutar por aquilo em que verdadeira e fundamentadamente acreditamos. 

Precisamos de investir na construção de um mundo que se renova; na edificação de missões que transformem positivamente o nosso ser e o nosso estar com o outro; na fé e na confiança num futuro desensombrado e tranquilo.

Parece que estamos a falar de trivialidades que todos podemos dizer, mas não. Se assim acontecer, a nossa saúde mental terá mais condições para se equilibrar e, desse modo, o nosso bem-estar será fonte para o dos outros que, mais perto ou mais longe de nós, podemos cativar de coração, como nos ensinou a relação do Principezinho e da raposa, de Antoine de Saint-Exupéry.  

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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