
Salomão escrevendo ‘Parabole Salomonis’, miniatura de uma Bíblia conhecida como ‘The Arnstein Bible’ (Harley MS 2799, f. 57V), c. 1172, British Library, Londres. Anónimo, Domínio Público /Wikimedia Commons
No início dum novo ano não adianta gastar tempo a falar das habituais determinações de Ano Novo, que só duram duas ou três semanas… O facto é que passou mais um ano e estamos mais velhos.
Fala-se muito no legado que deixamos aos que ficam quando partimos, seja na vida profissional, académica, familiar, artística, política, social ou espiritual. Afinal, qual é o foco da nossa vida? Em que é que estamos a fazer a diferença?
Há pessoas que gastam a vida de diferentes formas. Por exemplo, na luta pela sobrevivência, tentando fugir à fome e subnutrição, aos efeitos da guerra ou da crise climática, mas também do desemprego e da pobreza.
Outros, porém, gastam a vida na perseguição das riquezas, como este na estória que Jesus contou: “E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância. E arrazoava ele entre si, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens. E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” (Lucas 12:16-21).
Outros, ainda, vivem na procura do prazer pelo prazer, talvez por que desconhecem que o supremo prazer está na comunhão com Deus (Salmo 9:2): “Em ti me alegrarei e saltarei de prazer; cantarei louvores ao teu nome, ó Altíssimo”.
Alguns gastam os seus dias na dedicação a uma causa política ou ideológica, pois querem combater a injustiça e endireitar o mundo, ou apenas defender os interesses pessoais, de classe ou de grupo. Outros fazem até do futebol a sua religião.
E ainda há os que passam a vida na dedicação a fazer mal aos outros, como alertava o profeta Miqueias ao levantar-se contra a injustiça social: “Ai daqueles que nas suas camas intentam a iniquidade, e maquinam o mal; à luz da alva o praticam, porque está no poder da sua mão! E cobiçam campos, e roubam-nos, cobiçam casas, e arrebatam-nas; assim fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança” (2:1,2).
Mas existe uma forma abençoada de viver, que se pode resumir assim: “Amar a Deus, seguir Jesus, viver a vida”. Mas que significado pode ter esta frase?
Amar a Deus
Amar a Deus integra o grande mandamento no qual o mestre Jesus resumiu toda a lei de Moisés. Mas o que significa isso?
Ter sede de Deus: “Ó Deus, tu és o meu Deus, de madrugada te buscarei; a minha alma tem sede de ti; a minha carne te deseja muito em uma terra seca e cansada, onde não há água” (Salmo 63:1-8).
Confiar na Sua benignidade: “Porque a tua benignidade é melhor do que a vida, os meus lábios te louvarão. Assim eu te bendirei enquanto viver; em teu nome levantarei as minhas mãos.”
Buscá-lo e segui-lo de dia e de noite: “A minha alma se fartará, como de tutano e de gordura; e a minha boca te louvará com alegres lábios, Quando me lembrar de ti na minha cama, e meditar em ti nas vigílias da noite. Porque tu tens sido o meu auxílio; então, à sombra das tuas asas me regozijarei. A minha alma te segue de perto; a tua destra me sustenta.”
Seguir Jesus
O “Segue-me!” que Jesus de Nazaré dirigiu aos que viriam a ser os seus primeiros discípulos, implica renúncia, disponibilidade, dedicação, entrega, empenho. No fundo, a alegria de andar com ele.
Viver a vida
Salomão dizia: “Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol. Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Eclesiastes 9:9,10).
Há aqui duas dimensões: trabalhar (“faze-o”) e prazer (“goza a vida”). Mas a ética do trabalho está prevista: “conforme as tuas forças”. Tanto a falta de empenho como o excesso de trabalho são extrapolações dessa ética. Mas também a ética do prazer está prevista: “com a mulher que amas”. Não com qualquer uma, nem de forma desordenada.
O facto é que Deus nos propõe vida “com abundância”: “O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (João 10:10). Mas se essa abundância se verifica apenas na dimensão espiritual, onde fica a abundância, uma vez que não somos anjos (seres unicamente espirituais) mas seres humanos e espirituais em simultâneo?
Qual é o meu foco? Que legado vou deixar às novas gerações? Estarei eu a viver duma forma abençoada e equilibrada? Que este seja o lema do novo ano para os cristãos: “Amar a Deus, seguir Jesus, viver a vida”.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.







