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Uma alfaia esculpida por Asbjørn Andresen

Ana Terceiro-Eu | Anna Self-Third

| 24/10/2024

[Ana Terceiro-Eu no nártex da capela Árvore da Vida © fotografia: Joaquim Félix]

 

Em finais do passado mês julho, no contexto de uma visita aos amigos Asbjørn Andresen e Lisa Sigfridsson, em Hästhagen, no distrito de Dingle, na Suécia, entrámos ― Vítor, Joaquim e Juvenal ― nos respetivos ateliers. Um deles, o da Lisa, era uma antiga escola primária ― onde estudou, por exemplo, Gunnar Eriksson, professor de direção coral na Högskolan för scen och musik, Universidade de Gotemburgo, Academia de Música e Drama, diretor de vários coros e autor de muitos arranjos musicais ― que conserva, na parte superior, a antiga residência de quem ali ensinava. O outro, de Asbjørn, era uma «catedral» de madeira, com silente luz natural e turificada com essências de madeiras e pigmentos naturais. Um privilégio. Quem entra nos ateliers dos artistas, caso tenha essa permissão, mergulha nas profundas águas das criações, no magma incandescente dos pensamentos.

[Ana Terceiro-Eu no atelier de Asbjørn Andresen © fotografia: Joaquim Félix]

 

No contexto de longos diálogos, repassando a vida e as obras ali presentes, Asbjørn Andresen surpreende-nos: «Ofereço ao Seminário Conciliar de Braga a escultura de Ana, com Maria e o Menino. É uma escultura com muitos anos, muitos mesmo. E tal é o seu valor, que não tem preço. Por isso, não pode ser vendida. Ofereço-a, sim, sabendo que vós a cuidareis como algo inestimável, que supera o dinheiro ― tal é a sua impermutabilidade! ―, e pode servir generosamente no contexto da casa de formação que orientais». Estremecendo, ficamos radiantes, agradecidos. Que honra! Dom clamoroso.

Que escultura é esta? Para onde se destina? Enquadrar-se-á bem? Todos estes aspetos foram exigentemente considerados, em diálogo crítico, ponderando possíveis alternativas. Vamos, primeiro, à natureza da obra de arte. Preparando-se já o transporte, e para obter uma leitura mais consistente, segundo a mens auctoris, enviei-lhe o pedido: «Asbjørn, seria possível escrever uma meia página, ou nem tanto, sobre a escultura oferecida?». De pronto, a resposta chegou: «Sim, com certeza. Terei aliás todo o prazer em revelar alguns dos meus pensamentos sobre ela. Serei breve. Contundente».

[Ana Terceiro-Eu no nártex da capela Árvore da Vida © fotografia: Joaquim Félix]

 

Escrito em inglês, o documento tem por título: «Anna Self-Third: a sculpture with a money-box». Convenhamos, a tradução não será assim tão simples. Como traduzir «Self-Third»? Poderia pensar-se que seria um conceito da psicologia, todavia não é. Lido o documento, e rememorando as conversas no atelier, estou persuadido de que se tratará do «terceiro eu». Como assim, neste caso? O «terceiro eu», se bem depreendo, terá que ver com uma ideia associada à fluência e à criatividade. No interior de cada pessoa, existirá um eu que não será de criança, nem tão-pouco de um escravo do relógio ou da agenda. Esse eu será, umas vezes, adventício, e noutras déspota. Mais, este «terceiro eu», que não ama a banalidade nem o ridículo, manifesta-se, por amor ao tempo, com fome de eternidade. Tendo isto em atenção, adiantamos a tradução: «Ana Terceiro-Eu. Uma escultura com mealheiro».

É uma escultura com mealheiro integrado? Nem mais. Já veremos porquê. Antes de revelar os propósitos, consideremos o que ele escreve do seu lastro, que associa à experiência autobiográfica: «Esta escultura surgiu quando eu estava cansado de ser bom apenas em pintura e escultura e procurei temas significativos. Assim, olhei para a minha infância, na escola e na escola dominical. Eu era um miúdo da escola dominical e lia muito. Não há nada que possa ser comparado com as histórias que lá ouvi e li, o novo testamento, a Bíblia toda. É ― sempre foi para mim ― material fantástico para o pensamento, a imaginação e a arte. Eu soube muito cedo que seria um artista».

[Jovem passando diante de Ana Terceiro-Eu no nártex da capela Árvore da Vida © fotografia: Joaquim Félix]

 

Consideremos o nome atribuído e a matéria usada. No atelier, Asbjørn referiu-nos Ana, Maria e o Menino. Melhor, disse-nos que Maria apresentava o neto, seu filho Jesus, a Ana, sua avó. Como reconhecer esta cena tão amável, cheia de espanto? Ora bem, no documento, ele desenvolve a ideia, que se apresenta orgânica e supõe passagens por camadas de possibilidade: «O nome desta escultura é Anna Self-Third (Ana Terceiro-Eu) e é composta por três figuras ― duas crianças em diferentes idades, brincando. Uma delas está a mostrar uma boneca à amiga mais velha, estão a brincar à família. Porém, o que consegues ver nesta pequena cena? A colocação da boneca tem a mesma postura de Jesus ― talvez na cruz ― ou numa postura acolhedora, de braços abertos: Que todas as crianças, venham ter comigo. É fácil perceber isso quando Maria mostra Jesus à sua mãe, Ana. E isso é um convite para deixar a tua imaginação trabalhar em conjunto com o teu conhecimento da Bíblia, com todas as suas camadas de compreensão». Deixemos, pois, a nossa imaginação exercitar-se. Brincando.

Quais terão sido as razões motivacionais ― se é que as há, além da já supramencionada ―, que levaram Asbjørn a conceber a escultura? Sem subterfúgios, ele confessa que foram duas. A primeira, foi esta: «Cuidar das imagens da minha infância, daquilo que ouvi e li na escola e na escola dominical, e ver se seria possível utilizar tudo isso e fazer uma escultura num contexto contemporâneo. Usa também a brincadeira da infância nisso. Brincar é muito importante na vida, a base da arte, por exemplo ― mas no meio da brincadeira também há seriedade, algum tipo de simplicidade, franqueza. Mãe, por favor, olha!». E a mãe olha. Olha atentamente. Os outros também olham. Olhamos todos.

[Mãe, por favor, olha!». E a mãe olha. Olha atentamente. Os outros também olham. Olhamos todos. © fotografia: Joaquim Félix]

 

Embora, de início, possa ser fonte de estranheza, a segunda razão motivacional não é para justificar ― porque, na arte, nada carece de justificação ― o mealheiro. Podemos, porém, aceitar a intenção, a sua mens, que também é mensagem. E, diga-se, nada tem de simonias. Antes, ela, a escultura, pode ser um fresco e invisível lençol freático de caridade. Eis o seu motivo: «Fazer um mealheiro e concebê-lo da mesma forma que tradicionalmente tem sido colocado nas igrejas, para nos lembrar dos menos afortunados que nós. Eu não sou um pregador, de forma alguma, mas sei o que é ser, não pobre, mas viver em condições e circunstâncias bastante simples. Poderá ser um lugar de contemplação da própria situação e de como se pode ajudar alguém pior. É um reflexo de memórias da minha própria infância, onde a prosperidade não era evidente. A questão era se seria possível expor as memórias da infância e fazer uma escultura e, ao mesmo tempo, dar dinheiro – ter estes dois pontos juntos num contexto contemporâneo. É disso que trata esta escultura». Sem dúvida que esta escultura, com este dispositivo, poderá ser uma fonte da caridade ― pela recolha de esmolas, ofertas e contributos penitenciais ― para auxiliar quem vive em dificuldades. E porque, na casa, existe um Fundo para ajudar estudantes carenciados e uma Conferência Vicentina, formada por jovens, que auxilia famílias pobres, pode desenvolver-se o serviço desta escultura com mealheiro. Parafraseando Asbjørn Andresen, seu criador, seria ótimo que o fizesse brincando às famílias que se entreajudam nas carências. Considerada a confluência de altos valores, que não se restringem aos materiais ― mas, em todo o caso, sem os desprezar ―, não poderá ela ser estimada como uma criativa e solicita alfaia da caridade? Claro que pode, dirão os necessitados. Suscite ela o nosso «terceiro eu» que, por amor ao tempo, nutre a fome de eternidade; e, por amor aos pobres, tem sede de caridade.

[Por amor ao tempo, nutre a fome de eternidade; e, por amor aos pobres, tem sede de caridade. © fotografia: Joaquim Félix]

 

Depois de exigentes ponderações, decidiu-se que o seu lugar de implantação será o nártex da capela Árvore da Vida. Receberá a luz da grande chaminé. Fará dela uma lâmpada nessa antecâmara através dos reflexos da madeira com esmaecidas aplicações de brancura. Além do mais, tal posição permitirá rondá-la, andando em volta, como quem explora a riqueza que se oferece a cada detalhe. Mais, em frente, também toda a capela é em madeira. E, nela, encontram-se já ao serviço, como alfaias do lugar, várias obras de arte de Asbjørn Andresen: o sacrário, no tálamo eucarístico; o altar e o ambão; as alfaias litúrgicas, a lamparina em vidro de sopro produzida na Marinha Grande, molas de ferro para a iluminação natural, etc. Ao longo dos últimos anos, apresentei várias delas, nomeadamente nas conferências acima referidas e nos livros Capelas de Braga (Félix de Carvalho 2018) e Do fundo do Cálice (Félix de Carvalho 2022), publicados pela Universidade Católica Editora.

[Tal posição permitirá rondá-la, andando em volta, como quem explora a riqueza que se oferece a cada detalhe. © fotografia: Joaquim Félix]

 

No final do seu breve texto, Asbjørn Andresen reserva uma nota para o material da escultura, a madeira, que, no lugar onde será instalada, é abundante: «Também importante na escultura é o material. A madeira tem uma beleza em si mesma, é um material que é uma grande inspiração para mim, que fui criado com machados e facas. Com toda a simplicidade, estas ferramentas podem alcançar ótimos resultados. Ferramentas simples, mas bem utilizadas e nítida visão de conjunto – é este o meu objetivo para usar em escultura». A simplicidade junta-se à simplicidade. E, nem pela densidade, elas ― a capela com a escultura Ana Terceiro-Eu ― se tornam uma paisagem de complexos. Antes, são como camadas finas da carne do lugar dedicado. Leves e permeáveis, envolvem o mistério, que é ― verdadeira, bondosa e pulcramente ― alfaiado.

[A simplicidade junta-se à simplicidade. © fotografia: Joaquim Félix]

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens.

 

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