
Gravura: Pormenor da Capa do livro Ao Encontro do Silêncio de Alberto Filipe Araújo.
Começando pela epígrafe Ao Encontro do Silêncio surpreende que após outras reflexões sobre Silêncio. Iniciação e Transformação, e expressando já – a muitas vozes – ‘o seu poder’, se regrida à distância que permita estabelecer uma via em direcção a ele, ou seja, ao seu ‘encontro’. Por nexo menos incoativo ou mais fecundo intitular-se-ia antes: O silêncio do Encontro, saindo do circuito repetitivo à roda do Silêncio…, se bem que haja Autores que se repetem até à exaustão como, por exemplo, com Gottlob Fichte e a sua várias vezes reescrita Doutrina da Ciência…
Seria oportunidade reflectir sobre o encontro, que de alguma maneira fica sugerido e implícito naquela dinâmica finalidade do silêncio, porque é nessa experiência, quiçá de comunhão ou até de raro amor que melhor se poderia ensinar (en-signare, “pôr por signos”, “indicar”…) essa ‘guarda do silêncio’, esse simplesmente estar na presença de, seja objectivada num Tu de Alguém, seja mesmo de Ninguém…
Quanto às quatro partes, desiguais também em extensão, que compõem este livro, registam-se as interessantes e sentimentais glosas do diálogo com Sara Maitland (cap. III) e com Gaston Bachelard (cap. IV). Se o falar autobiográfico destes dois testemunhos já é de difícil aceitação, talvez só a sua releitura por Alberto F. Araújo permitiria a distância crítica para diferente hermenêutica.
[Cap. III] Em Sara Maitland no seu Um livro de silêncio (A Book of Silence, e não O Livro do Silêncio, como muito bem se questiona em nota (2, p. 87)) há a salientar os muitos e variados silêncios, não propriamente ‘como uma experiência multifacetada’ (p.89), mas, desde logo, como a plural expressão de estados mentais, sobretudo psicológicos e culturais variados. Donde a ideia de silêncio e todas as suas glosas sejam pretexto de um peregrinar interior por todas as paisagens de alma, elencadas como tipos de silêncio que se consideram integradores da personalidade.
A análise feita salienta sempre o andamento luminoso desta experiência, mesmo quando se refere o silêncio como o buraco negro…, sendo assim motivo para indicar o ‘silêncio como aprendizagem’, ainda que num quadro meramente fenomenológico (até atmosférico… e bastante exteriorizado) e não problematiza o trânsito entre o pelicular dessa vivência e logo a representação da morte como ‘único silêncio’… O passar em revisão os ‘lugares do silêncio’ (voo, ilhas, floresta, deserto, montanha, mergulho no mais profundo, e buraco negro) confirmam aquela fenomenologia, até um tanto empirista, tão só metafórica.
Parece muito adequada a indagação acerca dos ‘imaginários do silêncio’, não apenas a partir do registo antropológico de G. Durand, etc., mas tendo em conta que toda a autobiografia que fala do silêncio exprime assim a fantasia dos seus sonhos, do seu imaginário, quiçá do seu imaginal… Todavia salda-se esse itinerário de motivos ‘silenciosos’ num romantismo, seja assim por autonomásia, seja projectado em termos religiosos, eremíticos… e na conclusão precipitada de se tratar de uma ‘experiência espiritual (?) multifacetada’ (p. 124)
Diríamos tratar-se apenas de uma experiência psicológica, reflectida em vários registos imaginários, um pouco à semelhança do que se terá dado com Dalila Pereira da Costa, numa análoga presumida ‘experiência mística’, depois pensada e interpretada até numa filosofia estética… Casos de mulheres muito sensíveis e que ao serem tocadas por certo estado holístico – também de ‘tipo histérico’ – procuram uma ‘psicanálise’ sui generis…

” (…) pretende-se fazer do silêncio a mediação entre o sonho e o pensamento, sem se interrogar – além de sonhar sonhos ou pensar pensamentos – porque é que sonhar o pensar é diferente de pensar o sonho?.” Pintura: Madalena penitente de Georges de La Tour (1640). / Wikipedia
[Cap. IV] Quanto ao belo texto de Gaston Bachelard, La flamme d’une chandelle, o Autor desta releitura faz transitar o âmbito da solidão para o do silêncio, procurando ‘conceptualizar o silêncio’ e sublinhar quanto o silêncio contribui para ‘densificar o pensamento’ (p. 129) propósitos estes que parecem – formulados deste modo – ao arrepio da rêverie bachelardiana. De facto, pretende-se fazer do silêncio a mediação entre o sonho e o pensamento, sem se interrogar – além de sonhar sonhos ou pensar pensamentos – porque é que sonhar o pensar é diferente de pensar o sonho?… E não há silêncio que valha para aquela solitária condição do preciso imaginário da chama, sem necessário ‘pensamento sobre Ela’…
Na chama centra-se o espaço e concentra-se um olhar visionário daquela solidão solidária poeticamente dita na prosa de Bachelard. Um rever-se nessa luz – singular cogito do sonhador – comunga tão só a sua lucidez e confessa ‘re-velando’, na metáfora vertical, ascensional, um despertar: ‘pelos olhos e pela alma’ (cit. p.137). A poética de Bachelard é singular aqui, e singularizante do momento criativo.
Porém, saltar para “o milagre que se espera da chama cintilante”… é moralizar aquela pura poética, sobretudo quando “se espera que ela contribua para que o silêncio interior se torne o húmus florescente de ideias e estas façam, por sua vez, … estremecer todo aquele que ousa pensar.” (p.139) Está em causa, outrossim, uma primeira imagem, uma in-fância, uma solidão assim sonhada a despeito de contribuição sequer para ‘estudar e pensar’… (p. 147).
E haverá aqui uma religiosidade?… Antes a poética de um trabalho intelectual quiçá na linha de Lavelle, ou em contraponto com Bergson…, valorizando o estudo, o processo epistémico, antes do pensar intuitivo, ou na alternância entre saber e sonhar.
[Cap. II] Quanto ao nexo do Silêncio Interior à Palavra Iniciática em termos de uma Pedagogia do Retiro:
Circunscreve-se: “Uma pedagogia do retiro consiste numa iniciação ao recolhimento em espaços solitários (…)” (p.71) Lugares protegidos, onde se dê o silêncio, a meditação, também a ascese… “A meditação procura ultrapassar, mediante uma vivência comprometida o estágio da mente para atingir níveis superiores da consciência…” (p. 72)

“A meditação procura ultrapassar, mediante uma vivência comprometida o estágio da mente para atingir níveis superiores da consciência…” Foto © Patrick Schneider | Unsplash
Assim entendida a meditação, de permeio aos outros meios para o retiro, faz-se depender dela a pedagogia que permita o silêncio interior: pedagogia de conversão. A meditação subordina-se, pois, a essa conversão em que ‘a pedagogia do retiro é sinónima da pedagogia do silêncio’ (p.73). Porém, é preciso não esquecer que “pela pedagogia do retiro consubstanciada no par silêncio-Palavra interior acercamo-nos da nossa interioridade e do Outro que se tornará um Próximo, assim como o mundo da vida e a vida da terra se tornarão menos estranhos.” (p.74)
Mas não será já isto mais um propósito, uma expectativa moral, de felicidade fraterna, de ‘ecologia’ do bem…, do que uma pedagogia propriamente dita? E donde é que a Palavra iniciática, o Mestre, a Inspiração… advêm, a despeito do silêncio, do recolhimento, do estilo da vita contemplativa?
E assim como não é óbvio que a palavra que instrua seja coincidente com o silêncio do seu retiro, também a solução dialógica posta em termos de educando e educador apenas evidencia a alteridade irredutível, ainda que fique dito que “o respeito pela alteridade é o caminho directo para a intimidade e a comunidade ontológica de duas consciências.” (p. 77) Como se a dialéctica, assim colocada, não contivesse em si a violência endoutrinadora, como o cepticismo derrotista, e, de repente, se inventasse a esperança que um estado de silêncio pudesse equivaler à intimidade ou à ilusão psicológica de uma compreensão personalística…
Afinal, a pedagogia do retiro antecipa aquela finalidade ‘compreensiva’ reduzindo a meditação silenciosa a um seu meio. Porém, mais do que esta reserva quanto à pedagogia – que de si deveria ser eisagogé, ou ‘iniciação’, e não tal didáctica acerca de expectável mestria – importa valorizar a referência à experiência simbólica, à conversão espiritual de vários níveis…, como a nova linguagem iniciática (Bachelard, Durand, Corbin…).
[Cap. 1] “Do Silêncio como Via Longa”- (em cap. de texto publicado anteriormente e agora remodelado) é aqui que mais se poderão deixar algumas questões, melhor do que nas críticas ao romantismo de Sara Maitland, ou ainda à subjectividade do devaneio bachelardiano, de acordo com as leituras feitas, e mais a propósito do que na Pedagogia do Retiro impondo uma dialéctica da Palavra e do Silêncio, também de Mestre e discípulo, etc. no pedantismo ainda típico dos académicos, etc.
Não que não se esteja ainda sempre nesse jeito ‘pedagógico’ de pretender extrair do silêncio um para quê, e sobretudo, de justificar o seu porquê: Combate ao ‘ruído’ mundano, à sociedade da hiper-comunicação, à alienação mediática, etc. Eis o começo condicionado da reflexão sobre o silêncio, aliás apoiada em lamentos e lugares comuns de intelectuais meramente culturalistas (e. g. Pablo d’Ors, Tolentino Mendonça, ou outros contadores de mitos, utopias e “boas” intenções…)…
Pergunta-se: porquê uma via longa? Será que o silêncio interior se deixa temporalizar em demoras? Não será que justamente a experiência desse estado interior que interrompe a delonga da vida aponta uma intemporalidade: um já lá se estar ou nunca lá se chegar?!… (Donde neste sentido a impossibilidade de qualquer pedagogia; outrossim ‘um aprender a desaprender’, como disse Pessoa.)
Por outro lado, as ‘algumas definições de silêncio’ enfermam justamente das muitas vozes colocadas numa certa discursividade unidimensional que não admite diferentes níveis. Afinal uma fenomenologia ontológica, existencial, remetendo o silêncio interior como um poder variado (espiritual, terapêutico, religioso…) “vital para a vida espiritual e da consciência de todos aqueles e aquelas [!] que atribuem ao pensar, ao meditar e mesmo à contemplação um papel fundamental na sua existência (…).” (p. 37)
Um silêncio assim meio para. Por outro lado, fim: “silêncio ao qual se pode eventualmente chegar mediante uma prática estrita da meditação” (p. 40) E fica-se num círculo: “Se esta [a meditação] conduz ao reino do silêncio interior, correlato do homem interior [será?!…], também este silêncio é importante para que se aceda igualmente à meditação…” (p.40)
Dançam estes conceitos nesta teoria da via longa… “…que o silêncio meditativo [ou interior], não constitui um fim em si mesmo, antes visa atingir, em última instância, a via longa do silêncio interior em ordem à meditação.” (p. 40) E vem também à baila tal meditativo estado como espécie de ascese (p. 41), no esforço de retiro interior, num ‘zen’, até a quietude e a contemplação, ainda como libertação do mero pensamento (p. 43) e, sobretudo, arte da escuta (p.44).
Divergimos deste jogo conceptual sobretudo por se encarar a meditação como uma ‘ruminação’ interior, como um acto que ajude a concentrar-se e a interrogar, etc. (já p.16) e, no fundo, não se interrogar o estatuto próprio do silêncio: é um fenómeno?, um ser ou entidade?, uma subjectividade?, um valor?, ou uma grandeza negativa, um não-ser, a denegação do sujeito, algo perfunctório?…
Também não fica garantida a mais-valia do silêncio até na elevação mística, etc., se não se tiver em conta não apenas a articulação com a Palavra nobre, mas – e porque não? – com a vozearia, o ruído habitual do homo loquens… Por isso, entre os ‘ultrassons’ e os ‘infrassons’ o lugar silencioso melhor ficaria como relatividade, pausa (como dissemos noutro lugar) entre situações bem diversas e comuns. Mística?, sim, talvez apenas a do aqui e agora.
Fechando aqui estas notas, dir-se-á no seu todo um livro muito rico de referências, não só bibliográficas, mas do diálogo que ao longo do texto se mantém. Sob certa perspectiva é como uma obra de florilégio e de síntese, não apenas em relação a estudos anteriores, mas como a tal via longa ao Encontro do Silêncio, sendo a partir de certo jogo conceptual expressivo já não do silêncio, mas de uma demanda interior, psicologicamente sintomática ainda quando pedagogicamente velada…
Anuncia-se próximo livro sobre a eclosão do imaginal em vários níveis da meditação… (como se não houvesse para o académico outro ‘entretenimento’ senão este literário…) – mas sendo desde já de questionar o grande ausente Ao Encontro do Silêncio: o quem faz silêncio, ou medita, ou se recolhe, ou julga isto ou aquilo, e prefere tal ou qual…?
É que são livros excelentes (para quem os leia… até ao oblívio), embora rigorosamente anónimos, ou apenas dependurados do heterónimo académico. Tenho essa experiência curricular, em que o Professor Alberto Filipe Araújo me cita até várias vezes e valoriza a minha reflexão, fazendo-me reconhecer idiota, como o são os pensadores destas inutilidades.
Tudo isto passa. E, se lúcidos, no conhecimento próprio, perceberemos outro destino para o verbo que em nós advém já não como jogo mental, nem como partilha humana, antes em ordem a silenciosos destinatários invisíveis…
Carlos H. do C. Silva, Professor Universitário aposentado.
Textos de Alberto Filipe Araújo sobre o Silêncio publicados no 7MARGENS:









