“Rejeitamos qualquer uso da religião e do nome de Deus para justificar a violência” e “acreditamos que o diálogo inter-religioso autêntico, longe de ser causa de sincretismo e confusão, é essencial para a coexistência de povos de diferentes tradições e culturas”.
As afirmações são destacadas pelo Papa Leão XIV e pelo Patriarca Ecuménico Bartolomeu (ortodoxo), na Declaração Conjunta que este sábado, 29 de novembro, assinaram no palácio patriarcal, em Istambul, também conhecido como Fanar, no penúltimo dia da viagem apostólica do bispo de Roma à Turquia.
O documento assinado começa por salientar que a comemoração dos 1700 anos do I Concílio Ecuménico de Niceia, celebrada no dia anterior, foi “um momento extraordinário de graça”. No entanto, os dois líderes religiosos fazem questão de frisar que a comemoração deste evento não é apenas recordar o acontecimento histórico de Niceia, mas, continuar a “caminhar com firme determinação na via do diálogo, no amor e na verdade”, rumo à “tão esperada restauração da plena comunhão” entre as Igrejas cristãs.
Reconhecendo os obstáculos que se levantam ainda nesse caminho, os dois subscritores afirmam que o que os une “é a fé expressa no Credo de Niceia” e que a comemoração deste importante aniversário “pode inspirar novos e corajosos passos no caminho rumo à unidade”.
Entre esses caminhos, a Declaração refere a procura de uma data comum para a festa maior dos cristãos, a Páscoa e expressa apoio ao trabalho da Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, que “na sua fase atual – observa o texto – está a examinar questões que historicamente têm sido consideradas causas de divisão”.
A meta da unidade entre os cristãos compreende a busca da paz entre todos os povos, um objetivo que se confronta hoje, “tragicamente, em muitas regiões do nosso planeta, conflitos e violência continuam a destruir as vidas de tantas pessoas”. “Embora estejamos profundamente alarmados com a atual situação internacional, não perdemos a esperança. Deus não abandonará a humanidade”, acentuam o Patriarca Bartolomeu e o Papa Leão. Daí que também apelem aos responsáveis civis e políticos para que “façam tudo o que for possível para garantir que a tragédia da guerra cesse imediatamente” e peçam “a todas as pessoas de boa vontade” que apoiem este seu apelo.
O dia deste sábado, véspera da festa de Santo André, padroeiro do Patriarcado de Constantinopla, começou cedo, com uma oração de louvor e prece (Doxologia) de cristãos e ortodoxos, na igreja de S. Jorge. Foi uma oportunidade para escutar os belos hinos e cânticos a várias vozes, em que as liturgias ortodoxas, em geral, se distinguem.
Seguiu-se uma breve visita do Papa à Mesquita Azul, uma das mais significativas de Istanbul. Leão XIV descalçou-se à entrada, como está previsto para todos os que ali entram, e foi guiado pelo presidente dos monumentos religiosos da Turquia, além de outros responsáveis. Ao contrário do que estava previsto, e também diferentemente do que ocorreu nas visitas ao mesmo local, por parte de João Paulo II, de Bento XVI e de Francisco, o Papa Leão XIV não dedicou tempo a rezar. Não foi dada explicação para essa mudança de planos.

Na sexta, dia 28, Papa visitou uma casa de acolhimento para idosos em Istambul, onde alertou para a perda de respeito pelos mais velhos nas sociedades modernas. Foto © Vatican Media, via Agência Ecclesia.
“Transformar espadas em relhas de arados”
O primeiro encontro com os católicos foi, entretanto, a celebração da Eucaristia, que decorreu num espaço (Volkswagen Arena) expressamente cedido pelo presidente da República do país, que se encontrava aparentemente repleto. Os fieis católicos não são mais de 60 mil em toda a vasta Turquia, significando menos de um por cento (0,6) da população, mas deslocaram-se para o encontro com o Papa de diferentes partes do país, incluindo, como salientou o bispo local, os de Antioquia, uma cidade e uma região recentemente muito afetadas por um sismo altamente destruidor.
Na celebração, que antecipou a liturgia do primeiro domingo do Advento, o Papa apelou a “renovar na fé a força do testemunho”, lembrando que “que a alegria do bem é contagiante. Recordou que muitos santos descobriram a fé pelo testemunho de outros: o apostolo Pedro através de André, o qual, por sua vez, juntamente com o apóstolo João, “é conduzido ao Senhor pelo zelo de João Batista”.
Leão XIV salientou, depois, a urgência do apelo à paz que está contido nesta passagem de Isaías: “Ele julgará as nações, e dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra”. “Quanta necessidade de paz, unidade e reconciliação existe à nossa volta, dentro de nós e entre nós!”, exclamou o Pontífice, para deixar a todos a pergunta: “como podemos contribuir para corresponder a esta exigência?”
A visita papal muda este domingo de rumo. Depois de uma manhã que se inicia com uma visita de oração à catedral apostólica arménia e de uma liturgia dominical na igreja de S. Jorge, Leão XIV partirá ao princípio da tarde (hora local) com destino à martirizada capital do Líbano, Beirute, para uma visita apostólica que se prolonga até terça-feira, 2 de dezembro.










