Serena trabalhava à noite nos bares, derramando álcool em copos alheios e aturando bebedeiras ao embargo de avultados decibéis.
Era só vê-la em ação e – verdade seja dita, não era por ser minha amiga – qualquer um ficava doido com aquele jogo de braços tatuados atirando garrafas ao ar, que apanhava e soltava com a destreza de quem humilha a gravidade. Uma garrafa malabareando em cada mão. Múltiplos líquidos coloridos a deslizar com mestria pelos doseadores dos gargalos, cascateando-se copos adentro por cima do balcão, convertidos em verdadeiros arco-íris de beber.
Mulher de encantar até quem não gosta de mulheres, a boca de batom sempre a formar um sorriso simétrico – há gente que sorri sem querer, com os cantinhos dos lábios virados para cima, desenhados assim por sortes naturais – em contraste com o olhar circunspecto de olhos negros um tanto estrábicos, daquele estrabismo que parece olhar para dentro dos outros, que se pousa demorado em busca de focar os demais lendo-os por eles adentro. Se tristeza, zanga, paixão ou alegria naquele semblante, era impossível de decifrar. Serena dos mistérios, tal qual as divas.
A verdade é que pouco depois de ter assentado em Castelo do Mar – cidade de negócios de sentido único – já tinha caído nas graças de todo aquele monte de trabalhadores da noite. E o que é o carisma senão um pólo magnético ao qual ninguém resiste?
A rua dos bares era um porta sim, porta sim de casas de diversão noturna, que funcionava sete meses por ano. Cada verão trazia umas quantas novidades, mas na sua maioria era gente que ia e voltava sempre no ano seguinte para trabalhar – e passar a época em apartamentos compartilhados nos andares dos prédios por cima dos bares -, pelo que se amigavam todos uns com os outros.
Aquela era a terceira época consecutiva em que Serena voltava para se empregar no Modernus Bar – motivos relacionados com assuntos do coração sentimental. O seu coração sentimental entregara-se a um cartomante que tirava o Tarot na lojinha do canto da rua, Telmo de nome. Beleza condizente com a dela, tinha razão quem afirmava que constituíam o casal mais bonito da comunidade dos morcegos.
Telmo ganhava bom dinheiro com as cartas durante o verão – consultando noites adentro aquela multidão de bêbados, que ondulava de bar em bar. Espiritualidade não lhe faltava. No inverno viajava para Goa, onde esse amontoado de euros rendia a valer e podia desfrutar da vida enquanto se aperfeiçoava nas artes do misticismo.

“Telmo ganhava bom dinheiro com as cartas durante o verão – consultando noites adentro aquela multidão de bêbados, que ondulava de bar em bar. Espiritualidade não lhe faltava.”
Dizia Telmo que sonhava com a atenção de Serena desde o primeiro dia em que ela aparecera em Castelo do Mar, mas, por sua vez, os sonhos da moça flutuavam pelos desejos da liberdade castrando-lhe – a ele – todas as possibilidades românticas.
Só que sempre chega a hora em que o camelo tem sede, como diz a canção, e o clique de Serena brilhou numa noite de final de época, em que o bar esvaziara antes da hora do fecho e ela bebia com os colegas para ocupar o tempo morto. Não vos conto nenhuma novidade ao dizer que o álcool expande o coração dos bons e empedernece o coração dos maus – é o efeito de potencializar hiperbolicamente o que já se leva por dentro. Não temos de entender latim nem conhecer o poeta Alceu para saber o significado de In Vino Veritas – incontestável sabedoria da antiguidade grega.
Dizia eu que, nessa madrugada, alumiada pela luz do efeito acima esclarecido, Serena decidiu ir à banca do bruxo desvendar a sina através do Tarot.
Com a cara avermelhando-se, ele disse, na primeira tirada de cartas – diante de um Hierofante, uma Imperatriz e um Eremita, todos de cabeça para cima e após baralhamento demorado -, O jogo mostra que serás a minha mulher e nos amaremos para sempre.
Intrujão, então é assim que ganhas dinheiro, Respondeu-lhe incontendo um sorriso de verdade – aquele em que os olhos e a alma inteira acompanham os cantinhos da boca virados para cima.
O moço ficou a vê-la seguir pela rua sem hesitar, adivinhando-lhe o rasto da sorridência escondida do outro lado dos longos cabelos negros. Ainda gritou, As cartas não mentem, as cartas não mentem, as cartas não mentem. Mas ela seguiu com fingida indiferença.
Depois foi todo um misto de vem cá com chega para lá, de seduções audaciosas que eu testemunhei encantada, convicta de que seria madrinha de juramento, fiadora do contrato matrimonial. Relatar aqui a beleza dos episódios daquele amor, a incandescência daquela sincera paixão, levar-me-ia palavras demais, ultrapassaria o limite acordado para a dimensão do texto – que se restringe aos quatro mil e quinhentos caracteres.
No inverno seguinte ficaram juntos em Castelo do Mar – nem Serena foi para Espanha, nem Telmo foi para Goa – alugaram um estúdio no qual moraram como verdadeiros esposos.
Nova temporada havia começado quando, nessa noite, a vi morrer sem sequer me ser concedido o discernimento de capturar o absurdo ensanguentado a meus pés. Uma turista alucinada – possuída, para quem acredita nisso – gritava que a Serena tinha passado a noite a rir-lhe para o marido. Depois do peito rasgado pelas sete facadas, já não adiantava dizer-lhe que a boca da Serena sorria sem querer, que eram lábios desenhados assim à nascença – feições involuntárias.
O que aconteceu de seguida eu não sei bem se sei – se me lembro ou imagino -, é um jogo de imagens turvas, surrealistas, oníricas que a minha limitação literária me impede de ser capaz de descrever. Escusado seria.
Uma década de distância não me apagou esse surrealismo onírico da cabeça, que me revisita constantemente em estado REM, como aliás se repetiu esta noite – talvez para sublinhar a data, porque a minha amiga Serena, se sorrisse menos, completaria hoje quarenta anos de vida.
Ao longo deste tempo, quando me encontro com o Telmo – raras vezes, na esplanada do bar em frente à lojinha do Tarot – ele afirma, com indestrutível convicção, que serei a madrinha de casamento. Diz-se por aí que enlouqueceu, eu acho que é só a sua certeza de que as cartas não mentem, as cartas não mentem, as cartas não mentem.
Ana Sofia Brito é autora dos livros “Em Breve, Meu Amor”, “O Homem do Trator” e “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024. Lançou em 31 de janeiro 2025 o livro de poesia “Tempo” e é ainda autora do podcast, “Direito ao Grito“, da Fnac e assina a rubrica mensal “E por falar em livros…” no jornal “Sul Informação”.
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