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Camilo Castelo Branco
Camilo Castelo Branco: Os clérigos aparecem na obra de Camilo ilustrando uma estratégia de aproximação a uma realidade social muito presente no Norte do país.

200 anos do nascimento do escritor

As figuras do padre em “As Novelas do Minho”, de Camilo Castelo Branco

 

O novelista de Ceide conviveu de perto com alguns clérigos, de quem recebeu formação escolar, cujas marcas culturais são identificáveis na sua obra literária. Ele próprio dedica a novela O Bem e o Mal ao padre António de Azevedo, com saudosas palavras, reveladoras de grande consideração: «Há vinte e três anos que eu vivi em sua companhia. Lembra-se daquele incorrigível rapaz de catorze anos que ia à venda da Serra de Mesio jogar a bisca com os carvoeiros, e a bordoada muitas vezes? Esse rapaz sou eu; é este velho que lhe escreve aqui do cubículo de um hospital, muito vizinho do cemitério dos Prazeres. Eu sou aquele a quem o padre Azevedo ensinou princípios de solfa, e as declinações da arte francesa.» Numa outra novela, O Degredado, Camilo informa ter sido na aldeia de Samardã que conheceu o padre Francisco Vieira, «bom sacerdote, amigo de ler, e que sabia de cor as Viagens de Anacársis» (romance erudito francês, de grande impacto cultural na Europa do século XVIII), ainda que não percebesse «o que fosse dividendo, divisor e quociente». Este presbítero, companheiro de Camilo em banhos nas águas frigidíssimas de uma levada e com quem às vezes saía pela aldeia da Samardã «a esmoer a galinha e o presunto», era alguém que revelava «conhecimentos não vulgares, citando filósofos e santos padres mui propositadamente».

Os clérigos aparecem geralmente na produção literária de Camilo como personagens planas, ilustrando uma estratégia de aproximação a uma realidade social muito presente nas regiões onde o escritor passou uma grande parte da sua vida. João Bigotte Chorão faz um levantamento pormenorizado de lugares que constam como espaços narrativos na efabulação camiliana: «A Samardã, Friúme, Ribeira de Pena, Vila Real, o Porto, a Foz, a Póvoa, Braga, o Bom Jesus do Monte, Viana do Castelo, Lamego, Famalicão, S. Miguel de Ceide é que contam na vida de Camilo.»[1] Sendo os ambientes das suas obras colocados prevalentemente no norte, a figura do padre teria de merecer um lugar de relevo entre a galeria de personagens por si criadas, tal era a omnipresença do clero na sociedade oitocentista nortenha, como refere o grande especialista padre Manuel Simões: «O mundo minhoto camiliano é o Portugal velho do século passado [XIX]… com abades e frades ignorantes, fanáticos, supersticiosos, de maus costumes, de mistura com alguns de perfil evangélico, sabedores e dignos.»[2] Estes elementos de verosimilhança estão bem explicitados em As Novelas do Minho, onde o novelista dá conta de uma grande diversidade de retratos do padre, como de seguida se explicita.

 

O padre, figura emblemática nos ritos de passagem

Em Maria Moisés, o enterro religioso da personagem Josefa, cuja morte se atribuíra a um ato de suicídio nas águas do rio Tâmega em Ribeira de Pena, teve de contar com a indispensável anuência do padre, constituído como uma autoridade moral indiscutível: «O vigário consentia que a enterrassem em sagrado, porque a moribunda, segundo o testemunho do moleiro, pedira fervorosamente a confissão.»

Igualmente na novela O Comendador o presbítero é presença obrigatória no ritual do batismo de uma criança recém-nascida, que uma zeladora da igreja encontrara abandonada no adro. Desta vez, trata-se de um jovem padre pouco zeloso, que é arrancado do conforto do seu presbitério para ir, contrafeito, oficiar ao batismo da criança enjeitada: «O abade enfiou a sobrepeliz, revestiu a estola, mandou chegar o enjeitado ao batistério, fez um resumo do latim cerimonial e disse: Vão-se à vida.»

 

Camilo Castelo Branco. Ana Plácido

Camilo em família: o contacto com boas famílias é um dos artifícios usados por várias das personagens clericais do novelista.

O padre, «homo politicus»

Dando conta de uma imagem certamente muito corrente no seu tempo, Camilo associa certo clero à manutenção do status quo social. É o que acontece na novela Maria Moisés, onde vemos um «minorista da Póvoa» a traçar um quadro negro da conjuntura política, pedindo a Deus que «traga o Sr. D. Miguel I a ver se Portugal se endireita de vez». Em A Viúva do Enforcado, é posto em cena o cónego Araújo aparentemente mais ligado a outras ideias, porque apresentado como um «dos jacobinos» que estava bem «com essa gente da Constituição». O narrador encarrega-se, porém, de informar que esta posição política do prebendado foi sol de pouca dura, pois «em 1829 estava realista esturrado. Convertera-se às cortes de Lamego, porque os constitucionais lhe não deram uma conezia de Braga; e estava agora esperando que o conde de Basto lha desse, em galardão de ele ter assinado em Guimarães o auto da aclamação de D. Miguel, rei absoluto». Parece revestir-se de um intencional alcance a referência a esta afeição do clérigo pelas cortes de Lamego, uma hipotética assembleia convocada por D. Afonso Henriques, sendo, contudo, uma construção tardia, com caráter claramente propagandístico, usada em períodos políticos delicados. O narrador avança mais alguns pormenores acerca do envolvimento deste colérico clérigo em questões políticas: «ao declinar da vida, uma vez por outra, saía do seu sério e esbofeteava os seus colegas de colegiada, umas vezes por causa de contas, outras por política; batia alternadamente, em 1820 nos realistas, em 1829 nos liberais.»

 

O padre, frequentador das «boas famílias»

Como convinha à ordem social estabelecida, as famílias mais abastadas primavam por ser anfitriãs do padre. Esta prática revelava-se mutuamente vantajosa. Além de proporcionar ocasiões para lautas refeições, a presença próxima dos clérigos ajudava os ricos rurais a consolidar a sua influência e o seu domínio sobre as camadas populares. Por seu lado, o padre conseguia, através desse convívio, uma boa penetração nas redes de influência social, além de oportunidades, não desprezíveis, de aumentar os seus proventos ou de conseguir pingues nomeações. Temos disso um exemplo, na novela Gracejos que Matam, em que o abade de Santa Eulália é posto a confidenciar, numa carta ao abastado amigo José de Almeida: «Não me desconviria nesta ocasião um canonicato em Braga, e já mo ofereceram os Srs. Cabrais em 1850; hoje torço a orelha...».

 

O padre, exibindo uma imagem de pessoa culta

Camilo inclui também esta imagem como um dos vários traços caracterizadores de algum clero. É o caso do padre Francisco Vieira, em O Degredado, acima referido, com quem o novelista conviveu na aldeia de Samardã. Não raro, porém, essa imagem é associada a uma certa presunção de erudição, o que merece especiosas considerações irónicas por parte do escritor. Algumas dessas marcas de ironia insinuam-se, quando põe em relevo o modo como um clérigo usa o argumento de autoridade, servindo-se de um discurso contrastante com a visão do mundo trazida pelas correntes científicas emergentes. Assim, em Maria Moisés, o narrador refere que um cónego de Braga «ainda frescal, grave, falava muito do Pentateuco e asseverava que o primeiro e mais verídico historiador do género humano fora Moisés – asserto que ninguém lhe contestava».

Uma das edições de Livro Negro do Padre Dinis, uma outra novela de Camilo em que o protagonista é um clérigo que já aparecera em Mistérios de Lisboa.

Uma das edições de Livro Negro do Padre Dinis, uma outra novela de Camilo em que o protagonista é um clérigo que já aparecera em Mistérios de Lisboa.

O padre, modelo de generosidade

Outra dimensão de certos clérigos ficcionados nas novelas camilianas é a de uma figura dada à caridade para com os mais desgraçados. É o que acontece na novela Maria Moisés na qual é referido um tal Cónego Botelho, que «dava aos pobres, inválidos e enfermos partes das suas rendas e estimulava (…) a caridade dos seus hospedeiros amigos».

 

O padre mundano

Esta marca perpassa na novela Gracejos que Matam, ao caracterizar o «abade de Santa Eulália, passante da meia-idade, pagão em literatura, mestre de Latim no seu concelho de Cabeceiras». Temos aí este padre em convívio com um grupo fútil de morgadas e bacharéis num salgueiral de Vizela, em que declamava um trecho das Églogas e comentava passos de Ars Amatoria, de Ovídio. Uma tal faceta explicita-se particularmente em A Viúva do Enforcado, através de traços de erotismo e sensualidade reprimidos, manifestando um celibato mal assumido, como transparece de uma conversa entre o Cónego Norberto e o Abade de Ronfe, a propósito dos comentários que ambos teciam à beleza da personagem Teresa de Jesus. O beneficiado, ao referir as vicissitudes do processo amoroso de um seu sobrinho com essa Teresa, confidencia: «Chorou como tu nem eu sabíamos chorar quando pagávamos o tributo do coração que nos mandaram estrangular debaixo da batina».

A mesma vertente perpassa pela caracterização indireta da figura do abade de Santa Eulália, que, em Gracejos que Matam, integra o grupo de veraneantes da Caldas de Vizela. São aí revelados aspetos deste clérigo, bem integrado na vida mundana nas termas vizelenses: «Honestava com citações de Ovídio a lubricidade dos pecados da sua juventude» e, quando encontrava senhoras sertanejas de Basto, «acotovelava o companheiro de passeio, e murmurava: “aqui vem uma das tais“. O narrador preocupa-se em explicar que «uma das tais vinha a ser uma das suas amadas» a quem «ele havia ensinado a dançar o minuete e a gavota». O mesmo narrador omnisciente tem o cuidado de informar que o abade remoçava tais senhoras «na sua imaginação saudosa, alindando-as com o colorido escarlate da paixão». Ainda vemos este mesmo padre a confidenciar, numa missiva a um amigo: «Ah!, femeaço!, femeaço! Quando a política me agourava uma mitra, as mulheres far-me-iam rejeitar o chapéu de cardeal. Mulheres, piores que o diabo, diz o Eclesiastes. Devia de estar velho quem disse isto».

Também na novela O Comendador temos a figura de um padre, «rapaz de vinte e sete anos» envolvido em furtivas brincadeiras com a criada moça, que se permite dar ao jovem pároco «uma sonora palmada na nádega esquerda» e que «com jeitosa meiguice» lhe encanuda «nas pernas cerdosas as grossas meias», ternuras que são correspondidas pelo abade, ao apalpar a polpa da espádua da moça «com ternura felina».

Como se vê, é com uma particular vivacidade narrativa que Camilo consegue ilustrar conflitos interiores de certos clérigos, obrigados a reprimir os direitos do coração.

* * *

Da colorida galeria de figuras do padre na produção ficcional acima apresentada, transparece um quadro que nada tem a ver com qualquer preconceito anticlerical, como poderia sugerir uma leitura apressada, mas tão-somente o olhar atento fixado numa realidade sociológica, situada no tempo e no espaço em que viveu Camilo Castelo Branco, nascido a 16 de março de 1825.

Não podemos esquecer, por outro lado, que este jornaleiro da pena, de quem celebramos o segundo centenário, vivia exclusivamente do seu trabalho literário, não podendo, por isso, dar-se ao luxo de eliminar da sua ficção os atrativos folhetinescos e os episódios sentimentais que tornariam as suas produções mais procuradas pelo público e pelos editores.

Notas
[1] CHORÃO, João Bigotte, Camilo, Ed. Vega, 2ª ed., p.20.
[2] in Brotéria, Vol.132-Nº5-6, Maio-Junho de 1991.

Sobre Camilo, pode ler-se também no 7MARGENS:

Camilo Castelo Branco, um génio na literatura portuguesa

 

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