Adão, Eva, Caim, Abel, Noé, Abraão, Moisés… Os nomes são familiares e todos eles integram as narrativas que se encontram nos primeiros livros da Bíblia – que, no entanto, não terão sido os primeiros a ser escritos, como recorda Frederico Lourenço na introdução ao VI volume da sua tradução da Bíblia dos Septuaginta (edição Quetzal), que na próxima quinta-feira, 20, será posto à venda.
Desde a narrativa da criação do mundo até à chegada do povo israelita à Terra Prometida, passando pelo tempo de escravatura no Egipto, os cinco livros do Pentateuco (ou Torah, na Bíblia Hebraica) propõem o “mais profundo que existe na experiência humana do Divino”, como refere a nota de apresentação deste volume. Mas é o Deus de Israel que se revela o verdadeiro protagonista destes cinco livros: o Deus criador, Deus das alianças com o Seu povo, Deus que dita a sua lei.
Este conjunto de cinco livros abrange as secções do Antigo Testamento mais belas e admiradas ainda hoje por não judeus, propõe Frederido Lourenço na introdução, da qual o 7MARGENS publica a seguir um excerto, em pré-publicação.
Depois deste volume VI, o último da tradução empreendida há uma década por Lourenço, fica a faltar a edição do segundo tomo do volume V, que reúne um segundo conjunto de livros históricos do Antigo Testamento: Paralipómenos, Esdras, Ester, Judite, Tobite e Macabeus.
No próximo sábado, 22, no âmbito do Festival Utopia, em Braga, Frederico Lourenço conversa com Ricardo Araújo Pereira, às 17h30. No dia 4 de Dezembro, na FNAC Colombo, em Lisboa, às 18h, a sessão de apresentação da obra constará de uma conversa entre o tradutor e o editor, Francisco José Viegas.

A capa do VI volume de Bíblia.
O termo «Pentateuco» designa os cinco livros que figuram em primeiro lugar em todas as edições da Bíblia: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Na Bíblia Hebraica (que obviamente não contém os vinte e sete livros a que os cristãos chamam o Novo Testamento), estes primeiros cinco livros são coletivamente designados torah («instrução», mas também «lei»). Mercê da sua posição, estes livros exercem inevitavelmente sobre o leitor a impressão de serem os livros mais antigos da Bíblia. Na realidade, porém, a redação final do Pentateuco terá ocorrido no século V a.C., após o exílio dos judeus na Babilónia. Por conseguinte, a tradicional atribuição da sua autoria a Moisés não é tomada como plausível pelos estudiosos atuais (pelo menos desde a breve mas acutilante Dissertatio critica-exegetica de Wilhelm de Wette, publicada, em latim, em 1805 – embora já antes a ideia de que Moisés fosse o autor tivesse sido posta em causa, não só pela razão óbvia de que não podia ser Moisés a narrar a sua própria morte no final de Deuteronómio, como também devido a pequenos anacronismos que são percetíveis ao longo do texto: exemplos evidentes são as referências a cananeus [Génesis 12:6] e à monarquia [Génesis 36:31]).
A palavra «Pentateuco» é grega e sugere a divisão da torah em cinco rolos, já que pénte é a palavra grega para «cinco» e teukhos significa «rolo». O timbre grego está também visível nos títulos pelos quais os livros são conhecidos, mormente Génesis (cf. a palavra grega génesis, «origem»), Êxodo (éxodos, «saída») e Deuteronómio (à letra, «segunda lei», com base na interpretação grega de Deuteronómio 17:18).
Este conjunto de cinco livros abrange as secções do Antigo Testamento mais lidas e admiradas ainda hoje por não judeus (refiro-me a Génesis e à primeira parte de Êxodo) e também aquelas partes que muitos leitores hodiernos acharão fastidiosas – partes essas que interessam sobretudo a historiadores da antiga religião israelita (segunda parte de Êxodo; Levítico; Números e Deuteronómio). Não há dúvida de que as secções narrativas de Génesis e de Êxodo nos dão a ler textos arrebatadores, cujo poder de fascinar e de aturdir está ao nível das maiores obras da literatura mundial. Basta enunciar o rol de personagens para percebermos quão marcantes estas narrativas foram, ao longos dos séculos, para o imaginário humano: Adão, Eva, Caim, Abel, Noé, Abraão, Isaac, Jacob, José, Moisés.
No entanto, na própria Bíblia Hebraica vista no seu todo, estas histórias e personagens não têm o alcance que esperaríamos nem a importância que nós hoje lhes damos, com a exceção fulcral de Moisés. Quem cresceu numa tradição cristã (com a sua teologia do «pecado original», proposta no século IV d.C.) poderia pensar que a desobediência de Adão constituiria a premissa a partir da qual toda a narrativa do Antigo Testamento se desenrola; mas, na realidade, Adão e Eva são praticamente ignorados em toda a Bíblia Hebraica. E, fora do livro de Génesis, mesmo os patriarcas Abraão, Isaac e Jacob não assumem, nas secções mais antigas da Bíblia, a relevância que suporíamos. Apenas dois dos cento e cinquenta e um salmos mencionam o nome de Abraão (46, 104 LXX); na mais antiga literatura profética, só Isaías 29:22 refere o nome do patriarca; em toda a história deuteronomística (constituída pelos seis livros de Josué, Juízes, 1-2 Samuel, 1-2 Reis), o nome de Abraão só é mencionado em Josué 24:2-3, 1 Reis 18:36 e 2 Reis 13:23. A obra-prima literária do Pentateuco (o Capítulo 22 de Génesis, com a narração do episódio em que Abraão aceita sacrificar o seu filho, Isaac) é ignorada no resto do Antigo Testamento.

James Tissot (1836–1902), Abraão e os Três Anjos. Domínio Público.
Isto tem levado alguns biblistas a pensar que, a despeito da sua suposta vetustez, as histórias dos patriarcas podem, na verdade, ser bastante recentes. A caravana de camelos carregados de aroma, bálsamo e láudano referida na história de José (Génesis 37:25) não retrata uma realidade conhecida no século XIX a.C. (suposta época de José), mas antes a da época do poderio da Assíria (séculos VIII-VIIa.C.). Aliás, a domesticação do camelo só terá acontecido por volta do século x a.C. Assim, lemos no Oxford Bible Commentary (p. 48), a propósito das histórias dos patriarcas, que estas poderão ser tão recentes como a época da redação final do Pentateuco.
Esta afirmação, por sua vez, também levanta problemas. Quando terá essa redação final acontecido? O consenso entre os biblistas crítico-históricos é que o Pentateuco recebeu a sua forma final no período pós-exílico, quando as elites judaicas foram autorizadas pelo rei persa a regressar a Jerusalém (o exílio durou de 597 a 538 a.C.). Contudo, não é de supor que, a partir do nada, estes textos tenham sido criados nessa época. Parece mais verosímil aceitar que havia já uma tradição anterior de textos (por sua vez baseada numa tradição oral) sobre os diversos momentos da história de Israel, tradição essa que comportava relatos diferentes entre si sobre um manancial de temas comuns. Segundo uma das teorias mais plausíveis, esses textos distintos foram objeto de fusão e reescrita em Jerusalém, no século V a.C.: de vários, passaram a ser um só texto. Mas esse texto preservou as marcas da sua origem diversificada.
Uma das teorias mais aceites sobre a composição do Pentateuco é a chamada «hipótese documental». Desenvolvida no século XIX pelo biblista alemão Julius Wellhausen (1844-1918), impôs-se ao longo do século XX como a explicação mais convincente para os diversos problemas que o Pentateuco coloca; e, embora tenha sido objeto de crítica e de refutação, mesmo assim tem-se revelado uma fénix capaz de renascer das próprias cinzas. Na sua essência, esta teoria propõe que o Pentateuco é uma tapeçaria complexa, não só tecida mas entretecida a partir de quatro «fios» ou «fontes» diferentes:
– A fonte P (assim chamada na bibliografia alemã do século XIX, pelo facto de a palavra «sacerdote» em alemão [Priester] começar com a letra P), presente a partir de Génesis 1 (e também a fonte da aliança da circuncisão em Génesis 17; esta fonte está sobretudo visível em Levítico e Números);
– A fonte J (assim chamada a partir do nome de Deus [YHWH], grafado Jahweh na filologia bíblica alemã), presente a partir de Génesis 2;
– A fonte E (assim chamada devido à preferência desta fonte pelo nome de Deus Elohim); esta fonte começa a fazer-se sentir a partir de Génesis 15 (será a fonte do sacrifício de Isaac e, mais tarde, a da revelação do nome YHWH a Moisés em Êxodo 3. Note-se que as críticas à «hipótese documental» incidem sobretudo no problema de provar conclusivamente que o material associado à fonte E possa ter constituído uma fonte independente;
– A fonte D (fonte principal do livro de Deuteronómio).
Um dos sintomas mais evidentes da disparidade de fontes no Pentateuco é a situação instável relativamente ao nome de Deus (YHWH), revelado a Moisés em Êxodo 6:2-3 (passagem que deriva da fonte E), embora, na redação final do Pentateuco, o nome esteja presente no texto desde Génesis 2 (que deriva da fonte J): aliás, à época do neto de Adão, Deus já é invocado pelos seres humanos com o nome YHWH (Génesis 4:26, «Foi então que se começou a invocar o nome de YHWH» [BH]; a frase grega é um pouco diferente). Em Êxodo 6:3, Deus afirma (citando a BH) «Apareci a Abraão, a Isaac e a Jacob como Deus supremo, mas pelo Meu nome YHWH não fui conhecido por eles». No entanto, em Génesis 13:4 lemos que Abraão «invocou o nome de YHWH». Esta gritante contradição interna no Pentateuco corresponde a um problema que começou a assumir cada vez mais importância a partir de meados do século XVIII, graças à investigação do estudioso francês Jean Astruc.

Rembrandt (1606–1669), Moisés com as Tábuas da Lei. Rembrandt, Domínio público, via Wikimedia Commons.
Outras marcas da origem díspar do material estão visíveis noutras contradições internas. Deus criou os animais antes do homem (Génesis 1) ou criou o homem antes dos animais (Génesis 2)? O sogro de Moisés chama-se Reuel (Êxodo 2:18) ou Jetro (Êxodo 3:1)? A tenda da reunião é colocada dentro do acampamento (Números, Capítulos 2 e 3) ou fora dele (Êxodo 33:7)? Quantos animais é que Noé levou para dentro da arca? Foram dois de cada espécie (Génesis 6:19-20) ou catorze de algumas espécies e dois de outras (Génesis 7:2‑3)? O dilúvio durou quarenta dias (Génesis 7:2-3) ou cento e cinquenta dias (Génesis 7:24)? A carne pascal deve ser cozida (Deuteronómio 16:7) ou assada (Êxodo 12:9)? O abate de vacas e ovelhas é permitido em quaisquer circunstâncias (Deuteronómio 12:20-21) ou numa só circunstância (Levítico 17:3-7)?
Outra categoria de marcas que apontam para o Pentateuco como fusão de textos distintos é a repetição de elementos narrativos: Deus muda o nome de Jacob para Israel duas vezes (Génesis 32:29; Génesis 35:10); promete duas vezes não causar outro dilúvio (Génesis 8:21-22; Génesis 9:9-17). A instrução sobre o trato a seguir para com pessoas escravizadas surge três vezes (Êxodo 21:2-10; Levítico 25:39-46; Deuteronómio 15:12-18)5. Quanto aos Dez Mandamentos, também são apresentados três vezes; e a forma sob a qual os lemos não é uniforme (Êxodo 20:1-17; 34:10-28; Deuteronómio 5:6-18), como veremos mais adiante.
Uma pergunta que se pode colocar é se há fundamento para assumirmos uma cronologia para estas fontes. A resposta afigura-se dificilmente consensual, porque o «fundamento» não tem outra realidade além da teórica: o argumento de cada biblista é a sua fundamentação. Assim, quem consulta um livro publicado em meados do século XIX lerá que a fonte P é a mais antiga; mas se consultar bibliografia da primeira metade do século XX encontrará mais provavelmente a ideia de que P é a fonte mais recente.
Para lá da discussão labiríntica sobre a origem do Pentateuco, há todo o significado teológico que lhe é inerente (significado esse com contornos marcadamente distintos na leitura judaica, diferente da cristã). Para muitos leitores, todavia, o que mais desperta fascínio neste conjunto ímpar de textos é a variedade do material narrativo; e o que mais encanta é a linguagem – viva, solene, expressiva (mesmo em tradução) – com que esse material narrativo é verbalizado.
Mas, além das secções narrativas (situadas, com o seu maior esplendor, no livro de Génesis e na primeira parte de Êxodo), há outras modalidades discursivas presentes no Pentateuco: encontramos genealogia, etiologia e legislação. A componente etiológica (também típica da literatura grega arcaica, clássica e helenística) visa propor respostas para todo o tipo de perguntas que se levantam sobre as realidades universais da biologia e, de forma mais provinciana, sobre a realidade de Israel. Porque é que as serpentes rastejam no chão ou as mulheres sofrem no trabalho de parto? O que explica o nome de determinada localidade em Israel? O Pentateuco está cheio de «tesourinhos» que preservam elementos da sapiência popular e folclórica. No entanto, a etiologia principal do Pentateuco é esta: porque será que o povo israelita, não sendo autóctone na terra de Canaã (mais tarde Israel), não só se sentiu com mais direito àquela terra do que os cananeus, como acreditou ter autorização divina para exterminar os povos que lá viviam? Esta é a história contada pelo Pentateuco.










