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Livros para contar a Revolução

As memórias guardadas de Abril

| 23/02/2025

25 Abril capitular, 25Abril, Catarina Castel-Branco, Mendo Castro Henriques

Desenho de Catarina Castel-Branco e frase de Mendo Castro Henriques, para exposição na Galeria Diferença, nos 50 anos do 25 Abril 1974. Imagem cedida pelos autores para os textos alusivos à efeméride.

Nestes tempos, ninguém questiona por onde anda a Liberdade, como cantam os Mão Morta. Talvez os livros que aqui se apresentam nos apontem caminhos para saber por onde anda ela, indo à História do 25 de Abril para também nos ajudar a refletir o presente.

À boleia dos 50 anos do 25 de Abril, que se continuam a comemorar (num arco temporal que decorre, pelo menos, até ao cinquentenário das primeiras eleições legislativas de 1976), as edições no mercado livreiro têm continuado a bom ritmo, recuperando textos ou documentos antigos, propondo novas releituras e abordagens inovadoras, sempre com a efeméride festiva no horizonte.

Depois de três (breves) propostas deixadas nestas páginas, voltamos a avançar com mais uma sugestão de seis livros obrigatórios para melhor conhecer as memórias guardadas destes 50 anos e melhor entender a diversidade que nos trouxe Abril. Não se estranhe o facto de todos eles terem a chancela da Tinta-da-China, que mantém uma parceria com a Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, por um lado, e sempre dedicou uma atenção particular à História, e em particular ao século XX.

 

 

Por enquanto, o Povo Unido ainda não Foi Vencido

Manuel Vázquez Montalbán deixou-nos como legado essa personagem maior dos policiais que é Pepe Carvalho, que alimentava a sua lareira com livros, e que se confundia tanto com o jornalista e escritor espanhol, morto subitamente em 2003.

Em boa hora a Tinta-da-China, numa cuidada edição de Rita Luís (investigadora em História Contemporânea), recuperou as “crónicas da revolução” que Montalbán escreveu em 1974 e 1975 sobre Portugal, desvelando a sua fina ironia, argúcia e humor na leitura da realidade nacional naquele tempo. Há três textos anteriores ao 25 de Abril, sobre o livro de Spínola que desestabiliza o regime, e depois da Revolução o jornalista acompanha, em nome próprio ou por pseudónimos (ele que foi o homem dos “100 nomes”), os dias festivos e quentes de Abril e os meses que se seguiram até ao final de 1975.

Há um entusiasmo claro pelos dias que Portugal vivia, por oposição a uma Espanha então ainda amordaçada no estertor de Franco e da sua ditadura. As notícias sobre o país, os seus políticos emergentes ou os caminhos a seguir são despachadas com lucidez, apesar do entusiasmo tropeçar nalgumas leituras precipitadas, por vezes corrigidas: Montalbán percebe muito depressa que é no PS e PPD que os portugueses irão concentrar os seus votos, antecipa a necessidade de Portugal aderir à Europa e nota a importância em fortalecer a democracia – assim como se refere a Pereira de Moura como uma “das quatro figuras políticas mais importantes da atualidade portuguesa” e cuja memória se esfumou na História.

Este Por enquanto, o Povo Unido ainda não Foi Vencido: Crónicas sobre a revolução (1974-1975) não é livro que Pepe usasse na sua lareira.

 

A Guerra Guardada

Este é, antes de mais, um objeto bonito, que os livros também o são, numa edição irrepreensível que nos traz, como se descreve no subtítulo, fotografias de soldados portugueses nas três frentes da Guerra Colonial, Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, entre 1961 e 1974. Esta viagem pela memória de tantos homens mobilizados para o combate foi resgatada da “estreiteza dos seus círculos pessoais”, para dar corpo também a uma exposição no Museu do Aljube.

As fotografias “banais ou extraordinárias” desvelam um outro olhar sobre a “guerra longa e anacrónica, que foi mandada combater pela ditadura”, e que por vezes parece nem existir naquele quotidiano. Há fotos contadas pelos soldados, ou faladas pelos próprios (explorando o áudio através de um QR code), há os avessos dessas fotos, com breves mensagens ou legendas em letras mais ou menos redondas, há soldados fotógrafos, e a vida na caserna, e também a violência e o racismo que espreitam nas molduras daquelas fotos, na sua maioria a preto e branco.

A estas memórias particulares, junta-se o olhar da academia que debate a várias vozes o colonialismo, a guerra e o fim do império, num diálogo que se revela fresco e franco entre a investigação e a guerra guardada por quem a fez. A completar estas abordagens, a obra coordenada por Maria José Lobo Antunes e Inês Ponte apresenta ainda as criações artísticas e as composições musicais – de novo, fazendo um uso inteligente de QR codes – que acompanharam a exposição, entrelaçando o olhar sobre a Guerra Colonial. Este livro é, então, um objeto bonito, mas também de leitura obrigatória.

 

25 de Abril. Revolução e mudança em 50 anos de memória

Este livro vive da memória, traçando uma abordagem inovadora sobre de que forma é lembrada ou esquecida a Revolução de 1974, mas também celebrada ou contestada, apropriada ou combatida.

Nesta obra que não é um livro clássico de História, como definem os seus organizadores, Manuel Loff e Miguel Cardina, os protagonistas não são os soldados que derrubaram uma ditadura podre de quase 50 anos; são aqueles que trazem evocações pessoais e sociais que ajudam a traçar várias dimensões da Revolução, inscrevendo a pluralidade e o conflito como narrativa para melhor perceber a mudança de Portugal nestes 50 anos de liberdade. Por isso, há a proposta das “memórias reacionárias” da Revolução (por Loff) ou das “memórias disputadas” dos retornados (trazidas por Elsa Peralta), e também cabe a leitura de como se construíram as ficções da Revolução, a partir da memória dos acontecimentos (num olhar de Luís Trindade, que já nos tinha trazido o excelente Silêncio Aflito).

A partir da condição da mulher no Estado Novo, Ana Sofia Ferreira  questiona se a Revolução está (ainda) incompleta para as mulheres, traçando um percurso sobre estes 50 anos, no qual regista a tese de Manuela Tavares (dirigente da UMAR) de que “a participação de muitas raparigas na Juventude Operária Católica (JOC) e na Juventude Universitária Católica (JUC) terá sido importante para o despertar de uma consciência feminista na fase final da ditadura”.

A memória do fim do império e do 25 de Abril, entrelaçada com a narrativa das “Descobertas” e do “caráter benevolente do colonialismo português”, que Miguel Cardina desenvolve, e as sombras perenes da Reforma Agrária, decifradas por Paula Godinho, são outras importantes abordagens desta obra.

O livro encerra com uma leitura sobre “o que se esconde atrás da nuvem: imagens em movimento da Revolução Portuguesa nalguns centros urbanos”, uma proposta de Joana Craveiro que é “um exercício de investigação historiográfica construído como uma ficção”, que não é uma ficção, parte antes de “relatos orais” e histórias escutadas em primeira mão, “como fontes primordiais” do texto, para além de notícias dos jornais de então. Memórias imprescindíveis, todas elas.

 

Vozes da Revolução e A Revolução dentro da Revolução

No acervo de livros sobre o 25 de Abril, Vozes da Revolução. Revisitando o 25 de Abril de 1974. Entrevistas e Estudos é uma significativa recolha documental, centrada no “precioso conjunto de entrevistas”, como as define António Costa Pinto, até agora inéditas em Portugal e que foram realizadas nos anos 1990 pelo cientista político norte-americano Paul Christopher Manuel, quando era ainda estudante na Universidade de Georgetown. Este investigador entrevistou intervenientes relevantes na Revolução e durante o PREC (Processo Revolucionário em Curso), que categorizou como “reformistas anticomunistas”, nos quais incluiu Spínola e Jaime Neves; “um oficial do MFA radical pró-comunista”, que era Vasco Gonçalves; “moderados do MFA”, “três dos quais signatários do importantíssimo documento do Grupo dos Nove”, como Vítor Alves e Vasco Lourenço; “dois populistas do MFA”, que favoreciam um “regime de tipo revolucionário pró-cubano” (Otelo e Mário Tomé); e “dois independentes”, incluindo Costa Gomes). Os pontos de vista únicos dos entrevistados ajudam a compor o mosaico de que se fazem as vozes do 25 de Abril.

Na mesma coleção, “O 25 de Abril visto de fora”, promovida pela Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, com a chancela da Tinta-da-China, e com coordenação de Costa Pinto, é apresentada uma tese de doutoramento da cientista política americana Nancy Bermeo, que avalia a Reforma Agrária portuguesa enquanto processo revolucionário enquadrado pela mudança de regime, centrada no controlo operário dos grandes domínios fundiários. A Revolução dentro da Revolução. O controlo operário no Portugal rural é uma história da Reforma Agrária – que pode, para muitos apressados, parecer datada ou ultrapassada – e, como aponta o coordenador da coleção, “um excelente contributo” para compreender o 25 de Abril e o processo de democratização do país. Com a profundidade merecida, e ultrapassando a caricatura (ideologicamente preconceituosa, na esmagadora maioria dos casos) que tantos hoje transmitem deste processo reformador.

 

Cabral Ka Mori

Este catálogo de “Amílcar Cabral, Uma Exposição” acaba por viver para lá dessa mostra (apresentada em Lisboa, em 2023, e entretanto mostrada em Bissau, em 2024), ao propor uma viagem pelo mundo do líder independentista do PAIGC, através de 50 peças que apresentam momentos e lugares da vida de Amílcar Cabral.

Os historiadores José Neves e Leonor Pires Martins, comissários científicos da exposição, completam os seus textos com fotografias, ilustrações, livros, jornais, documentos, que traçam um olhar atento também à sua época. Este livro-catálogo acaba por retratar, como se aponta, o passado de Amílcar Cabral mas também sobre quem fez e continua a fazer sentido desse passado, – Cabral “e as suas vidas posteriores”, ele que contribuiu de forma decisiva para pôr um ponto final no império colonial português. O 25 de Abril também foi escrito por Cabral.

 

 

Por enquanto, o Povo Unido ainda não Foi Vencido: Crónicas sobre a revolução (1974-1975)
Manuel Vázquez Montalbán (seleção e tradução de Rita Luís)
Tinta-da-China, 2024, 176 pp.

A Guerra Guardada. Fotografia de Soldados Portugueses em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, 1961‑1974
AAVV, com coordenação de Maria José Lobo Antunes e Inês Ponte
Tinta-da-China, 2024, 192 pp.

25 de Abril. Revolução e mudança em 50 anos de memória
AAVV, com organização de Manuel Loff e Miguel Cardina
Tinta-da-China, 2024, 312 pp.

Vozes da Revolução. Revisitando o 25 de Abril de 1974. Entrevistas e Estudos
AAVV, com organização de Paul Christopher Manuel (tradução de Myriam Zaluar)
Tinta-da-China/Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, 2024, 248 pp.

A Revolução dentro da Revolução. O controlo operário no Portugal rural
Nancy Bermeo (tradução de Susana Sousa e Silva)
Tinta-da-China/Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, 2024, 288 pp.

Cabral Ka Mori. Catálogo de ‘Amílcar Cabral, Uma Exposição’
José Neves e Leonor Pires Martins
Tinta-da-China/Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, 2024, 120 pp.

 

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