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Stephen Mulla, Juba, Sudão do Sul

A guerra no Sudão, o bloqueio em Madrid

As preocupações dos cardeais num colégio cada vez mais internacional

encontro de cardeais com o papa francisco, agosto 2022 foto vatican media (1200 × 612 px)

Encontro de cardeais com o Papa Francisco, em Agosto 2022: neste sábado serão formalmente nomeados 18 novos conselheiros do Papa. Foto © Vatican Media. 

 

O que tem em comum a preocupação do arcebispo católico de Madrid (Espanha) com a crise política no seu país e a do arcebispo de Juba (Sudão do Sul), com o eventual contágio da guerra no Sudão para outros países do Nordeste de África? É que ambos serão formalmente investidos neste sábado como novos cardeais e ambos reflectem as preocupações do Papa Francisco com a intervenção social e política dos cristãos. No caso do arcebispo sul-sudanês, Stephen Mulla reflecte ainda a cada vez maior internacionalização do Colégio de Cardeais.

Dos 136 purpurados que passarão, neste sábado, a ter direito a voto num eventual conclave, os europeus já não são o maior grupo (são agora 53, ou seja 39% do total), ao contrário do que acontecia em 2013, quando Francisco foi eleito (eram 60, ou seja, 52%). O português Américo Aguiar está entre eles.

A seguir vem a América Latina e Caraíbas com 18% dos cardeais, contra 16% em 2013, de acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, estratificada por regiões do mundo.

Também com 18% dos cardeais está a região da Ásia-Pacífico, que aumentou para o dobro em relação a 2013. Seguem-se a África subsariana (13% dos cardeais, contra 9% em 2013), a América do Norte (10%, tal como a Europa menos do que os 12% em 2013) e o Médio Oriente e Norte de África (1% agora, menos do que os 2% em 2013).

“Creio que essa é a mensagem que a Igreja tem de dar hoje mesmo ao nosso mundo: que somos diversos, que o mundo está globalizando-se, mas não globalizando-se a partir da Europa”, afirmou o arcebispo de Madrid, José Cobo Cano, em declarações no Vaticano a um grupo de jornalistas portugueses, esta sexta-feira, véspera da cerimónia com que o Papa Francisco formaliza a sua nomeação como cardeal.

Comentando a realidade de um colégio mais internacional (69 países estão agora na lista de eleitores de um futuro conclave), Cobo acrescentou: “A visão que o Papa está a oferecer é que o mundo é global e está dizendo-o a todas as instâncias: que a Igreja está presente em todos os lugares e que tem uma mensagem de globalização que é a mensagem do Evangelho.” O Papa, disse ainda o arcebispo espanhol, “traduz isso muito bem, dando voz a todas as igrejas, incluindo as mais pequenas”. De facto, pela primeira vez, vários países pequenos ou com reduzido número de católicos têm hoje cardeais: são os casos do Laos, Timor-Leste, Cabo Verde, Papua-Nova Guiné ou Tonga, por exemplo.

Numa leitura mais fina, percebe-se que, apesar da internacionalização, há ainda um peso importante de países ocidentais do hemisfério Norte: descontando o arcebispo emérito de Dacca, Bangladesh, que completa 80 anos neste domingo, e deixa por isso de contar para esse efeito, metade dos 136 cardeais com menos de 80 anos (que podem votar num conclave) é originário de Itália (15), EUA (11), Espanha (8), França (7), Portugal (4), Polónia (4), Canadá (4) Argentina (4). Apenas dois países desta lista são da metade Sul do mundo: Brasil (6) e Índia (5) – de acordo com uma listagem feita pela agência Ecclesia.

 

“A guerra é contagiosa”

Stephen Mulla, arcebispo de Juba (Sudão do Sul): ““As necessidades dos deslocados são gigantescas.” Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Stephen Mulla, arcebispo de Juba (Sudão do Sul) é um dos exemplos da maior internacionalização do Colégio de Cardeais. Preocupado com as tragédias políticas que assolam a região, o novo cardeal tem receio que o conflito no vizinho do Norte, o Sudão, alastre a outros países.

“A guerra é contagiosa. Esperamos que se possa conter esta guerra, porque se o conflito se espalhar para o nosso país, vai haver um segundo deslocamento interno de pessoas”, afirmou a um grupo de jornalistas no Vaticano, onde neste sábado será formalmente investido pelo Papa como cardeal.

O arcebispo Mulla espera, no entanto, que com os esforços que estão a ser feitas pela União Africana e outras instâncias, seja possível “que as pessoas tenham bom senso e se sentem para negociar a paz”. Desde Abril, duas facções rivais de militares envolveram-se em confrontos que começaram em Cartum, a capital, e se alastrara a todo o país. Haverá já pelo menos cinco mil mortos e mais de 12 mil feridos, segundo as Nações Unidas.

“Esta guerra criou muitos problemas, muitas pessoas estão a fugir de Cartum para o Sudão do Sul, a Etiópia, o Egito, para a República Centro-Africana e o Chade”, disse o arcebispo. Um “enorme número de pessoas” está a entrar no Sudão do Sul, “onde estão a ser instalados campos”.

“As necessidades são gigantescas, precisamos, realmente, de apelar às organizações internacionais, para que venham em ajuda destas pessoas deslocadas, que não têm comida, não têm água, não têm tendas nem as coisas básicas. Deixaram tudo para trás, fugindo pelas suas vidas”, acrescentou.

Sublinhando que este é “um conflito político”, o arcebispo admite ainda assim que o diálogo inter-religioso (o Sudão é um país maioritariamente muçulmano) “é muito importante”.

“Ainda hoje, persistem grupos fundamentalistas, em particular no Sudão, que não estão dispostos a ceder facilmente, por pensarem que a guerra é a forma de resolver os problemas”. Mas “através do diálogo” será possível “resolver estes problemas políticos”, anseia o arcebispo.

 

“Voltar ao consenso”

José Cobo Cano, arcebispo de Madrid desde Julho 2023: “É preciso voltar ao consenso.” Foto © António Marujo/7MARGENS

 

O diálogo é a receita que o arcebispo de Madrid propõe para o seu país, bloqueado numa crise política que ainda não permitiu a investidura de um governo.

“A Igreja está preocupada e tudo o que seja confronto e paralisia por [falta de] entendimento é um problema para todos”, afirmou o arcebispo José Cobo, que o 7MARGENS entrevistara durante a Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa. “A vida e a posição da Igreja está a ser a de estimular o diálogo e o consenso”, valorizando “a ética do encontro e a ética do diálogo na política”.

“A função da Igreja é estimular aqueles que são católicos ou aqueles que queiram escutar a voz da Igreja a voltarem ao consenso e a praticarem a política do consenso”, acrescentou, citando a expressão do Papa “o amor político”, que deve ir “mais além dos interesses pessoais”, propondo uma “ética que pense no país e nos grandes temas”.

“Creio que em Espanha o que nos preocupa e o que preocupa a Igreja é o que fazemos com a desigualdade neste momento, o que se passa com as nossas famílias que têm dificuldades, o que se passa com o tema da migração, o que se passa com a falta de esperança que tem a nossa gente. Creio que temos de nos unir para responder a isso”, acrescentou.

Lidando com outras realidades, o arcebispo Claudio Gugerotti, prefeito do Dicastério para as Igrejas Orientais, do Vaticano, insiste igualmente na importância do diálogo: o organismo que preside “tornou-se necessariamente um cruzamento, onde além de se ocupar directamente destas Igrejas, tem de falar também com as Igrejas Ortodoxas e, em certa medida, com a realidade diplomática dos vários governos”. Com os ortodoxos, em concreto, Gugerotti admite a “diversidade cultural”, mas insiste na importância de não resolver os problemas de forma sectorial. E sobre Jerusalém insistiu na posição da Santa Sé: “Pedir uma cidade – que é sagrada – para todos, uma cidade aberta a todos, uma cidade onde não haja discriminações. Esta é a nossa posição e é o que procuramos fazer, com alguma dificuldade.”

 

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