AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Aventura sem retorno

| 24/10/2022

Bombeiros procuram sobreviventes nos destroços em Chernigiv. Foto © Ministério dos Assuntos Internos da Ucrânia

“Também neste caso da Ucrânia, sabemos como começou a guerra, não sabemos ainda hoje como vai terminar e que danos ainda vai provocar. É mesmo uma ‘aventura sem retorno’.” Foto: Bombeiros procuram sobreviventes nos destroços em Chernigiv. © Ministério dos Assuntos Internos da Ucrânia

 

“Seis meses de avanços e recuos sem um fim no horizonte” – assim uma notícia de há dois meses retratava a evolução da guerra na Ucrânia. Os cenários de morte e destruição vão-se repetindo e a eles quase nos habituamos. A contabilidade de vidas perdidas, de um e de outro lado, cresce de dia para dia. O que aparenta ser uma inversão da tendência de derrota está longe de ser uma vitória e desencadeia uma mais forte reação contrária gerando uma espiral interminável.

Entretanto, as consequências indiretas da guerra traduzem-se numa crise económica mundial que a todos afeta, a uns (os mais vulneráveis, como quase sempre) mais do que a outros. Procuram-se paliativos para atenuar esses efeitos, mas, verdadeiramente, só o fim da guerra permitirá superar essa crise.

Não podem deixar de nos vir à mente palavras que denunciam vigorosamente o absurdo da guerra. As dos sucessivos pontífices, por exemplo. “Massacre inútil” (“inutile strage”) – clamou Bento XIV nas vésperas da I Guerra Mundial. “Nada se perde com a paz, tudo pode ser perdido com a guerra” – afirmou Pio XII pouco antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial. “A guerra é uma aventura sem retorno” – disse São João Paulo II a propósito da guerra no Iraque, que procurou evitar a todo o custo. Também neste caso da Ucrânia, sabemos como começou a guerra, não sabemos ainda hoje como vai terminar e que danos ainda vai provocar. É mesmo uma “aventura sem retorno”.

É certo que denunciar sem mais o absurdo de qualquer guerra pode acarretar o perigo de não distinguir a responsabilidade de quem agride e a de quem se defende da agressão, como se fossem ambos culpados. Quando é nítida essa diferença de responsabilidades, o apelo ao fim da guerra há de dirigir-se, antes de mais, a quem agride, não pode é ser um convite à capitulação de quem se defende.

O Papa Francisco recordou há dias, na linha do Catecismo da Igreja Católica (n. 2308) a legitimidade de quem se defende de uma agressão injusta, como sucede atualmente com a Ucrânia. A defesa contra uma agressão injusta pode ser uma exigência do amor para com a Pátria que é agredida. E é legítimo que outras nações ajudem essa defesa, na estrita medida do necessário, sem, porém, alimentar uma escalada de retorsão.

No entanto, o Papa também continua a apelar ao fim da guerra através dos meios da diplomacia. Neste aspeto, já se distancia claramente das vozes mais comuns, que só aceitam a vitória incondicional da Ucrânia, sem qualquer tipo de cedência, porque qualquer cedência será uma forma de premiar o infrator. Neste contexto, é certo que nenhum dos contendores quererá dar um primeiro passo que represente a mínima forma de reconhecer alguma razão ao adversário, desde logo por uma questão de honra. Notei claramente uma atitude destas em declarações dos meus colegas da comissão Justiça e Paz da Igreja greco-católica ucraniana, que pareciam advogar uma absoluta intransigência e a resistência até à morte do último soldado.

Poder-se-á acusar o Papa de ingenuidade ao apelar à diplomacia neste contexto. Mas talvez seja ainda mais ingénuo e irrealista esperar uma vitória certa, plena e a breve prazo de qualquer das partes. Realista é pensar que da guerra ninguém sai verdadeiramente vencedor, que a destruição e morte por ela inevitavelmente geradas e as feridas que hão de permanecer para sempre impedem sempre de falar em vitória.

A guerra de defesa pode ser moralmente legítima, mas outras condições de legitimidade da guerra devem também, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica (n.º 1309), verificar-se, como a de que haja possibilidades sérias de êxito e a de que os males que ela acarreta não sejam superiores aos males que se pretende evitar (onde se inclui também, certamente, a necessidade de evitar a repetição de agressões no futuro).

São estas condições que justificam o recurso à diplomacia mesmo nas condições atuais, mesmo quando é clara a existência de um agressor e de um agredido. É verdade que ceder a algumas das exigências do infrator pode ser uma forma de o premiar e, desse modo, incentivar futuras agressões, da sua parte ou de outros potenciais agressores. Há que evitar que isso suceda. Mas tal não compromete qualquer tentativa de negociação diplomática. Reconhecer alguma razão ao adversário e aceitar alguma das suas exigências não é desonroso (não faz “perder a face”) e não significa necessariamente premiar o infrator. Reconhecer, por exemplo, que as pessoas de língua materna russa que de há muito vivem na Ucrânia têm direito à proteção da sua especificidade cultural não é ceder a nenhuma imposição arbitrária.

A vida humana e a paz são bens de valor imenso, que justificam até cedências maiores do que uma estrita justiça permitiria (“summun ius, summa iniuria” – já diziam os antigos). Cedências que não devem ser vistas como uma capitulação, mas como um reconhecimento do valor supremo desses bens.

 

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This