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[Metáforas vivas]

Avô, só homens!? Padres, para quê?

| 07/11/2024

[xxxi domingo do tempo comum // 1º dia da semana dos seminários ― b ― 2024]

[mar agitado? nuvens? / a palavra decide! ― / está na hora delas! © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

 

1. Que posso eu esperar?
Passemos antes ao plural:
Que podemos nós esperar? Onde reside a nossa esperança?
Estamos aqui, rezando e refletindo, na vossa comunidade.
Aliás, durante esta Semana de Oração pelos Seminários,
encontramo-nos também em muitas outras comunidades paroquiais
do extenso arciprestado de Barcelos, terra de missão para as gentes.
Saímos de nossa casa e agradecemos a vossa hospitalidade,
que nos incrementa a esperança no Senhor.
Ele que, conforme o disse pela boca de Jeremias,
continuará a dar presbíteros segundo o seu coração,
para exercerem uma competente direção eclesial
«com ciência e inteligência» (Jer 3,15).
Eis porque colocamos a nossa esperança no Senhor (cf. Sl 39,7).

[Padre no altar da Chiesa del Gesù, Roma, donde foi colhido o detalhe para o cartaz da Semana dos Seminários © fotografia: Joaquim Félix]

 

2. Este ano, coube ao Seminário Conciliar de Braga
preparar os ‘materiais’ para esta semana de oração incessante.
Fruto da avaliação que fizemos em julho passado
― na base de cerca de duas décadas de múltiplas iniciativas
e do congresso internacional sobre a problemática dos seminários católicos ―,
pareceu-nos fundamental propor, em termos nacionais,
uma maior consciencialização e corresponsabilidade eclesial de base.
Assim, além da habitual oração e dinâmicas com os grupos da catequese,
sugerimos esquemas de encontros, segundo o estilo sinodal,
com a implementação do método das rondas,
para quem está envolvido na catequese,
na pastoral da família, no ministério extraordinário da Comunhão
e noutros grupos eclesiais: escuteiros, movimentos e associações.

[Jovens seminaristas de várias dioceses no Seminário Conciliar de Braga © fotografia: Joaquim Félix]

 

3. Consultado o documento final
da Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade,
podemos ler algumas notas de orientação
quanto à formação dos candidatos ao presbiterado.
No n.148, aponta-se à necessidade da sua configuração «num estilo sinodal».
Em termos de concretizações, que poderá isto significar?
A resposta é clara: «Isto significa que
devem incluir uma presença significativa de figuras femininas,
uma inserção na vida quotidiana das comunidades
e uma educação para a colaboração com todos na Igreja
e para a prática do discernimento eclesial».
Para que isto possa acontecer,
sugere-se «um investimento corajoso de energia».
Qual? Este, precisamente: a «preparação dos formadores».
Por conseguinte, a Assembleia solicita a revisão
da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis,
documento que contém as ‘diretrizes’ da formação nos Seminários.
É verdade que, há meses, este documento acabou de ser trabalhado,
em ordem a uma melhor adequação às realidades nacionais.
Agora, porém, espera-se que, numa redação significativamente renovada,
as orientações dadas pela Assembleia sinodal sejam traduzidas
«em indicações precisas para uma formação à sinodalidade».
Tal revisão atenderá, ainda, a uma outra disposição:
«Os percursos de formação devem ser capazes de despertar nos candidatos
a paixão pela missão ad gentes».

[Reunião no final da missa na paróquia de Abade de Neiva © fotografia: Joaquim Félix]

 

4. Nos inícios do mês setembro deste ano,
os formadores dos Seminários de Portugal foram informados
sobre o processo de revisão deste documento.
Foi algo que sucedeu no encontro realizado no Seminário de Coimbra,
promovido pela Comissão Episcopal Vocações e Ministérios.
Nessa altura, refletimos e avaliámos a situação nacional.
De grande clarividência foram as palavras do Pe. José Frazão Correia sj.
Segundo ele, neste setor da pastoral, como noutros que o antecedem,
existem mudanças urgentes a implementar.
Mais: estas mudanças não se concretizarão por inércia,
mas somente por atos corajosos, que resultam da eleição ou da decisão.
O Espírito Santo está a dar-nos sinais, há muito, muito, tempo.
Há que escutá-lo, discernir e agir conforme o seu influxo.

[Porta de quarto no Seminário de Coimbra com nomes grafitados ao longo de gerações © fotografia: Joaquim Félix]

 

5. Na forma como responde ao escriba,
Jesus ajuda-nos a estabelecer prioridades libertadoras,
para, como Ele, darmos respostas inteligentes às perguntas de fundo.
Tendo incarnadas as lealdades do Deuteronómio (cf. Deut 6,2-6),
Ele insiste, antes de mais, na auscultação, a raiz do amor obediente.
A lei da liberdade começa na escuta em profundidade
― no coração inclinado ao Espírito do Senhor ―,
mandamento que está na génese da nossa identidade enquanto povo.
Porém, Jesus surpreende com duas dimensões intrínsecas:
A inteireza do amor implica, também, a totalidade do entendimento;
e não se pode dissociar o amor a Deus do amor ao próximo.
E estes dois preciosos detalhes até o atento escriba soube apreciar,
sublinhando tanto o amor ao «próximo como a si mesmo»
como a Deus «com toda a inteligência» (Mc 12,33).
No fundo, é amar da forma mais plena possível.
Sim, com a ferramenta eterna que é o amor.

6. Este par de detalhes, que são mais do que adendas de Jesus,
fizeram com que, este ano, relesse um outro pequeno livro.
Há precisamente um ano, como alguns recordarão,
revisitei o livro Que padres… Para a Igreja?, de Bernhard Häring.
Hoje, detenho-me em algumas prioridades assinaladas por Hans Küng,
no seu interpelante livro intitulado Padres para quê?
Sim, padres, para quê?, perguntaremos também nós.
O que está a suceder na pastoral da celebração do sábado-domingo?
Porque será que, com a quase-monocultura da missa,
há cada vez menos pessoas a participar nas missas?
Tendo nós escutado a passagem da Epístola aos Hebreus,
gostaria de evidenciar algo que Hans Küng escreve no capítulo III,
sobre o Desenvolvimento da conceção tradicional do ministério:
«…quem preside à celebração eucarística
não deve ser considerado como sacerdote sacrificador.
Considerá-lo sob esta perspetiva contradiz todo o Novo Testamento
e em especial a Epístola aos Hebreus» (pág. 74).

[Capa do livro de Hans Küng © fotografia: Joaquim Félix]

 

7. Por todas as razões, mas sobretudo neste tempo de metamorfoses,
que está a operar profundas mudanças nas formas de ser Igreja,
torna-se improcrastinável a escuta dos sinais à luz do Novo Testamento.
É isso que, de modo profético, Hans Küng faz no seu pequeno livro,
no capítulo IV, ao refletir e apontar caminhos de reabertura na aridez,
sobre A forma do serviço de direção na Igreja,
a partir das suas variáveis e constantes na História do cristianismo.
Porque pertinente, entre as diversas variantes que ele aferiu,
a propósito da formação dos responsáveis no contexto atual,
ele coloca a questão da formação académica dos responsáveis das comunidades:
«Não se deve menosprezar a formação académica do responsável da comunidade».
E, logo a seguir, acrescenta:
«Não foi sem razão que alguns santos de antigamente
preferiram um confessor não muito piedoso mas sábio,
a um piedoso mas pouco inteligente.
A ignorância teológica é causa do imobilismo de muitos padres
na pastoral prática» (pp. 82-83).

 8. Depois de analisar a situação da redução severa de jovens
nos seminários da Holanda, algo que agora sucede em Portugal
― este ano, a média de entradas de jovens portugueses
para o Tempo Propedêutico,
tendo em conta todas as dioceses e ordens religiosas, não chega a 1,5 ―
conclui com algo que exige uma atenta consideração:
tais números «obrigarão, no entanto, a uma mudança,
sob muitos aspetos demasiado tardia e não sem causar imensos prejuízos.
O papa e o episcopado destes tempos ficarão responsáveis,
perante a história da Igreja, por uma evolução que há muito era previsível.
A solução satisfatória para este problema
não será dada por soluções a meias, inconsequentes,
como a admissão de homens casados (portanto mais velhos),
mas somente pela restauração da liberdade cristã primitiva,
que nem os dirigentes da Igreja têm o direito de violentar» (pp. 86-87).

[Da liberdade cristã primitiva: nem os dirigentes da Igreja têm o direito de violentar © fotografia: Joaquim Félix]

 

9. Uma outra variante, levanto-a eu com uma história verídica.
Um dia, o avô Manuel veio com o seu neto, criança de poucos anos,
à missa na igreja de S. Paulo do Seminário Conciliar.
Nesse dia, como sucede no último da Semana dos Seminários,
estavam presentes o arcebispo e um grupo de padres.
Ao ver o reboliço inabitual o neto pergunta ao avô o que se passaria.
Porém, à resposta do avô, o neto tem esta exclamação interrogante:
«Avô, só homens!?».
Não se poderá ler nesta expressão um sinal do Espírito?

10. Mesmo ao lado da mesa da paramentação encontra-se
um quadro das Cartas de S. Paulo pintado por Ilda David’,
com a passagem da Carta aos Gálatas (cf. Gal 2,9s).
Nela é narrada a decisiva reunião em Jerusalém,
que terá sido muito agitada com distintas formas de pensar
― os traços da pintora evidenciam tal atmosfera ―,
onde se tomou uma das mais difíceis decisões do cristianismo nascente:
a não imposição da Lei Moisaica aos gentios, como a circuncisão.
Mutatis mutandis, hoje a questão do lugar da mulher na Igreja
não estará ao nível da mesma magnitude da decisão tomada em Jerusalém?

[Pintura da Carta aos Gálatas, por Ilda David’, igreja de S. Paulo do Seminário Conciliar de Braga © fotografia: Joaquim Félix]

 

11. Alinhados com a confiança no Senhor, o que podemos esperar?
Estou persuadido de que a preocupante lentidão
nas decisões sobre o serviço da direção eclesial,
que se cruza com a problemática dos seminários católicos
― por mais que haja uma nova sensibilidade da Santa Sé ―,
acabará por revelar-se muito prejudicial
sobretudo para a vida, desejada e possível, das comunidades cristãs.
Que S. Paulo nos aumente a coragem para tomar grandes decisões.
Porque somos tão tardos?
Por nada irrelevante, um jovem com cerca de vinte anos,
no final de um encontro de reflexão sobre os seminários,
tendo em conta o êxodo de muitos batizados, disse: «Já vêm tarde!».

[Restos de um fresco na basílica de Castel Sant’Elia, Itália © fotografia: Joaquim Félix]

 

12. Então, como esperar neste cenário que tanto nos implica?
Conservemo-nos orantes sem cessar;
por isso, estamos aqui, rezando juntos.
Oremos para que seja possível reavivar o amor do início,
na expressão plural permitida no Novo Testamento
e nos primeiros três séculos do cristianismo,
ajustada às circunstâncias do tempo presente.
Esperemos, sim, com fundada esperança no Senhor,
sob o impulso do vento impetuoso do Espírito Santo que abre portas.
Que ele nos dê coragem para tomar decisões que já pecam por tardias.

[Jovens do Seminário Conciliar na Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão © fotografia: Joaquim Félix]

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia do Domingo XXXI do Tempo Comum, 1º dia da semana dos seminários, proferida no sábado na paróquia de Abade de Neiva (mas com duas outras comunidades presentes, Vila Boa e Silva), e no domingo na paróquia de Viatodos; todas comunidades paroquiais do arciprestado de Barcelos.

 

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