Deram-lhe o nome de Kristin, e foi a tempestade que atravessou o centro do país deixando um rasto de destruição que transformou a paisagem num cenário desolador.
A resposta do povo português não se fez esperar: reagiu com a boa vontade visceral e a generosidade que o caracterizam. E nas primeiras horas, enquanto as entidades estatais tentavam comandar e coordenar as suas ações, o que vimos foi um país em movimento: carrinhas carregadas de mantimentos, mãos anónimas a retirar lama de casas que não eram as suas e uma mobilização digital que fazia chegar ainda mais auxílio.
É uma beleza crua esta: um povo que se levanta para garantir que o vizinho tem um teto ou uma sopa quente; que aquele voluntário está a precisar de um copo de café; que a dona daquela loja destruída precisa de uma palavra de alento e de um abraço.
Naqueles dias e semanas, apesar das falhas de energia, surgiu uma inquebrável corrente elétrica de entreajuda.
Contudo, existe um fenómeno inevitável em todas as catástrofes: o momento em que as câmaras se desligam, os jornalistas partem para a próxima crise e o mundo, subitamente, fica em silêncio. É aqui que a natureza da solidariedade é testada: passamos do imediato da ajuda para a resistência.

Rede de solidariedade foi montada pela sociedade civil na região. Na imagem, voluntários refeitório do Seminário de Leiria. Foto © Paulo Adriano.
Esta dinâmica faz-me lembrar a história de uma jovem que, há uns anos, enfrentou um internamento hospitalar prolongado. Nas primeiras duas semanas, o quarto parecia uma sala de eventos e não havia jarra para tantas flores. O telemóvel não parava de vibrar com mensagens e as visitas faziam fila no corredor, ansiosas por mostrar que “estavam lá”. Havia ali uma urgência em ser solidário, era a pressa para marcar presença no palco da provação.
Mas o tempo, esse mestre da verdade, começou a passar e as semanas transformaram-se em meses e, aos poucos, o desfile de visitas começou a rarear. As flores murcharam e não foram substituídas; as mensagens passaram de diárias a semanais, até ao silêncio digital. E no final, quando a batalha contra a doença era mais dura e a solidão pesava, restaram apenas três ou quatro pessoas: os corajosos que não precisavam do drama da novidade para lembrar que ela ainda ali estava, entre lençóis e máquinas a apitar.
O que irá acontecer no nosso país pode vir a ser o reflexo daquele quarto de hospital, quando o ruído mediático desaparecer e a ajuda deixar de ser por impulso, deixar de ser um gesto instintivo que acalma a consciência num domingo à tarde. É fácil ser generoso por impulso, a “urgência de ajudar” pode ser viciante e perigosa, pode levar a que fiquemos insensíveis às necessidades a longo prazo.
O apoio após o frenesim é o mais difícil de manter, é silencioso, invisível e, muitas vezes, solitário. É o apoio de quem percebe que a reconstrução de uma vida, tal como a recuperação de uma doença grave, se faz na lentidão penosa dos dias comuns – uma família que perdeu tudo não precisa de mantas apenas na primeira noite, precisa de acompanhamento se os apoios tardarem e quando a adrenalina da sobrevivência for substituída pelo peso gélido da realidade.
A verdadeira medida de um povo não se vê na rapidez com que envia água e roupa, mas na persistência com que mantém a mão estendida quando o tema deixa de ser tendência. Portugal mostrou que tem um coração enorme, mas agora enfrenta o desafio de mostrar que tem memória: reconstruir é um ato de resistência contra o esquecimento.
Que a nossa boa vontade não seja um fogo de artifício, brilhante e fugaz, mas sim um fogo lento, em que a brasa acesa debaixo da cinza, garante que ninguém é deixado para trás quando a luz voltar e a vida, teimosa, tentar recomeçar.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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