Dos sintomas
A realidade maniqueísta do gosto/não gosto, a versão superficial do porque sim/porque não ou a sua sucedânea preguiçosa do sim/não, mas não sei explicar podem radicar na ingenuidade da crença em ‘magias’ messiânicas, que prometem sucesso inequívoco. Falamos do contexto educativo em geral e escolar em particular, que, cedendo a esta tendência, etiqueta redutoramente os jovens como consumidores do processo de fabricação social, remetendo-os para um futuro eventualmente ótimo, mas ao qual se subtrai o bom do presente e o lastro da memória. O imediato, indolor e eficaz, é a receita preconizada por tal atitude.
Resultante da ambiguidade virtuosa e irreversível, própria de todo o humano, da globalização, a realidade cósmica efervesce nas mentes como hipercomplexidade triturante, geradora do ‘não vale a pena’. Tudo o que é estruturalmente decisor aparece como distante, inalcançável, inalterável. Inevitável nas consequências, ininfluenciável nas causas. A ‘nossa parte’, aquela que competirá ao exercício livre e comprometido da nossa obrigação cidadã, aparece como algo irrelevante para os sujeitos anónimos. Cada um/a de nós. Como tal, torna-(n)os abstencionistas, absentistas, auto-heterodemitidos. Esta epidemia endémica tende a propagar-se numa solidariedade negativa, que pode redundar numa imunidade de grupo contra o novo e diferente, cerrando fileiras no conforto sem confronto do exercício de manutenção do mesmo.
A fé é um conceito em crise, que pode ser chamado para esta discussão. Evidentemente com essa crise atrelada, que a desviou do campo da utopia comprometida, comunitária, para um pragmatismo em função de resultados de sabor individualista, residualmente tolerante ao acrescento de outros, quando aportam capital de eficácia. Ou a fez gasosicidade etérea e privada. Descremos do simples e pequeno, quando o macro é ditadura impositiva. E isso inibe a prática, porque faz depender esta de critérios de sucesso mensurável, segundo prerrogativas mercantis. Quando por aqui se configuram programas, metodologias e objetivos (escolares), o comunitário fica ferido na possibilidade de operacionalização. Sempre que o confundimos com unanimismo, maculamos a sua substância e ele perde capacidade de salgar de sabor a cultura, enquanto pedagogia social de longo alcance e validade duradoura, numa identidade que se conjuga com revisibilidade regular inteligente e participada.
Pelos caminhos

“Assim sendo, precisamos de percorrer (novos) caminhos de militância significativa, que aproveite o capital de indignação e crítica presente nas gerações mais jovens.” Foto © Steffan Mitchell / Unsplash
Sem vínculo(s), podemos questionar se a pessoa se cumpre na densidade de sentido antropológico pleno. A resposta não pode ser positiva. Assim sendo, precisamos de percorrer (novos) caminhos de militância significativa, que aproveite o capital de indignação e crítica presente nas gerações mais jovens. Primeiramente, de o provocar, se ele se apresentar em estado de letargia. Dada a sua permeabilidade e exposição à infinidade comunicacional, a adesão militante dos jovens irá seguramente acabar por acontecer, sem discernimento crítico, dada a sua necessidade antropológica constitutiva. Sem alguns ‘inputs’ ficarão mais à mercê de ‘arrebanhamentos’ feitos de eticamente duvidosas subtilezas de agenda. Depois deste dinamismo provocador, é papel dos educadores-pedagogos incorporarem de forma enraizada a convicção de que os mais novos são capazes do grandioso, não necessariamente grande no imediato quantificável. Notem-se algumas militâncias potencialmente mobilizadoras. Na causa ecológica, (desgraçadamente) os efeitos devastadores crescem na proporção dos negacionismos. Lidamos, como sociedade, aparentemente de modo tranquilo com a narrativa da morte anunciada do ecossistema que nos sustenta. E aí estão os jovens, ‘já’ como educadores dos crescidos. Além da militância ecológica, a pobreza, a fome, a guerra e a(s) violência(s) de género(s) (ainda) constituem temas/causas geradores de indignação, sobretudo se se conseguir associar reflexão e exposição à realidade, diagnóstico e compromisso, distância crítica e proximidade afetiva existencial. A tão problematizada cidadania tem também aqui campo privilegiado, nomeadamente começando por desformatar a sala de aula como espaço dogmático e absoluto de ensino-aprendizagem e os conteúdos como doutrina facilitadora absoluta, para dar lugar à negociação que conduza a aprendizagens essenciais e à aquisição de competências. Nessa linha, as causas estarão recheadas de conceitos, que atestam fundamentações, predominâncias, intuição de consequências, mas não são apenas categorias sociológicas, vertendo-se, nos casos em apreço, em pobres concretos, pessoas reais que não comem ou estão sujeitas a situações de guerra e outras formas de violência.
O compromisso com a proximidade é uma outra possibilidade de caminho a percorrer, agregando, a montante desse vínculo empenhado, a crença de que os ‘pães se podem (efetivamente) multiplicar’. Agora e aqui. Importa renegar a tese dogmática da inevitabilidade da pobreza, da demissão que remete para a letra de decretos promulgados por ‘entidades sem rosto’ a transformação social, da circunscrição a uma pequenez orgulhosamente só de fronteiras cerradas, autodenominada incapaz da mudança, esmagada por uma conjuntura amplamente maior e mais poderosa. Se, por um lado, num quadro globalizado, ninguém resolve nenhum problema estrutural de modo isolado, por outro, é também possível (e urgente) globalizar mecanismos de emancipação cultural, a partir de comportamentos localizados. E aí os jovens podem ser protagonistas, porque esta sensibilidade efervesce dentro de si, na espera de ser provocada e desvelada. Importa que, para tal, cresçamos nas pertenças aos espaços e às dinâmicas que os fazem, para que, sempre que estes/as estiverem ‘em causa’, sejamos nós – os sujeitos – os perguntadores e o conteúdo do que perguntamos. Dessa forma, a transformação criativa impulsiona-se desde cada um e verte-se em fermento social, como a escola como palco de atores-alunos protagonistas.
Uma atitude de fundo, feita caminho e tentativa, podia radicar na consciência de que apenas há colheita porque houve (antes) sementeira. Há muito que não foi feito por nós, de que somos apenas fruidores e, assim sendo, a questão incontornável seria ‘o que queremos nós semear?’. Sem preocupação obsessiva com a colheita imediata e eficaz. Da parte dos adultos, teremos de aprender a lidar com a (im)popularidade, o (in)reconhecimento, a (in)eficácia, cultivando o ensaio, a sinodalidade, a criatividade. Isto contra a repetição preguiçosa, o dogmatismo curricular, a segurança do experimentado. Uma vez mais, a escola desburocratizada e desformatada a ser tubo de ensaio social.
Das descobertas

“Precisamos encetar processos de descoberta dos bastidores, não para os ‘evangelizar’ ao jeito das cruzadas, mas para aprender.” Foto © Milkos
Precisamos encetar processos de descoberta dos bastidores, não para os ‘evangelizar’ ao jeito das cruzadas, mas para aprender. A avaliação de uma realidade social (tomemos aqui a escola e a pequena comunidade como exemplos) pode privilegiar as predominâncias (positivas ou negativas), mas também centrar-se nos nichos de positividade que sempre são remetidos para as antecâmaras dos palcos. Não são metodologias excludentes ou alternativas. Complementam-se. Mas ali, nos ‘bastidores’ habitam agentes interessantes, muitos sem voz nem espaço nos centros. Temos de abdicar da arrogância do ‘pretenso’ centro onde (supostamente) nos encontramos e onde queremos que todos venham. Que queiramos que estejam demoradamente é mais duvidoso!. Ficamos demasiado confortáveis na divulgação tradicional(ista) dos nossos programas de ‘último grito da moda pedagógica’, sem escutarmos uma multidão anónima que habita os bastidores destes processos e rotulamos de ‘surda’ à qualidade das nossas propostas. Diabolizar uma cultura – a nossa! -, como se ela incorporasse todos os males, sem o simétrico ato de fé de que nela estão também todos os caminhos de transformação, é uma leitura desonesta. E como esta mudança não pode advir de uma importação interplanetária (por agora!), e como ‘o mesmo’, o do ‘mesmo modo’ e o ‘com os mesmos’ parece não resultar, emerge como inevitabilidade inteligente modificar algo nos agentes, já que os destinatários não são escolhíveis.
Temos também de descobrir os processos, prévios aos resultados. A sua qualidade, consistência e beleza. Sim, além da ecologia, a beleza, a estética, são ‘causa’ mobilizadora das gerações mais jovens. ‘Cultivar o gosto’ é uma metodologia urgente, trabalho lento e artesanal, que não pactua pacificamente com o quadriculado do ‘excel’ e a aferição quantitativa do resultado. A desconfiança nos processos mina a sua operacionalização, antecipa o claudicar dos resultados, mas, sobretudo, contribui para que não se dê tempo aos projetos e se faça uma coisa e o seu contrário ao sabor das conveniências do momento. E dos protagonistas mais extrovertidos, contorcionistas ou obedientes. Com empobrecimento do todo.
A descoberta e a construção de ‘eutopoi’, lugares de felicidade boa e consistente é outro caminho de discernimento que importa fazer. Ceder ao facilitismo confortável não educa. Mas também não podemos viver à custa de lugares educativos (tidos) como penosos, torturantes, aprisionantes. A escola ser (vista como) isto, destrói a sua identidade e inviabiliza o seu futuro. E é fruto de mentalidades culturais, que se vão acumulando como camadas de difícil remoção, mais do que resultado de opções estratégicas circunstanciais. Logo, cada vez que nos centramos na discussão das estruturas físicas, talvez não estejamos a acertar nos alvos que interessam.
Sem ‘mandar fora o menino com a água do banho’, virar as dinâmicas do avesso, e trazer os ‘bastidores’ para o ‘palco’ pode ser uma metodologia descobridora das vitalidades que dão carne ao esqueleto das decisões e que, não raro, são obscurecidas em favor deste.
Luís Francisco Marques, a reconstruir-se como professor nas áreas da Filosofia, no ensino secundário profissional.










