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Bairro popular de S. João, no Lobito, em Angola. Foto DR
Bairro popular de S. João, no Lobito, Angola. "A exclusão social e a luta pela sobrevivência atingem níveis cada vez mais desesperantes." Foto: Direitos reservados

Pelos 50 anos de independência

Bispos de Angola organizam congresso para promover “verdadeira reconciliação” no país. Atingirão o objetivo?

| 05/11/2025

A independência de Angola foi uma conquista, mas hoje – passados 50 anos – “a paz e a reconciliação continuam a ser um projeto em construção por consolidar” no país. Quem o diz é a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe (CEAST), que decidiu aproveitar as celebrações deste 50º aniversário para organizar um Congresso Nacional da Reconciliação, e convidar “a Nação inteira, homens e mulheres de boa vontade” a fazerem juntos uma espécie de “exame de consciência”. A iniciativa terá lugar esta quinta e sexta-feira, 6 e 7 de novembro, em Luanda, e há expetativas elevadas, mas também algum ceticismo, em relação ao que dela poderá advir.

A data oficial do aniversário da independência angolana é a 11 de novembro e o grande objetivo é, ainda antes disso, congregar durante este congresso lideranças religiosas, políticas, sociais, académicas e comunitárias num espaço único para identificar “as falhas, as irresponsabilidades, as omissões, com um propósito de emenda”, explica o presidente da CEAST, o bispo José Imbamba.

Tendo como lema “Eis que faço novas todas as coisas”, o congresso pretende constituir-se como um “marco relevante” no caminho de escuta, diálogo e compromisso com a reconciliação nacional. “O nosso país precisa de uma reconciliação verdadeira, que cure as feridas do passado e nos permita construir um futuro em conjunto de convívio harmonioso, de desenvolvimento sustentável e de justiça social”, diz o também arcebispo de Saurimo. Porque, apesar da “ausência de guerra” e da “euforia” em torno das celebrações do cinquentenário da independência, essas celebrações acontecem “num contexto de miséria, de assimetrias a todos os níveis, num contexto de falta de reconciliação efetiva”, lamenta.

E a Igreja Católica quer contribuir para estabelecer a “amizade social” necessária no meio das diferenças, procurando “oportunidades de conhecimento, de identidade e partilha”. Até porque, assegura o bispo José Imbamba, o país “tem tudo para viver na dignidade, tem tudo para prosperar, tem tudo para oferecer aos seus filhos”. “Mas faltam-nos inteligências, faltam-nos culturas que nos ajudem a ver, naquilo que somos e temos, uma oportunidade para poder distribuir justamente por todos, essas oportunidades iguais para todos, para cada um poder trabalhar, esforçar-se e produzir aquilo que bem entender para o seu bem”, conclui.

 

Mais uma etapa de um longo caminho

Lar das Irmãs de S. José de Cluny em Lândana - Cabinda Foto DR

Lar das Irmãs de S. José de Cluny, em Lândana – Cabinda. Foto: Direitos reservados

Esta iniciativa da Igreja Católica “não constitui propriamente uma novidade” em Angola, assinala o frei Mário Rui Marçal, assistente espiritual da Fundação Fé e Cooperação (FEC), que desenvolve vários projetos de apoio ao desenvolvimento naquele país.

Em declarações ao 7MARGENS, o frade dominicano lembra que o congresso que agora se realiza vem “na senda de muitas outras iniciativas que foram sendo tomadas ao longo destas cinco décadas”, nomeadamente “várias cartas pastorais dos bispos da CEAST apelando à paz quando só a guerra parecia possível (sobretudo nos anos oitenta e noventa do século passado) e denunciando a corrupção e a exclusão económica e social da grande maioria da população (sobretudo desde 2002)”; “a 1ª Semana Social Nacional, realizada em 1999, com o tema ‘Educação para uma Cultura da Paz’, a que se seguiram Semanas Sociais Nacionais de quatro em quatro anos”; ou ainda “o Congresso Pro Pace, realizado no ano 2000, com a participação também de diversas lideranças eclesiais, das estruturas do Estado, dos partidos políticos e da sociedade civil”, exemplifica.

E não tem dúvidas de que “é importante que a Igreja angolana continue a tomar iniciativas que ajudem os diferentes setores da sociedade a refletir e a dar passos concretos para a construção de uma sociedade com maior justiça social”.

Também para o padre Tony Neves, assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), esta iniciativa “ganha um valor inestimável” e “a sua organização só podia ser feita pela Igreja Católica, que tem autoridade moral e tem estrutura para lançar um evento desta envergadura, mesmo às portas da celebração dos 50 anos da Independência”.

Ouvido pelo 7MARGENS, este missionário, que trabalhou em Angola durante a guerra civil, de 1989 a 1994, no Kuito e no Huambo, lembra também algumas das iniciativas que a Igreja Católica lançou no país em defesa da liberdade e dos direitos humanos, como o Mosaiko, o Comité InterEclesial para a Paz (COIEPA), e o Movimento da Promoção da Mulher na Igreja Católica (PROMAICA), “que deram uma ajuda preciosa no eliminar das raízes da guerra e no construir as bases de uma paz duradoura.

O prelado, que vive atualmente em Roma, destaca que essa mesma Igreja continua presente em todo o país, “alinhada com a dinâmica sinodal lançada pelo Papa Francisco” e com “um episcopado competente e interveniente”, de que “são prova a última Mensagem da Conferência Episcopal e a Nota da Comissão Episcopal Justiça e Paz”, sobre as quais fala, de resto, no seu mais recente artigo.

Quanto a este congresso, considera que ele vem “avaliar e potenciar uma história de lucidez e compromisso corajoso em favor de um futuro de justiça, paz e liberdade em Angola”. E, na sua opinião, “nada melhor que colocar tudo debaixo do grande e decisivo chapéu da ‘Reconciliação’, uma realidade-chave para todos os contextos humanos, mas com uma atualidade máxima nesta Angola que celebra 50 anos”.

 

Entre os sonhos e os maus prenúncios

Mercado popular na estrada Luanda-Benguela

Mercado popular na estrada Luanda-Benguela. Foto: Direitos reservados

Mas que consequências práticas poderão advir de mais uma iniciativa da Igreja Católica em prol da paz em Angola? “Espero que todos aceitem que há que investir muito na construção de uma Angola mais livre, democrática, justa, plural, onde cada cidadão sinta que as riquezas do país são para todos. Se estes valores de fundo forem aceites, a pobreza será atacada, a estabilidade estará assegurada, a violência será estancada, temas fortes como saúde, educação, trabalho, habitação terão resposta aplicada ao dia a dia das pessoas…”, responde o padre Tony Neves.

O missionário espiritano acredita que “este congresso irá aproximar políticos que as ideologias e a história separou” e, se assim for, “teremos garantias de que as instâncias próprias vão produzir, num futuro próximo, leis para combater a corrupção, abater desigualdades gritantes, criar estruturas económicas e sociais que conduzam a um desenvolvimento sustentável e sustentado, apoiado na defesa da casa comum, através de práticas de ecologia integral”, diz, admitindo que poderá estar a “sonhar alto”.

“Mas – quero convencer-me disso – se o congresso ajudar a reconhecer que houve graves atentados à justiça, paz e fraternidade e se as recomendações finais forem tomadas a sério, Angola rasgará caminhos de futuro para todos e não apenas para uma elite, como foi até agora. Reconciliados, de mãos dadas, os angolanos (e quem lá vive) vão construir um país mais livre, mais desenvolvido, mais justo, menos violento, mais plural, mais fraterno”, afirma.

Quanto ao frei Mário Rui Marçal, é um pouco mais cauteloso na gestão das expetativas. Se por um lado reconhece que “vários setores da sociedade angolana olham para o congresso como uma oportunidade de criar ‘reconhecimentos mútuos’ sobre a história vivida nos últimos 50 anos e de consensualizar algumas linhas de rumo para o futuro do país”, também admite que “noutros setores, a realização deste Congresso Nacional de Reconciliação é olhada sobretudo com ceticismo, reconhecendo que dificilmente se conseguirá chegar a consensos”.

Para o religioso, que também viveu naquele país em tempo de guerra, é ainda essencial “ter presente que vários sectores da sociedade angolana veem na participação neste tipo de iniciativas uma oportunidade para desenvolver as suas próprias estratégias que não estão necessariamente alinhadas com os objetivos do congresso”. Por isso, na sua perspetiva, “o êxito desta iniciativa depende fundamentalmente da forma como os trabalhos forem conduzidos em função dos objetivos preconizados e da capacidade dos intervenientes superarem os seus próprios interesses em função desses objetivos”.

A anunciada ausência do Presidente da República, depois de a data do congresso ter sido alterada para se ajustar à sua agenda, “não é um bom prenúncio”, aponta. “Penso que seria a primeira vez que o Chefe de Estado participaria num evento deste tipo, e a sua ausência é um sinal claro de distanciamento em relação aos objetivos do congresso e à sua aplicação prática”.

Além disso, Mário Rui Marçal deixa um último alerta: é que, “se o congresso não alcançar os objetivos que se propõe – proporcionar um encontro nacional de autoavaliação e da busca dos novos rumos para o nosso futuro, estabelecendo um compromisso comum para com o futuro da nação angolana através de uma Carta do Cinquentenário onde se espelhem as preocupações que o passado histórico produziu e uma nova proposta de vida”, isso será “mais um motivo de desencanto e frustração numa sociedade onde a exclusão social e a luta pela sobrevivência – que afetam a grande maioria da população – atingem níveis cada vez mais desesperantes”.

Mas não deixa de o encarar como “uma oportunidade para que os diferentes setores da sociedade angolana, em conjunto, proponham caminhos que a ajudem a realizar os ideais que levaram à independência nacional, nomeadamente uma sociedade pacificada, mais justa e inclusiva”. É preciso que saibam aproveitá-la.

 

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