Pobreza, fiscalidade e imigração

Bispos e líderes religiosos em rota de colisão com o Governo britânico

| 13 Mar 2023

primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, chega a Munique, 27.02.2023, foto Facebook Rishi Sunak

O primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, está a ser pressionado pelos líderes religiosos para aumentar os impostos sobre os mais ricos. Foto reproduzida a partir da página de Facebook de Rishi Sunak.

 

O ex-arcebispo de Cantuária, Lord Williams, é um dos 17 bispos e 20 outros líderes religiosos que divulgaram no dia 13 de março uma carta aberta ao primeiro-ministro britânico pedindo que o Governo aumente os impostos sobre os ricos, de modo a poder apoiar as famílias mais pobres a enfrentarem a atual “crise do custo de vida”.

Este pedido contraria a pressão feita na semana anterior por alguns deputados do Partido Conservador para que no próximo Orçamento de Estado o Governo de Rishi Sunak reduza as taxas dos impostos sobre o rendimento dos mais ricos. A questão da redução de impostos esteve na base da queda do anterior Governo de Liz Truss – o mais curto da história do Reino Unido (seis semanas) –, programa contra o qual Sunak (que foi ministro das Finanças de Boris Johnson de 2020 a 2022) se bateu durante a disputa que travou com Truss pela liderança do Partido Conservador no verão do ano passado.

De acordo com a carta agora assinada por aqueles líderes religiosos, “a crise do custo de vida não é sazonal – é estrutural”, sendo que o “próximo orçamento da primavera é uma oportunidade para encontrar soluções” para fazer frente à crise económica e para oferecer “uma resposta mais compassiva” e “restaurar a esperança nas nossas comunidades”.

O recente estudo publicado pela New Economics Foundation, que indica que “43 por cento das famílias não terão um padrão de vida decente até 2024” e que “75 por cento das famílias mais pobres não dispõem do essencial, isto é, capacidade para terem com que comer, comprar roupas novas, ou aquecer as suas casas”, é citado na carta aberta enviada ao primeiro-ministro. Nela é também referido o facto de o Reino Unido ter hoje um “número recorde de bilionários” e ser um país que “nunca foi tão confortável para os extremamente ricos, enquanto os padrões de vida da maioria das pessoas continuam a sofrer um declínio acentuado”.

É tendo em conta estes dados que os líderes religiosos recordam como “o sistema atual tributa desproporcionalmente os rendimentos do trabalho, enquanto as pessoas que já são ricas e vivem dos rendimentos das suas propriedades são tributadas de forma relativamente leve” e, por isso, exigem que a fiscalidade seja vista como uma questão “moral e técnica e um meio para criar uma boa sociedade, com serviços compartilhados e uma forte rede de segurança social”.  “Aqueles de nós que têm a sorte de ganhar mais e possuir mais devem pagar a sua parte de forma adequada a que todos possam viver bem e não viver com medo da pobreza”, conclui a carta aberta.

 

Arcebispo contra Lei da Imigração e Asilo

arcebispo de York, Stephen Cotrell, foto The Chirch of England

O arcebispo de York, Stephen Cottrell, classificou o projeto de nova Lei da Imigração e Asilo como “uma crueldade sem propósito” e uma proposta “imoral e inepta”. Foto © The Church of England.

 

A carta aberta surge na sequência de outro enfrentamento da Igreja Anglicana de Inglaterra com o Governo de Rishi Sunak a propósito do projeto de nova Lei da Imigração e Asilo que pretende deportar de imediato para os países de origem todos os imigrantes ilegais que atravessarem o Canal da Mancha. Em declarações a The Observer, o arcebispo de York, Stephen Cottrell, classificou, no domingo dia 12 de março, o projeto de lei como “uma crueldade sem propósito” e uma proposta “imoral e inepta”.

O arcebispo de York reagia à proposta governamental de deter todos os adultos que atravessem ilegalmente o Canal da Mancha e considerar “inadmissível” o seu pedido de asilo, independentemente das circunstâncias de cada um, e de os reenviar, dentro de um prazo máximo de detenção de 28 dias, para o seu país ou para um “terceiro país seguro”, como o Ruanda, se isso não for possível.

Os cristãos estão “moralmente obrigados a encontrar maneiras de acolher o estrangeiro e alimentar o faminto. Isso não significa que vale tudo, mas significa que todos contam”, sublinhou Stephen Cottrell, citado por The Guardian, que criticou o projeto de lei por este propor que “se prendam famílias, crianças e outros refugiados simplesmente por pedirem proteção”.

A condenação de Stephen Cottrell surge após um grupo de mais de 350 instituições de caridade, empresas, sindicatos e grupos jurídicos terem vindo a público condenar os planos “cruéis e impraticáveis” de Rishi Sunak de deter e deportar imediatamente aqueles que chegam ao Reino Unido em pequenos barcos. Entre as instituições que assinaram este protesto contam-se os Doctors of the World, a Ben and Jerry’s, Unison, os Friends of the Earth, a Save the Children e a Refugee Action.

Recorde-se que, por ter criticado nas redes sociais a política proposta pela ministra do Interior, Suella Braverman, como não sendo “muito diferente daquela usada pela Alemanha nos anos 30”, o ex-jogador e atual comentador de futebol da BBC, Gary Lineker, foi despedido da televisão pública britânica, sendo readmitido ao fim de 10 dias por força da pressão da opinião pública.

Na semana passada, alguns líderes das igrejas Batista, Metodista e Reformada Unida tinham emitido uma declaração conjunta condenando o projeto de Lei como “completamente incompatível com a nossa convicção cristã de que todos os seres humanos são feitos à imagem de Deus e, portanto, são inerentemente dignos de tratamento que honre a sua dignidade”.

Também o rabino Jonathan Wittenberg, líder do judaísmo Masorti (tradicional) do Reino Unido, cujos pais fugiram da Alemanha nazi quando eram adolescentes, disse que o Governo estava “certo em querer impedir as travessias desesperadas do canal em barcos inseguros administrados por contrabandistas sem escrúpulos. Mas a maneira de fazer isso não é punir as vítimas. É estabelecendo rotas seguras para pessoas perseguidas; acabar com o ambiente hostil; e estabelecer uma forma justa, transparente e oportuna de processar os pedidos de asilo”.

 

Os silêncios de Pio XII foram uma escolha – e que custos teve essa opção?

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